Desde que tive o acidente que decidi que, quando trocasse de
carro, passaria para o primeiro andar, que isto de andar cá em baixo, ao nível
da estrada, é um verdadeiro martírio para as pessoas que, como eu, são umas assustadiças
ao volante. Ora, no outro dia, ía eu muito bem no meu carro ao nível da
estrada, quando vislumbrei ao longe um modelo novo de um jipe/suv (não sei bem
o termo técnico), bué lindão, que servia perfeitamente para mim, sobretudo
porque não me pareceu tão alto como outros, que tenho cá a sensação que a
entrada da garagem na Grande Obra, com a inclinação da rampa, não dá para
grandes aventuras. Acontece que o carro já ía lá à frente e, por mais que
tivesse acelerado, tipo stalker (no meu estilo assustadiço), não o consegui ver
como deve ser. Então resolvi ir ao stand para examinar o carro e saber se o
podiam levar à Grande Obra para ver se cabe. Ah, o que eu gosto de ir a stands…
Entrei, olhei em volta e nada do carro, perguntei então ao
senhor que lá estava se não tinham nenhum, que eu gostava de ver, e o senhor
respondeu-me que tinham dois de serviço para venda na Expo, que é sempre aquela resposta estranha, uma vez que – não tendo nada contra – não lhe tinha
perguntado pelos carros de serviço. Mas, bom, não podemos valorizar muito, que é bem sabido que quem compra carros
em geral e novos em particular são os homens e como eu não levava nenhum homem
para mo comprar não era, obviamente, uma cliente de fiar. Mas já que ali estava
e para não dar o tempo por perdido, lancei a minha mãozinha para o botão de
abertura bagageira de um outro modelo que lá tinham, que isto já se sabe, as
mulheres nos carros só querem saber do espaço da bagageira e se os espelhos das
palas têm luz, e eis se não quando o senhor dá uma salto de gazela,
ultrapassando-me pela direita, interpondo-se entre a minha mão e o automóvel e
diz-me indignado, praticamente gritando “Miiiiinha senhoooora!, Este é o nosso
topo de gama!”, como quem diz: não mexe, não toca, porque estraga!, e então, qual feiticeiro
praticando o truque de magia mais incrível do universo, toca no dito botão e diz-me,
aí sim, suavemente e com voz de veludo, como se a bagageira a abrir sozinha pudesse ser
confundida com um leão em posição de ataque a rugir na savana “não se assuste, é automático”.
E pronto. Vim-me embora.