É que sempre que olho para baixo, tenho a sensação que me esqueci de as vestir...
domingo, 10 de maio de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
A casa amarela
A casa amarela, ficava no prédio amarelo e era a minha casa antes desta, onde moro. Era bonita a casa amarela. Tão bonita que a comprámos sem cuidar de saber se, para além de bonita, seria confortável. E não era. A casa amarela tinha as paredes todas amarelas, a sala numa ponta, uma sala grande e amarela, com as mais belas janelas de madeira, tão belas que seria um crime substituí-las por janelas de PVC, um longo corredor amarelo com quartos e casas-de-banho dos dois lados, mais casas de banho que quartos, que a casa amarela tinha imensas casas-de-banho, uma loucura de casas-de-banho, casas-de-banho de todas as cores e feitios, sendo que uma delas era, obviamente, amarela, e a sala de jantar e a cozinha, também elas amarelas, na ponta oposta. A casa amarela era muito bonita, mas não tinha qualquer nexo. Aliás, no dia em que nos mudámos, fiquei com a torneira de segurança da casa-de-banho cor-de-rosa na mão. Propus-me a estancar os litros e litros de água que saíam da parede tentando freneticamente voltar a encaixar a torneira no sítio de onde tinha saído. Não consegui. Só quando o belíssimo soalho de madeira antigo estava todo alagado e a água fazia ondinhas quando nos deslocávamos pelas várias divisões, é que me lembrei de ir fechar a água no contador. Foi o primeiro aviso. Depois veio o Inverno e a casa amarela revelou-se gelada, tão gelada que, por mais que ligássemos aquecedores atrás de aquecedores, tinha de andar permanentemente de cachecol. Foi numa dessas noites em que tinha o cachecol enrolado ao pescoço que, ouvindo a chuva, me cheguei a uma das belíssimas janelas de madeira e fiquei a ver os pingos grossos a cair lá fora. Lembro-me perfeitamente de pensar de mim para mim enquanto via o meu reflexo no vidro da mais bela janela de Lisboa, que era bom estar em casa enquanto chovia lá fora, e que bem que se ouvia a chuva, tão bem que parecia que estava a correr dentro das paredes. E estava. Um segundo depois a água começou a jorrar através dos tectos trabalhados, água por todo o lado, baldes, esfregonas e cobertores, tudo pelo chão, e a água que não parava de cair por ali abaixo. Parece que foi um algeroz mal calculado. Mas era bonita, a casa amarela. Por fim e quando já estávamos ligeiramente desconfiados da casa amarela, lembro-me de uma noite em que uns potenciais clientes do meu consorte foram convidados para jantar, um jantar que correu bastante bem até ao momento em que, deixando a sala de jantar, aquela tal, resguardada lá ao fundo do corredor amarelo, avançámos para a sala. Uma noite em que o vento sudeste soprava louco, lá fora. Lá fora e lá dentro, que as belíssimas janelas de madeira uivavam de tal forma que não nos conseguíamos ouvir uns aos outros. No entanto agimos todos como se aquele tornado que nos entrava pela sala fosse a coisa mais natural deste mundo, um sistema de ventilação forçado do mais sofisticado que já se vira. Os clientes não ficaram. E nós também não. Mas era bonita, a casa amarela.
Duas adolescentes já bem crescidinhas passando os olhos pelos escaparates
-Olha... agora o Hobbit também já há em livro?!
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Eu até achava que estava moderna, dentro do meu género, claro
Mas depois o meu filho pergunta-me, horrorizado "oh mãe?! Por que é que calçaste os sapatos do pai?!"
Caramba, se não fosse a Ana... realmente não se pode contar convosco para nada!
Cabeleireiro. Montes de rosas na secretária. Hello?!
Acho que vou ter de admitir...
O meu cabelo deve ter mesmo um problema. É que depois dos ferros ela continua a cortar. Acho que está há uma hora e meia a cortar-me o cabelo. Ou, em linguagem técnica, a texturizar...
Só para avisar!
Que o meu cabelo está de tal forma longo, que a cabeleireira está a usar aquelas pinças de passar a ferro para o deixar direitinho e não enrolar para dentro, à pagem! Nunca tinha tido o cabelo suficientemente longo para ser passado a ferro!
Podem respirar de alívio
Também já tenho periscope!
(já agora aproveito para vos dizer que não estou só aqui. Estou em muitos sítios. Eu não queria adiantar muito sobre este assunto, mas estive a pensar e achei que era melhor confessar-vos toda a verdade: tenho o dom da ubiquidade)
quinta-feira, 7 de maio de 2015
E agora entrei na cozinha e dei com isto em cima da bancada
E depois de dar um grito aterrorizado, a pessoa pergunta-se "Oh Deus, será que o meu próprio marido, às escondidas, também tem um blog de vida saudável?!"
(fui provar. Blarghhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh)
Palmier, a blogo-historiadora, explica o Tempus Bloggate Obscurum
A dada altura da blogo-história e sem que saibamos exactamente como e quando, o equilíbrio de forças alterou-se e, de um período de sol radioso e de intensa felicidade, entrámos, lentamente e sem nos apercebermos, na idade das trevas, um tempo em que a peste amarela (2014-2015) extinguiu os delicados flamingos de penas cor-de-rosa e pernas longas e elegantes, substituindo-os por pelicanos cinzentos, de bico gordo e patas atarracadas, um tempo em que bloggers errantes se atacavam mutuamente, esvaziando os anónimos-maus das suas funções e fazendo com que estes caíssem, assim, numa situação de desemprego de longa duração, uma época conturbada de conflitos e escaramuças sangrentas, e os bloggers, coarctados nas suas liberdades e isolados nas suas fortificações cobertas por florestas de urzes e espinhos venenosos, começaram a definhar em frente dos seus computadores, o vento frio e húmido encontrou maneira de entrar, uivando, pelas frinchas das suas fabulosas janelas de PVC, o nevoeiro marítimo e a humidade enferrujaram os seus ratos e o musgo e o verdete tomaram conta dos seus teclados, fazendo com que, a pouco e pouco, a boa literatura de entretenimento fosse escasseando, restringindo-se assim ao máximo a circulação de ideias. Práticas bárbaras prevaleceram. Ainda assim, e apesar dos conflitos e contendas, o Tempus Bloggate Obscurum foi visto como uma época de fé, alguns bloggers, homens, mulheres e até crianças, persistiram na sua demanda. Uns tentaram afastar as forças do obscurantismo publicando post desinspirado atrás de post desinspirado ansiando assim pelo fim de uma época trágica, outros organizaram-se em cruzadas, levando o estandarte do Blogger até aos locais mais remotos da terra, sendo que, os que desistiram acabaram devorados por hordas de anónimos-maus que deambulavam, perdidos, pela internet.
Depois os bloggers pararam para reflectir.
Depois os bloggers pararam para reflectir.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Nós tentámos... mas isto está a tornar-se demasiadamente complicado...
Entrámos com o nosso veículo especial para a recolha de víveres directamente para uma selva de frutas e legumes, todos arrumados em belos e esquemáticos canteiros de pvc, à cautela, e antes que outros se apoderassem dos nossos alimentos, agarrámos logo numa caixa de uvas sem grainhas e outra de morangos, mas logo vieram as adeptas da vida fit, de barriga à mostra, tops e calças coleantes em padrão de ramagens tropicais e ténis de running, dizer-nos que estávamos loucos, que as uvas eram geneticamente modificadas e que os morangos eram de estufa, que não senhora, se queríamos frutas que levássemos antes uma caixinha de frutos vermelhos que, esses sim, estavam carregadinhos de radicais livres, uma coisa em bom. De seguida tentámos uma abóbora e umas batatas, mas os polícias da alimentação saudável, devidamente fardados com um colar de brócolos e um capacete de couve portuguesa substituíram tudo por quatro limões e dois abacates, com insistentes recomendações para os comermos logo de manhã, ao pequeno-almoço. Já desanimados, seguimos com todo o cuidado pelo corredor dos enlatados, mas não nos atrevemos a tocar-lhes, os enlatados eram muitos, de toda a espécie, assustadores, pareciam um exército pronto a atacar, todos perfilados, muito direitos nas suas prateleiras. Desembocámos então nas carnes e, quando nos preparávamos para recolher uma embalagem de bifes do lombo, disparou o alarme, com uma sirene medonha, acompanhada de uma voz assustadora num altifalante "alerta na secção de carnes vermelhas" e nós, encostados às vitrines frigoríficas, aterrorizados, deixámos tudo para trás e fugimos a refugiar-nos na secção dos chocolates e das bolachas. No entanto foi impossível passar, um exército de bloggers armado de bastões que usavam para bater ritmadamente na palma da mão oposta, tap, tap, tap discursavam sobre os malefícios do açúcar e nós, aproveitando o facto de eles estarem para ali distraídos, ainda tentámos apoderar-nos de um saquinho de Areias de Sintra, mas fomos imediatamente afastados com uma bastonada nos nós dos dedos e violentamente empurrados para a secção das granolas, aveia e de iogurte grego, light, desnatado, 0% de gordura e sem probióticos, que esses sim, é que eram bons. Já munidos daqueles incríveis iogurtes, pegámos num pack de pacotes de leite, mas logo vieram os adeptos do healthy lifestyle, que nos perguntaram se éramos doidos, se sabíamos os malefícios da lactose, se queríamos leite havíamos de levar o de amêndoas, ou de avelãs, e os rótulos, teríamos lido os rótulos de tudo quanto tínhamos no nosso carrinho, saberíamos o que estávamos a comer ou seríamos nós uns ignorantes, uns fundamentalistas da alimentação equilibrada, esse logro da primeira década do século XXI, que toda a gente sabia que agora a alimentação tinha de ser saudável ou, caso contrário, seria uma má alimentação . E aí desistimos, abandonámos o nosso carrinho especial de recolha de víveres e corremos pelos longos corredores até à rua, aclamados pelos maratonistas que viram naquela fuga um sinal claro da nossa vontade em abraçar um novo estilo de vida, gritando vivas e "força" e "vão conseguir". Por fim optámos por vir para casa passar fome. Parece que é mais seguro.
domingo, 3 de maio de 2015
sábado, 2 de maio de 2015
Fui buscar os óculos novos
os outros eram pesados e magoavam-me a cana do nariz. Já para não referir o facto do meu pai me ter perguntado se os tinha escolhido propositadamente para parecer mais velha...
(Não voltar a comprar óculos pesados! Fica a nota a ver se, para a próxima, não me esqueço dos meus próprios avisos)
sexta-feira, 1 de maio de 2015
O estranho caso do livro que lia o leitor (capítulo I)
Só o candeeiro em cima da secretária estava aceso, a luz amarela debruçava-se interessada sobre os pergaminhos que eram lidos por um homem curvado que segurava um grande monóculo. À volta a penumbra ia-se adensando e a escuridão envolvia as pinturas a óleo dos seus antepassados, pinturas que haviam sido penduradas há mais de dois séculos naquelas paredes apaineladas a madeira. À esquerda um retrato enorme da sua mãe, vestido comprido, verde esmeralda, de rendas e damasco, pregueado na cintura, uma pequena tiara de diamantes sobre um cabelo loiro apanhado e no ombro, em destaque, a tatuagem de uma caveira. À direita, dentro da grande moldura, o seu bisavô, cota de malha metálica, armadura com uma couraça anelada composta de lâminas de oiro e de metal entrelaçadas, elmo de bronze na mão direita e sabre de luz à cintura. O homem do monóculo levantou-se de repente atirando a cadeira para trás com tal violência, que o leitor, que acompanhava a descrição silenciosa daquela cena, deu um salto no no seu cadeirão, deixando cair o livro sobressaltado, livro que foi apanhado acto contínuo, para ficarmos a saber que o homem do monóculo se dirigiu rapidamente à porta, que entreabriu e, de costas para a grande sala, espreitou demoradamente através da frincha que se abria sobre o longo corredor. E o leitor, curioso, esticou o pescoço acima daquelas linhas, para, também ele, tentar espreitar através da frincha, mas o homem do monóculo, desconfiado, olhou-o de soslaio e fechou imediatamente a porta, dando duas voltas na fechadura com a grande chave de ferro escurecido.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Hoje de manhã vi andorinhas no céu
Ali estava eu, vivia dentro do armário do material de escritório, e as pessoas que trabalham aqui comigo, quando precisavam de papel, ou de canetas, ou de clips, ou de tinteiros, dirigiam-se ao armário, que eu ouvia-lhes os passos no chão de madeira, a aproximar-se, toc toc toc toc, abriam aquelas portas de correr com estrondo, vrrrrrrrrrrrr, diziam-me um bom dia distraído, tiravam meia resma de papel, piscavam-me o olho, cúmplices, e voltavam a fechar a porta, vrrrrrrrrrrr. E eu ficava lá dentro, aparentemente era a única que estranhava aquele local de trabalho, ninguém parecia ficar surpreendido com tal escolha. Às vezes passavam-me chamadas que me davam imenso trabalho a atender, porque o telefone estava no fundo da prateleira e aquilo era apertado, mas depois de um incrível esforço de contorcionismo lá conseguia atender. Às vezes aproximavam-se, entreabriam as portas, e perguntavam-me baixinho se queria um café e eu dizia que sim, por favor, que podiam trazer. Mas o pior, o que me preocupava, era a reunião que ia ter às dez. Como é que as pessoas se iam sentar?! Não iam caber ali! Mas a secretária, super eficiente, disse para não me preocupar, dispôs duas cadeiras em frente ao armário e quando as pessoas chegaram abriu as portas com um grande aparato, vrrrrrrrrrrr, e com um saltinho para o lado, indicando-me com os braços esticados, como se estivesse a apresentar um número de magia, deu-me a conhecer:
- Ei-la, a Doutora Palmier, muito inteligentski !
E eu, deitada na prateleira, toda torcida, encaixada entre os agrafadores e as borrachas, levantei uma mãozinha e fiz uma cara semi-envergonhada, uma uma cara igual à que o meu pai faz quando o apresentam a alguém, uma cara acompanhada de um encolher de ombros, como quem diz, estou aqui mas não tenho nada a ver com isto. Depois acordei.
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