terça-feira, 22 de maio de 2018

E o bem que este par (só está aqui um mas são dois) de candeeiros vai ficar com aquela fotografia das meninas de rolos na cabeça?


Acho que nem Kafka conseguia melhor



Foi quando lhe disse que sim, que a íamos admitir, que ela olhou para o chão e me disse desalentada que não tinha documentos, que veio para Portugal com seis anos, que fez cá a escola, que vive cá desde essa altura mas que os pais, que nunca quiseram saber dela, não lhe trataram da documentação enquanto era menor e que, depois de ter deixado a escola e atingido a maioridade, não tem forma de provar que cá reside, que o SEF exige uma série de meses de descontos para a Segurança Social para poder passar a autorização de residência mas que ninguém lhe faz um contrato de trabalho porque não tem autorização de residência (sujeitando qualquer empresa que a contrate a uma multa) e os que o fazem, fazem-no à candonga e sem pagar segurança social. 

Então que peguei no telefone e falei para a pessoa que tem seguido o processo, que me disse “é preciso que alguém lhe faça um contrato de trabalho, é preciso que alguém se arrisque por estas pessoas”, que de outra forma não conseguem os papéis. Então…, mas assim estávamos a cometer uma ilegalidade e podíamos ser multados!… bem sei, disseram-me de lá, mas não há outra forma. Então e se fizermos um contrato-promessa de trabalho? Aí não estávamos a cometer nenhuma ilegalidade… pois, mas assim ela não preenche outro requisito, que é o de provar que tem meios de subsistência, porque não tem ordenado- só uma promessa de ordenado- e, como tal, não lhe dão a autorização de residência. E depois fui ver a lei, e lá está, como requisito de atribuição da autorização de residência a existência de um contrato de trabalho (ou promessa). Acontece que a lei também prevê que as empresas que contratarem trabalhadores sem autorização de residência estão sujeitas a multas que podem ir de dois a noventa mil euros…

E pronto, fiquei a saber que a única forma destas pessoas (condenadas pela lei a viver no limbo, a ser transparentes) serem legais é conseguirem que alguém lhes faça um contrato de trabalho ilegal…

quinta-feira, 17 de maio de 2018

E o que andaste a fazer hoje, Palmier?

Depois de muito pedinchar e insistir, depois de ter sido regiamente ignorada durante meses, desloquei-me secretamente à obra, às escondidas dos arquitectos, para pedir para me porem um estendal. 

(Agora acho que vou lá deixar um copinho de água com uma caixa de Lexotans para quando eles derem com a coisa...)

terça-feira, 15 de maio de 2018

E nestes extraordinários tempos em que toda a gente expõe a sua vida nas redes sociais ao mais ínfimo detalhe


Nós pomos em prática o regulamento de protecção de dados, destruímos papelada, fechamos armários à chave, pomos cadeados nas gavetas, compramos software para mascarar as informações das bases de dados. Caramba, isto parece um ministério em mudança de ministro, a azáfama é tanta que os destruidores de papel aquecem, temos de lhes levantar o capot e soprar, para de imediato continuar com a nossa destruição implacável, secretárias limpas e imaculadas, como se ninguém cá trabalhasse não vá a fiscalização aparecer e aplicar-nos uma grande multa. Depois quando soçobramos com dificuldades respiratórias, exaustos, cobertos de pó e tirinhas de papel, fazemos um intervalo, ligamos o instagram, o facebook e os blogs e lá estão os nossos protegidos, felizes, em casa, na escola, na praia e no campo, expondo os seus próprios dados e os dos filhos, os dos pais, dos avós e do periquito, fazendo valer a nova máxima de Descartes "apareço, logo existo"como se, se não se expusessem, não existissem realmente.

(curiosamente fui só ali num instante às internetes confirmar se naqueles documentos do Estado, de consulta pública, os dados também já estavam ocultos e não, ali está o meu nome, cargo, NIF, estado civil, nome do cônjuge, regime de bens e morada. À distância de um qualquer clique)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Esqueci-me de trazer o livro para esta situação de esperar que a minha filha ande de patins

Ora, estando limitada ao telefone e com o verão mesmo aí ao virar da esquina, fui para os sites das compras. E o que comprei eu?

 Umas botas... 

(nada como preparar as estações com a devida antecedência, para depois não sermos apanhadas de surpresa por uma aragem mais forte, ou por um aguaceiro ou assim)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Bem que a marca me podia pagar este post como publicidade!

E então ontem, quando chegámos a casa, disse ao meu filho: olha, tens de me ajudar a levar as coisas que estão no porta-bagagem para cima. E então saímos do carro, abri a porta da bagageira e à visão dos dois sacos de ração de pequena Cutxi, daquela ração que cheira mesmo a ração, ele suspirou desiludido "Ah.... que pena... afinal é a ração da Cutxi... é que me cheirava tãooooooooooooooo bem dentro do carro que pensei que era o nosso jantar ou assim..."

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Fecharam-me no porão sem wi-fi, foi?

Então lá terei de recorrer a métodos ancestrais para saber o que estão a urdir!


Título: Silêncio, minha boa gente! Silêncio, por favor! 
Dim: 100x150 cm
Acrílico s/ tela

sábado, 28 de abril de 2018

É falso, é falso! É tudo falso!


Desde que fui democraticamente eleita sucessora hereditária aos comandos do Aleph, o Navio, decidi que navegaríamos ao sabor da aragem. Içámos as velas, recolhemos o leme e deixámo-nos ir, levados pelos vento dos loucos e pelas correntes mais poderosas dos oceanos, pilhámos paquetes, pescámos sereias e tritões, fomos engolidos pelas piores tempestades do Mar do Norte, rodopiámos no furação do triângulo das Bermudas, chegando mesmo a ser dados como desaparecidos, subimos o rio Amazonas, onde, os bloggers que aderiram aos outfits primavera-verão com tendência floral e ramagens, ficaram perdidos para todo o sempre, confundidos com a vegetação. Para obviar a esta situação de desaparecimentos misteriosos, determinei, por razões de segurança e inspirada na vasta experiência das escolas que levam crianças em visitas de estudo, que a tripulação deveria envergar uma farda. Depois de uma profunda pesquisa nos sites de moda mais destacados, o modelo eleito foi o vestido castanho Handmaid's Tale, anunciado por Pipoca mais Doce. O último grito da moda, portanto. Foi sem dúvida uma excelente medida, a tripulação estava finalmente segura e a salvo, silenciosa e, modéstia à parte, bastante bonita. 

Agora a ex-capitã regressou cheia de sacos da Disney com fatos de Cinderela, de Ariel, de Aladino, de Pocahontas e sei lá mais o quê, e fecharam-me aqui no porão, amarrada com estas cordas e soterrada por todos os vestidos castanhos que havia a bordo. Sinceramente não percebo, uma pessoa preocupa-se, quer fazer o bem e depois dá nisto.

Sempre quero ver quem é que trata da segurança desta gente a partir de agora... 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

E então, Palmier, quando te mudas?


Talvez quando receber o carro novo e conseguir escalar para dentro da garagem… sim, escalar. Porque o meu carro, que não é propriamente um desportivo, não entra. Verifiquei isso mesmo este fim-de-semana, perante o olhar estarrecido de um grupo de turistas. Ali estava eu, vrum, vrum, pódérósaaaa,  a sacar do comando, o portão- lindo por sinal - a abrir, os arbustinhos lá dentro a dizer-nos olá e a cintilar à luz do sol, e vá de embicar o carro para o interior, as rodas da frente sobem o passeio, sobem o lambril da garagem e antes das de trás iniciarem a sua subida, raccckkkkcchhhhhhhcccracc, a parte de baixo do carro a arrastar no chão. Lá fiz marcha-atrás, outra vez o raccckkkkcchhhhhhhcccracccckhhh, e os turistas de boca aberta e mão na cabeça, lá cheguei tudo à esquerda - que os degraus são mais baixinhos - para fazer a segunda tentativa, lá pus as rodas da frente, raccckkkkcchhhhhhhcccracccckhhh, lá voltei a fazer marcha-atrás, raccckkkkcchhhhhhhcccracccckhhh, lá fechei o lindo portão, fiz adeus aos turistas e fui-me embora.

Pois que vejamos: a Câmara exige que na reconstrução dos edifícios se façam garagens, o que me parece muito bem, já que todos sabemos o inferno que é estacionar nesta cidade, os cidadãos fazem os projectos de reconstrução com garagem, a Câmara aprova o projecto com aquela garagem mas, depois, o senhor do departamento de acessibilidades, que verifica estas coisas na prática, diz, literalmente – o senhor disse mesmo isto - que se está nas tintas para os carros, se entram ou não, e que só quer saber dos peões, e que, para os peões, os passeios não podem ter inclinação.

Moral da história: os carros não entram nas garagens que a Câmara aprovou...


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Assim uma ermster ou hipsmita

Ou seja, uma hipster dos ermitas. Com uma gruta super cool, cheia de tapetes fofinhos, aquecimento central e uma barba bem aparada. Não quero nada ser uma ermita cheia de folhas secas presas num cabelo emaranhado.

Mas tinha de ser uma ermita com algum estilo

Não podia ser assim uma coisa toda desconchavada.

Na verdade, na verdade...

O meu sonho era ser ermita.

(mas não sei porquê, não me deixam...)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Hello!

Fui ao cabeleireiro pintar o cabelo logo às oito da manhã, que é programa que abomino, mas tem de ser, uma vez que pretendo continuar a enganar toda a gente com a minha incrível juventude de cabelo castanho médio, referência N345, e logo eu que detesto ir ao cabeleireiro hoje quase quis que demorasse mais uns quinze minutos, que me faltavam sete páginas para acabar Os Despojos do Dia e estava mesmo lançada, nem mesmo a voz estridente da senhora das tintas me conseguiu desconcentrar, e, digo-vos, a voz estridente da senhora das tintas é capaz de acordar um urso hibernado a sete quilómetros de distância, mas pronto, por outro lado ainda bem que fiquei com aquelas belíssimas sete páginas para logo à tarde, para quando for levar a minha filha à situação de andar de patins, porque tê-las ali à minha espera também é muito bom.

(agora tenho de ir à procura do filme)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Diário de bordo

Desde que a Capitã Cuca abraçou uma vida de blogger de sucesso, com corridinhas junto ao rio, lojas e restaurantes gourmet, que fiquei aqui sozinha a tomar conta do navio Aleph. Na sua apressada saída deixou-me apenas um pequeno baú com uma camisa de noite até aos pés, de um branco imaculado, com instruções específicas para só ser usada nos três dias do vento dos loucos e um vale para, em momentos de desespero, chamar Fernando Josué. Á proa do navio, vestida com a camisa de noite até aos pés, com o cabelo num desalinho como é meu apanágio, lutei contra o vento dos loucos durante dois dias e duas noites. Ao fim da segunda noite insone, derreada pela força das ondas e os uivos do vento, desci ao porão, abri o baú, e chamei por Fernando Josué que se materializou numa questão de segundos. Não sabia eu que Fernando Josué era uma pérfida armadilha preparada pela ex-capitã para me obrigar a fazer má figura perante os outros piratas que cruzam os mares.. Fernando Josué, a gaivota, pousou no mastro mais alto do navio e ali ficou durante dias e dias e noites e noites, alternado os seus gritos entre um saco de gatos à luta, um bebé recém nascido com cólicas insuportáveis e infindáveis gargalhadas maquiavélicas. Tentei de tudo, deitei-me no catre sob uma pilha de trezentos cobertores, bati as palmas para afugentar Fernando Josué, escondi-me dentro de um barril de rum mas em lado nenhum estava a salvo dos terríveis sons por ele emitidos. Foi então que decidi jogar-me ao mar. Enchi a minha bóia de flamingo, tapei o nariz e mergulhei de pés no oceano revolto. A última imagem que vi foi esta: Fernando Josué gargalhando vitorioso no cimo do mastro.