sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Tanganica -The Return

Depois de termos sido abandonadas pelo nosso Grande Líder, deambulámos por muito tempo pelas terras devastadas de Tanganica, carregando no regaço o ícone dourado de São Sansão, o único objecto sagrado resgatado do Templo do Grande Pássaro, consumido por enormes labaredas sulfurosas no próprio dia em que fomos por Ele enjeitadas, foi esse o tempo em que densas nuvens plúmbeas cobriram o sol e que a nós, as outrora graciosas flamingas de plumagem colorida e sedosa, nos pareceu infinito, tempos de trevas tenebrosas em que a desolação se instalou e a alegria se esvaiu juntamente com as enxurradas de lama vulcânica, tempos em que a fome grassou, obrigando-nos a lutar arduamente pela sobrevivência, num claro downgrade ao lifestyle a que fôramos habituadas, tempos em que aquele que era conhecido como o lago mais blogosférico da Blogosfera deixou de servir pequenos almoços com panquecas e papas de aveia, em que deixámos de saber novidades sobre os must-have mais recentes e em que os brunches foram definitivamente suprimidos, impossibilitando-nos de alimentar os nossos blogs e instagrams, tempos sem lei nem ordem e em que ventos gelados sopraram das estepes polares, obrigando-nos a cobrir a nossa plumagem desbotada com velhos sobretudos de colecções passadas, lutando contra ciclones, ajoujadas pela força das cinzas suspensas no ar e pelo peso dos nossos parcos haveres - os poucos que resistiram ao saque generalizado da nossas fronteiras desprotegidas - tempos em que, gemendo, rastejámos pelos pântanos de enxofre por onde vimos partir as nossas conterrâneas com o farnel dependurado num velho cabo de vassoura, numa onda de emigração em massa de Tanganiquienses em busca de segurança e melhores condições de vida, reduzindo a nossa população a níveis perto da extinção. Mas estamos crentes que ontem, quando, pela primeira vez em quinhentos e sessenta e sete dias, o primeiro raio de sol conseguiu finalmente irromper pela espessa camada de nuvens cinzentas, incidindo obliquamente sobre o ícone sagrado, vislumbrámos Sansão, lá no alto, planando sobre as águas do Lago, e foi então que nós, as valorosas flamingas, as pouquíssimas que resistiram à angústia da espera, as únicas que acreditaram verdadeiramente, abrimos as asas aos céus e, com os olhos marejados de lágrimas, gritámos em uníssono enquanto nos abraçávamos: afinal ainda há esperança, Ele regressou!


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eu cá, quando for ministra, já sei o que fazer!

Trato de todos os assuntos por sms.


Ah, o carro…

Era suposto estar pronto na sexta-feira, mas o senhor diz que se calhar não consegue tê-lo pronto até ao final do mês, que está complicado, ainda faltam umas peças, que foi uma grande pancada, aliás, sempre que lhe telefono o senhor diz-me que foi uma grande pancada, que por dentro está bastante danificado, que carro é que lhe bateu?, pergunta, incitando a uma resposta  apoteótica, qualquer coisa como: foi um camião tir, e então eu lá digo baixinho, quase envergonhada, que não, que foi um Peugeot, e ele então faz um som espantado e depois volta a insistir: sabe, foi uma grande pancada. E eu pergunto-me se eles estão treinados para dizerem estas coisas para as pessoas ficarem inseguras e irem a correr comprar um carro novo ou se o carro estará efectivamente condenado…


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Infelizmente isto hoje em dia já não se pode ter certezas de nada!

Digam-me que sou eu que estou a ver coisas!

E então a pessoa dedica-se a ver a série Versailles, e depois do choque inicial, que é ver um rei francês a falar inglês, nem sequer um sotaquezinho alô-alô para disfarçar, a verdade é que a pessoa não se consegue concentrar, passa o tempo todo de sobrancelhas franzidas a olhar para o actor que faz de Duque de Orleães a achar que está a ver coisas, sim, é verdade, a pessoa passa o tempo todo a alucinar e a perguntar-se o que raio está a fazer uma determinada blogger na corte de Luís XIV...








sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Isto assim não dá, somos nós que temos de fazer o trabalho todo!

Post registado com aviso de recepção


Exmo. Senhor Engenheiro Pipoco Mais Salgado,

Serve o presente para comunicar que, de acordo com o artigo 403º do Código de Produção de Posts, V. Exa., se encontra em falta, sem que tenhamos sido devidamente informados do motivo de tal ausência, mais acrescentamos que a presente situação configura um caso grave de abandono ao trabalho. Sendo certo que não poderá alegar em sua defesa os aparecimentos fugazes ao fim-de-semana, situação que tinha como objectivo claro iludir os menos atentos, informamos que tendo em conta a pilha de posts inacabados que se acumulam neste momento em cima da secretária de V. Exa., seremos obrigados a abrir um casting para que os pretendentes ao lugar que V. Exa. ocupava, possam assim apresentar as suas candidaturas.

Com os melhores cumprimentos

Palmier Encoberto


Ainda a estante

O modelo vai ser este, amplamente testado e com excelentes resultados. As prateleiras podem ser retiradas ou encaixadas em qualquer das ranhuras, permitindo a arrumação de livros ou objectos com diferentes alturas,  Desta vez as ilhargas e prateleiras vão ser mais espessas porque os vãos vão ser mais largos mas... lá está... a madeira ainda em aberto... 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Palmier encontra-se num dilema

A situação é a seguinte: A estante da esquerda está incluída na empreitada. O desenho vai ser o que está em baixo, mas o material/madeira não está ainda definido. Acontece que essa estante não é suficiente para albergar os livros do casal, logo Palmier determinou que a estante tem de ser replicada na sala. Acontece porém que Palmier não faz a menor ideia de como quer a sala. No entanto, ao escolher a localização e o tipo de madeira para a estante, Palmier vai estar a condicionar todo o decor. O carpinteiro já entrou em cena e precisa de uma resposta. Palmier não sabe o que fazer da sua vida...



Estante do escritório

Ah pois é!

Julgam que somos só nós, mães, mulheres e donas de casa, a sofrer a pressão de arrasar nos baptizados, nos almoços de Páscoa e nas maternidades, as únicas martirizadas com o ideal de perfeição com que a internet nos bombardeia?


Expectativa


Realidade





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A Maria Dourada

Vai pra quarenta anos que aqui vivo, diz-me Maria Dourada com a sua pronúncia cascalense, desviando os olhos duma teia de aranha marota, lá em cima no tecto, a pedir desesperadamente para ser limpa, primeiro como governanta da menina do rés-do-chão, está a ver a senhora doutora, era eu que ia às compras e coiso, que fazia os cockteles, muito cocktele fiz eu, que a menina, Deus a tenha, gostava muito de arreceber, ospois fui eu que criei o menino Martim, fui como uma mãe pra ele, que era levado da breca, e de manhã, então, era mau comás cobras, ainda tenho aqui uma mazela no joelho – levanta a perna das calças para mostrar-, está a ver a senhora doutora, que está enchado, isto foi de um pontapé que o gaiato me deu vai para uns trinta anos, que agora até vou ser operada e coiso, só me falta a credencial, mas já disse à velha lá de cima, isto é a gente a falar, como se costumádizer, que eu sei que a senhora doutora não vai contar a ninguém, que maperguntou se eu não podia ser operada no Verão, e  eu respondi-le: a senhora acha que eu posso escolher a data? Mas desque não me pagou o subsídio de Natal e coiso, está a ver a Senhora Doutora, eu nem le respondo, que é para ela perceber, sempre a acusar a gente de roubar, a arrebaixar a gente, e ospois vem dizer estas coisas, não se faz! Mas ela agora anda mansa que nem um cordeiro, que a D. Andorinha Fonseca e Santos deu-le o recado, a senhora doutora deve saber quem é, prima dos Avenca-Martins, aquele que é médico, casado com a menina chinchila Martins do Carmo? Não, não estou a ver… Sabe, a senhora doutora sabe, só que agora não está alembrada, ele é aquele que até aparece na televisão, um mulherengo que faxavôri, mas ela também se vingou bem, que aquilo era um entra e sai de homens naquela casa que oh, oh, agora foi para Paris passar os anos – e diz Paris com o coração cheio de raiva, os lábios apertados e sibilantes de desdém: Parizzzz – E a pessoa vai dando aqueles passinhos para trás, à espera de um intervalo no discurso, para poder dizer, “então até amanhã”, mas esse intervalo não surge, o monólogo da Maria Dourada continua a percorrer a árvore genealógica de gentes desconhecidas, enquanto se aperta no casaco de pele de coelho, presente da Dona Raposa Fogaz-Leitão quando foi com p’rá América cu marido, o Senhor Embaixador Formiguinho Antunes e Melo, que também era um senhor muito simpático, não desfazendo, tá a ver a senhora doutora, diz a Maria Dourada empoleirada nos seus saltos altos, as unhas pintadas de um encarnado profundo, excepto uma, que, cintilante, brilha mais do que as outras, o cabelo armado, uma cópia descarada do penteado da senhora do terceiro esquerdo, o mesmíssimo corte, a mesmíssima cor - porém com uma franja teimosa, que insiste em descair, cobrindo-lhe a testa e acentuando-lhe os traços porcinos -, um penteado que lhe permite acalentar o sonho de ser como elas, as que detesta.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Só vou para aí na página cinquenta

Mas até estou nervosa, a ver se não gasto este livro num instante...


(só não percebo quem inventou esta capa horrorosa de romance cor-de-rosa. Porquê?!)



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Grande Obra a ganhar forma

Chegou finalmente a pedra para uma das casas de banho, para ver se está tudo ok e se podem cortar as restantes.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Marketing impiedoso

Não terão passado mais de duas horas entre o telefonema do senhor da oficina a dizer que o perito da companhia de seguros já lá tinha estado, que já tinha luz verde para avançar com a reparação, mas que tinha de transferir o carro para outra oficina não sei onde, que ali só fazem reparações mais superficiais, que aquela era uma reparação muito extensa, que os danos ainda eram consideráveis, no fundo estava a dizer-me que o estado de saúde do carro era de tal forma periclitante que tinha de ser transferido do Centro de Saúde para o Hospital de Santa Maria, mas, dizia eu, não terão passado mais de duas horas até receber este sms...

Teoria Geral do Anónimo Mauzão

E depois fez-se-me luz, percebi que cada blogger tem a sua ganadaria de anónimos mauzões, que eles são tal e qual os toiros, que estão lá dentro nos curros e de vez em quando nós deixamo-los vir à reunião para lhes analisarmos a investida, e então abrimos-lhes a porta dos comentários e eles arrancam por ali fora disparados, a rebufar, com aqueles olhos bovinos extremamente irados, completamente perdidos na arena, sem saber bem o que hão-de fazer com aquele espaço inesperado, mas a marrar contra tudo e contra todos, naturalmente agressivos, possibilitando assim a arte da Blogomaquia - a conhecida arte de lidar anónimos bravos - e depois o Blogger mete-lhes um par de bandarilhas e os anónimos mauzões ficam todos empertigados, prontos para nova investida, mas nisto já tocou o cornetim e os comentadores já estão todos na arena, a citar o anónimo de frente, prontos para a pega, e em menos de nada já entraram os campinos com os cabrestos e, quando o anónimo mauzão dá por sí já está novamente a ser levado para fora da caixa de comentários, pronto para uma triste vida de opiniões eliminadas, ou, em casos muito raros em que o seu comportamento tenha sido verdadeiramente excepcional, a aguardar pacientemente por aquele dia em que o blogger permita finalmente que ele volte a sair de novo à arena.


Oh pá... é igualzinho!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Que pouca sorte a minha

Logo havia de ter apanhado Hair-Trolls...



(a ver se daqui a um bocado passo na farmácia para comprar Stop-Anónimos - um shampoo 100% eficaz e seguro)


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Como se não bastasse dar-se a situação de estar deveras assustadiça e de ficar a tremer e agarrada ao volante de cada vez que oiço um qualquer barulhinho

Ainda carrego o pesado fardo de estar a conduzir o carro do meu consorte, pessoa que dedica às suas viaturas um intenso cuidado e carinho, e como se tudo isto não fosse suficiente, ainda tenho estas criaturas aos gritos dentro do veículo e não as consigo calar nem por nada. Nada. Já carreguei em todos os botões e elas não param. Mesmo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A pessoa está viva e de saúde, porém abalada

E então a pessoa aproveita a sexta-feira para sair mais cedo, mete-se no carro para ir buscar os seus filhos à escola, vai por ali fora muito contente da sua vida, ai que bom que já é fim-de-semana, liga o pisca, encosta-se ao eixo da via para virar à esquerda, pára à espera de poder passar e de repente não sabe o que se está a passar, o carro está a andar sozinho, o barulho do metal a retorcer-se, o cérebro dentro da caixa craniana aos encontrões, e depois de longos segundos de incompreensão a pessoa percebe finalmente e com espanto que tem outro carro no banco de trás.