sábado, 28 de março de 2015

Eu bem queria dar-vos novidades de Canis

Mas andam a pintar a casa, ele pega ao serviço muito cedo e só volta para dentro a esta hora, quando dá o trabalho por terminado.

Coisas que eu já tinha a obrigação de saber

Champô para os miúdos, só com doseador.


Este frasco foi utilizado uma vez. Para lavar "um" cabelo. De rapaz.

Olha, Cuca, já aqui está :)


E agora, Palmier, estás a comer umas amêijoas e um robalo grelhado?



Na verdade, não. Estivemos de calculadora na mão, a fazer contas ao que podemos comer. Três hamburgers simples, uma dose de batatas para os três, uma Coca-Cola para os meus filhos dividirem, uma imperial para mim e dois cornetos de sobremesa. Só tenho vinte cinco euros na carteira e o restaurante não aceita multibanco.

Vá, anda lá!


sexta-feira, 27 de março de 2015

E então, Palmier, o que estás a fazer?

Ora então, chegámos e a empregada estava a acabar de passar o chão com a esfregona, o chão estava húmido, tudo normal, sem problema. Deixámos as malas e fomos lá para fora. Uma hora depois, quando voltámos a entrar, o chão continuava húmido e eu comecei a perguntar-me se, antes da esfregona, teria sido usada uma mangueira. Resolvi então abrir todas as janelas, para arejar. Uma hora depois, com uma corrente de ar medonha, o chão continuava húmido e extremamente escorregadio. Optei então por acender os aquecedores eléctricos, caramba, tenho de me ver livre da humidade!, pensei eu de mim para mim. Mas, uma hora passada, o chão, em vez de melhorar, estava pior, parecia uma pista de patinagem artística, e nós com as pernas a fugir cada uma para seu lado, e eu aos gritos, cuidado, cuidado, não corram, podem cair, vão com cuidado, agarrem-se às paredes, e o chão cada vez pior, e os cães a derrapar, e eu a enlouquecer. Foi então que me lembrei dos aquecedores a gás, fui buscar os três, o raio da humidade não havia de levar a melhor, os dois Hotspot e o Spring It a bombar, os aquecedores das casas-de-banho no máximo, a uivar, três horas depois o chão continua na mesma e eu percebi finalmente que o problema não é humidade, o problema é o produto que foi usado (cera?), e agora que a casa está um forno absolutamente impossível, uma coisa extremamente tropical, eu estou aqui de esfregona na mão, com afrontamentos, a lavar isto tudo outra vez, a ver se chegamos a amanhã inteiros.

Às vezes basta isto

Sol, uma estrada e música.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O Estranho caso do Engenheiro Acácio

O Engenheiro Acácio acorda todas as manhãs entusiasmadíssimo; entusiasmadíssmo é como quem diz, que o Engenheiro Acácio tem de manter a fleuma e, como tal, não é homem de se entusiasmar por aí além. Voltemos então ao início.
O engenheiro Acácio acorda todas as manhãs entusiasmado q.b., no fundo sabe que tem uma missão a cumprir e isso é o suficiente para o alegrar, uma vez que o Engenheiro Acácio é, sobretudo, um homem de missões.
Depositado nas costas da cadeira do seu quarto está, muito direitinho e preparado de véspera, o seu fatinho escuro às riscas, a sua camisa branca, a sua gravata verde garrafa e, no chão, numa linha paralela perfeita, os seus sapatinhos de sola, imediatamente ao lado da sua mochila. Em cima da mesa, enfileirados, os seus cartões verdes, amarelos e vermelhos. O Engenheiro Acácio acorda bem cedinho, porque isto de ter uma missão é coisa importante e, quem tem uma missão, tem de a cumprir em condições. Assim sendo, veste-se com aprumo, calça-se, atando os atacadores com dois lacinhos redondos e perfeitos, amarra firmemente à cabeça uma fita encarnada, à Rambo, a fita que revela ao mundo a perigosidade da sua incumbência, dedica largos minutos a polir os seus cartões coloridos, os conhecidos cartões da Moral, os cartões que lhe foram atribuídos numa linda cerimónia pela Santa Inquisição, guarda-os com todos os cuidados num porta-documentos de pele de borrego que é cuidadosamente guardado na mochila que, por sua vez, é profissionalmente colocada às costas, e, nestes preparos absolutamente assustadores, parte no seu passo aprumado e oficial para a floresta, para fazer a sua ronda Moralizadora.
E o Engenheiro Acácio lá vai, perscrutador, por entre galhos pavorosos, que insistem permanentemente em despentear-lhe as lustrosas e cuidadas melenas, folhas que insistem em cair-lhe nos ombros e que ele sacode incessantemente, de olhos bem abertos, a cumprir escrupulosamente o seu mister: caçar as terríveis, perigosas e inomináveis prevaricadoras. O Engenheiro Acácio é, no entanto, extremamente cuidadoso, que a floresta é local ermo, arriscado e traiçoeiro, e o Engenheiro, homem do mundo como gosta de se considerar, sabe muitíssimo bem que não pode pôr o pé em ramo verde, pelo que todos os seus gestos são estudados para que possa saltar de nenúfar em nenúfar sem nunca tropeçar e estatelar-se na lama. Mas se o Engenheiro Acácio é geralmente um homem cuidadoso e cortês com todos aqueles com quem se cruza na floresta, "bom dia minha Senhora, vai muito compostinha nesse coche alemão, sim senhor! Passou no exame! Aqui tem um cartão verde", "como vai o Senhor Doutor, ai essas polainas... deviam estar mais reluzentes, aqui tem um cartão amarelo", com as prevaricadoras, aquelas que saem da linha, uma linha que o Engenheiro Acácio definiu com esmero ao longo de anos e anos, consegue ser absolutamente implacável, sendo, aliás, muito pior que as próprias. Não que seja sanguinário, que o Engenheiro, como engenheiro que é, faz questão em ser sempre muito gentil, mas, de cada vez que apanha uma dessas prevaricadoras, tira do bolso o seu lenço de seda da Índia, passa-o pela testa, devolvendo-o de seguida ao bolso da sua sobrecasaca e diz, corajoso e com voz segura de quem fala em nome de um povo e da autoridade instituída, cartão vermelho na mão direita, a esquerda pousada no ombro da prevaricadora, paternalmente, "Então, então, minha Senhora, por quem é! A Senhora é muito instruída para ter ideias tão... tão anticivilizadoras! Prudência! Prudência! Os regulamentos são muito explícitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos! O nosso público não é afecto a cenas de sangue" e, com voz persuasiva, acrescenta "dê mais alegria ao blog, o leitor sai mais aliviado. Deixe sair o leitor mais aliviado!".

E ao fim do dia, quando o vêem regressar ao seu quartinho, missão cumprida, ouvem-se suspiros pela floresta, "que grande homem", dizem umas, "que justiceiro", dizem outras, e o Engenheiro Acácio, glacial e polido, diz-lhes "minhas senhoras, então? Mas, no fundo, é disso que está à espera, que o Engenheiro Acácio está aqui para ser visto, desejado e, já agora, para sair bem no daguerreótipo. Sim, sair bem no daguerreótipo é fundamental.



sábado, 21 de março de 2015

Sábado à tarde

Uma amiga da minha filha veio cá a casa, estiveram no veste e despe, a brincar às passagens de modelos (o estado daquele quarto, Mamma Mia!). Dos adereços faziam parte brincos autocolantes (nenhuma tem as orelhas furadas). O susto da mãe a olhar para as orelhas da filha quando a veio buscar! 

- Ah, é verdade, furei-lhe as orelhas! E também lhe tatuei uma caveira nas costas!



A congeminar


quinta-feira, 19 de março de 2015

Tenho uma tristeza no coração

Acho que nunca poderei ser banqueira. Gesticulo demasiado. Parece-me bem que, para se ser banqueira, é necessário primeiro estudar para esfinge.

E também tenho uma excelente memória :( o que é claramente um terrível handicap.



Queria tanto estar em casa a ver o nosso Bankster...

Snif.



E quando as reuniões nunca mais acabam, o que fazes, Palmier?

Aquelas que se prolongam indefinidamente? Aquelas em que já está tudo falado e esclarecido e até parece que estão mesmo, mesmo, a terminar, aquelas em que a pessoa até já está a pegar nas suas coisinhas porque não há mais nada a dizer e, de repente, nesse exacto momento, alguém faz uma pergunta sem nexo reacendendo a reunião, e a reunião fica outra vez crepitante e cheia de labaredas bem amarelinhas? 


Eh pah... levanto-me e digo "Olhe, já estou farta! Vamos ficar por aqui, sim?"



quarta-feira, 18 de março de 2015

A Assembleia-Geral

O afã começa logo da parte da manhã, com o cuidado que o Senhor Pereira dispensa à arrumação da sala de reuniões, organização dos vários exemplares do Relatório e Contas finamente encadernados e perfeitamente alinhados em cima da mesa, garrafinhas de água acompanhadas dos respectivos copos e, para rematar, canetas e blocos de notas que ficam invariavelmente por utilizar e que passam de ano para ano como relíquias preciosas. 
Depois, aí pelas duas e meia da tarde, começam a chegar os convivas, para a Assembleia que se encontra marcada para uma hora mais tarde. No fundo trata-se de um dia especial, que não permite atrasos ou contratempos de qualquer espécie, pelo que mais vale prevenir e chegar um "bocadinho" mais cedo. 
A primeira a apresentar-se é invariavelmente a Senhora Dona Teresina, viúva de um dos sócios, leva o seu papel muito a sério e, com os seus oitenta e seis anos apresenta-se munida da sua pastinha preta de aspecto profissional, que contém apenas uma caneta, a única caneta com que consegue assinar, aquela com que consegue ludibriar o Parkinson. Pergunta sempre pela família e pelos meninos e senta-se numa cadeira, a olhar em frente, à espera. A Senhora Dona Teresina sofre muito dos nervos por causa dos senhores dos bancos, que lhe telefonam amiúde com propostas indecorosas de depósitos e aplicações que a Senhora Dona Teresina não compreende. Ultimamente tem sido fustigada por telefonemas do Novo Banco, ou “os verdes”, como lhes chama, que lhe explicam que os outros, os da Caixa Geral, têm lá muito dinheirinho e que a Senhora Dona Teresina havia de ser boazinha e havia de passar uma parte do dinheiro que tem nos "outros" aqui para nós, para ficarmos todos mais equilibrados, e a pessoa ainda lhe diz que não vale a pena ficar naquele estado de nervos, que a Senhora Dona Teresina diga lá aos senhores do Novo Banco que se lhe voltarem a falar nesse assunto tira de lá o dinheiro todo e que o deposita no Totta, mas a Senhora Dona Teresina sente medo dos senhores do banco, que é uma pessoa sozinha, e hoje em dia nunca se sabe, “ainda me fazem mal!” De qualquer forma, não adianta dizer-lhe grande coisa, que a Senhora Dona Teresina não ouve nada porque se recusa a usar o aparelho auditivo. O segundo a chegar é o Senhor Manuel, sobe a escada de bengala mas abandona-a à porta, para parecer mais jovem que os seus oitenta e nove anos. O senhor Manuel não perde tempo e fala de todos os médicos a que tem ido, e têm sido muitos, tínhamos ali conversa para vários dias, doenças, medicamentos e mezinhas, consultas, cirurgias, hospitais, anestesias e analgésicos, tratamentos e fisioterapias, o que se quiser, como na feira, tudo contado com incrível detalhe, detalhes que na verdade ninguém quer saber mas que todos ouvem acenando com fingida atenção. De seguida chegam os restantes sócios, o ROC, o TOC, e ali ficam a conversar sobre o estado das coisas, o Governo e os impostos, que já se sabe, isto está tudo muito mau e a tendência é para piorar. Por fim, às quinze e trinta em ponto, chega finalmente o Presidente da Assembleia-Geral, cargo que é ocupado pela mesma pessoa vai para cima de trinta anos. O Presidente, advogado outrora famoso, foi refinando com a idade, e agora, aos oitenta e oito anos e assumiu-se claramente como um machista arrogante e abjecto que nutre um profundo desprezo por todas as mulheres que se atrevam a ser mais do que umas simples e extremosas donas de casa, uma espécie de militante do Estado Islâmico, versão 1940, com quem, naturalmente, mantenho um sanguinário diferendo vai para cima de dez anos. Pois então o nosso Presidente entra, cumprimenta-me em primeiro lugar, e fá-lo como habitualmente, "gosto em vê-la Xôtora, ah, mas está com muito melhor aspecto!” E depois de me avaliar de cima a baixo, larga a primeira granada, "engordou aí um quilo e meio, não?" fugindo de imediato, antes que lhe possa sequer responder, apressando-se a cumprimentar todos os presentes como se nada fosse. Feitos todos os cumprimentos, sentamo-nos finalmente à mesa e, num ambiente vagamente religioso, dá-se finalmente início à Assembleia-Geral. Ao mesmo tempo que se lê o ponto um da Ordem de Trabalhos, circula o livro de presenças que vai sendo assinado à vez. É portanto enquanto se analisa o exercício de 2014, que a Senhora Dona Teresina abre a sua pasta preta de executiva, de lá retira a sua caneta mágica, respira fundo como que para ganhar coragem para aquela pesada responsabilidade anual, profere um audível “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, benze-se e então sim, guiada pela força de Deus, arremete finalmente contra o livro de presenças, para aí deixar a sua assinatura, a prova do cumprimento da sua obrigação. Nisto, e enquanto se analisam os números, o Presidente pára tudo, volta a olhar para mim - que tinha passado a manhã de um lado para o outro, à chuva- "a Xôtora tem um penteado novo?" "Não Xôtor, não tenho", "ah, estou a ver... foi então ao cabeleireiro?" "Fui sim, Xôtor, fui fazer o meu Penteado-Especial-Assembleia", e com esta terrível dúvida esclarecida passamos então à votação das contas de 2014, através do método de sentados e levantados, que reforça a ideia sacro-santa do evento - quem é a favor deixa-se ficar sentado, quem é contra deve levantar-se -, método terrível, que toda a vida impediu os sócios minoritários, já de si inibidos pela situação, de votar contra fosse o que fosse, obrigando, aliás, a que todos fiquem absolutamente imóveis, não vá dar-se o caso de um qualquer gesto ser tomado como um voto contra. Foi enquanto se analisava o ponto seguinte da ordem de trabalhos que se abriram umas garrafinhas de água para descontrair, que isto de votar contas por unanimidade é coisa cansativa, uma água para aqui, outra para ali, e a Senhora Dona Teresina, quer uma aguinha? E a Senhora Dona Teresina estica o braço, olha fixamente para o relógio (?) e, depois de uma pausa de vários segundos para estudar o mostrador, responde convicta: "ainda não, obrigada!". Por fim, e uma vez analisados e votados todos os pontos da ordem de trabalhos, são então feitos os costumeiros votos de louvor, louvam-me a mim, louvam os outros dois gerentes, homens de barba rija, louvam-nos muito com diversos hossanas e, depois de termos sido profusa e devidamente louvados, dá-se por encerrada a Assembleia, e o Xôtor, já esquecido da sua bomba inicial volta a dizer-me "Muito gosto em vê-la! Está com muito bom parecer! À última vez que a vi tinha uns bons quilos a menos. Talvez cinco ou seis, não? Foi Xôtor, engordei quatro ou cinco agora mesmo, durante a Assembleia...


Daqui a uns dias havemos de receber o livro de actas, porque a nossa acta ainda é passada ao livro, com letra desenhada, que o Senhor Presidente não acredita nessa coisa da informática, que não é de fiar e, miraculosamente, vamos voltar a constatar que lá constarão os louvores dirigidos aos homens de barba rija, mas que o senhor Presidente vai voltar a fazer desaparecer os meus próprios louvores, e, caramba, nunca lhe hei-de perdoar isto do furto dos meus louvores! É que uma mulher ressente-se com estas coisas! Levem-me tudo, mas deixem-me os meus louvores!