quinta-feira, 6 de março de 2014

O busto

Aquela casa na Beira-Baixa era muito esquisita, tinha um hall com um tecto muito alto, tão alto que ia até ao telhado, era uma casa com uma torre escondida lá dentro e, na parede da torre havia janelas, janelas que amarinhavam por ali acima, janelas desalinhadas, janelas que davam para dentro de casa. Parecia uma matrioska aquela casa, com janelas que se abriam para dentro de si própria. Como se a casa estivesse ali debruçada, atenta, com os seus olhinhos matreiros a espreitar quem chegava. Por causa dessas paredes tão altas aquele hall fazia eco e, por isso, respondia-nos. Era uma casa que olhava e falava. Do que mais me lembro daquela casa, é daquele hall, era mesmo esquisito aquele hall cheio de janelas e palavras. Também me lembro do meu quarto. Que medo, o meu quarto, que tinha uma janela que dava para o hall e daquele hall que via e falava não podia vir boa coisa. Vinha luz, é certo, a luz que escorregava pela porta da sala e que depois subia pela parede acima e me entrava pela janela, mas, com a luz, também vinha o medo, o medo que deslizava por ali dentro, um medo tão grande, tão grande que me enchia o quarto, deslizava para debaixo da cama, e ali ficava, calado, paradão, a certificar-se que eu estava mesmo, mesmo, amedrontada, depois começava a crescer, a subir, a subir, a crescer, enorme, ocupava tudo e ficava ali a pairar, assustador como só o medo sabe ser. Acontece que, quando me deitavam na cama não havia nada a fazer, não podia fugir, se fugisse tinha de descer as escadas e passar pelo hall e, para além disso, eu era muito pequena e os cobertores eram muitos e muito pesados e por isso não me restava outra opção senão deixar-me ficar ali deitada, espalmada naquela cama de ferro, agarrada ao saco de água quente, a sentir a janela a olhar para mim e fechar os olhos com força, para ver se me esquecia.
Não sei se as janelas ainda lá estão, nunca mais voltei a entrar naquela casa, estive lá à porta umas quantas vezes, uma porta encarnada com ferragens pretas, porque aquele hall cheio de janelas e sons só podia ter uma porta encarnada com ferragens pretas. A última vez que lá fomos, foi para a inauguração do busto, que coisa tão estranha essa de inaugurar um busto, e que palavra tão feia essa: “busto”, uma palavra que lá longe, no latim, se referia ao lugar onde se queima ou enterra um cadáver. Também foi estranho isso do busto, é que devia ter sido uma estátua, mas não, lá no sítio da casa com janelas que dão para dentro, só se fazem bustos. A minha avó ficou muito zangada com isso do busto, é que lhe tinham dito que era uma estátua e aquilo afinal não era uma estátua nenhuma, toda a gente sabe que as estátuas têm pernas e braços. Para além disso aquele busto não estava nada parecido com o meu avô, que era muito mais bonito, parecia impossível que o tivessem feito assim tão feio e, ainda por cima, depois do cuidado que ela tinha tido a escolher uma fotografia que o favorecia tanto. Ainda disse isso alto e bom som e com aquela cara de reprovação que só a minha avó sabia fazer, aquela com os olhos para baixo mas a olhar por cima. Mas, apesar da indignação, lá se resignou, afinal sempre era melhor termos o nosso próprio busto de família, do que sermos uma família sem busto.

Um dia destes, em vez de ir ao Alentejo, levo os meus filhos à Beira-Baixa, a ver o busto e, com sorte, talvez nos deixem entrar na casa das janelas viradas para dentro. Vamos de mão dada, para eu não ter medo, claro.


23 comentários:

  1. As casas da nossa infância, as casas de família, que depois se perdem, por uma razão ou por outra, não interessa, são Nós que nos crescem na garganta, mas temos de aprender a desatar os Nós.
    (é muito bonito pertencer a uma família com busto - ou dois, ou estátuas de corpo inteiro - e motivo de orgulho. Mas também acarreta muitas mais responsabilidades e, não raras vezes, muitas mais tristezas)
    Um abraço forte, que é o que precisas :)

    ResponderEliminar
  2. Por isso é que gosto deste blog, tanto da para uma pessoa que se rir como depois tem estes textos fantásticos :) parabéns palmier.

    ResponderEliminar
  3. Escreves tão bem Palmier que me consigo imaginar dentro da casa que espreitava.

    ResponderEliminar
  4. Se visse em filme, não seria mais real... :')

    ResponderEliminar
  5. Venha, venha.
    Que eu dou-lhe a mão e ofereço-lhe um chá.

    AnaB

    ResponderEliminar
  6. Consegui imaginar a casa...e fiquei amedrontada.

    ResponderEliminar
  7. Lembrei-me da casa de uns familiares em Portalegre onde passávamos algumas noites nas férias. Não fosse ter a minha irmã, mais velha que eu 5 anos, comigo e teria morrido aterrorizada. Tinha para aí 5 anos e ainda hoje, aos 37, sinto medo quando me lembro daquela casa. E das portas que pareciam de elevadores. E dos relógios de cuco de colecção que se punham a cantar todos em simultâneo... credo! Entendo-te bem, eu também não me sentiria muito confortável em lá voltar...

    ResponderEliminar
  8. Ena que grande descrição como sempre, já agora, hoje eu tenho mais uma entrevista no blog das boas!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. No blog das boas?
      Quem são? Aquelas distinguidas no blog da Salmora?

      Eliminar
    2. Para que conste, isto também é meu!
      E mais não digo.

      Eliminar
  9. Fiquei curioso... bom bom era ver umas fotos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ora bem! Uma malha de cada vez, que duas de seguida não há mulher que aguente. Para reservado o direito de admissão na consagração blogosférica, a menina já foi à vida!
      Botada para escanteio, sem apelo nem agravo!
      E mais não digo!

      Eliminar