segunda-feira, 27 de junho de 2016

E depois fui à farmácia buscar o protector solar que lá tinha deixado encomendado

E quando saí estava um homem à porta, telemóvel no ouvido e gritava lá para o outro lado "ela não gosta de ti, porra", e eu abrandei imediatamente o passo, de repente tinha de saber por que razão ela não gostava dele, mesmo sem saber quem era ela e quem era ele, e o homem continuava, com a voz irritada, a dizer altíssimo: "não gosta, pá, foi ela que me disse. Não gosta de ti!", e o outro do outro lado devia dizer coisas, certamente queria muito que ela gostasse dele, e este de cá, cada vez mais impaciente, a fazer gestos com a mão que não tinha o telemóvel, a levá-la à cabeça, exasperado, e eu a afastar-me estupidamente devagar, como se fosse uma velhinha de noventa anos, e ele continuava "Ela não gosta de ti, pá, nunca gostou e nunca há-de gostar" e eu então parei à frente de uma montra minúscula de uma loja chinesa, com aqueles gatinhos encarnados e doirados que fazem adeus - há que incluir sempre uma gracinha de um animal em qualquer post, temos de honrar a nossa essência - , e o homem continuava a explicar ao outro que não valia a pena, que ela não gostava mesmo dele, que era ridículo ele gostar dela, que um gajo não perde tempo a gostar de uma mulher que não gosta dele, que passa para a seguinte, e depois, pela reacção do homem do telemóvel percebi que o outro continuava a argumentar do lado de lá, que não se dava por vencido, que ainda havia uma réstia de esperança, mas às tantas já não havia justificação para estar ali a olhar para os gatinhos que diziam adeus e tive de me ir embora sem saber em que pé ficou o caso do homem que gostava de uma mulher que não gostava dele.


E depois telefonei à minha Maman, para saber se tinham chegado bem

E a minha Maman atendeu, disse que sim, que estavam naquele momento a abrir o portão para entrar, e eu então aproveitei para perguntar por Canis, que lá tinha ficado no fim-de-semana, e a minha Maman disse-me para esperar que o portão se abrisse, que já me dizia, que ele, mal ouve o carro vem a correr, e eu então esperei, mas o portão abriu e o Canis não estava lá, e a minha Maman disse-me para esperar, que ele devia estar mesmo a aparecer, mas ele não aparecia, e depois o carro subiu a rampa e a minha Maman disse que agora que iam abrir a porta da garagem é que ia ser, mas de Canis nem sombra, e então a minha Maman já um pouco perplexa disse que ia desligar para o ir procurar, uma vez que ele estava claramente com paradeiro desconhecido. E depois eu, cá deste lado, fiquei a olhar para o telefone um pouco ansiosa, onde raio estaria Canis, que vem sempre a correr e desta vez nada. E então, passada uma meia hora a minha Maman telefona-me de volta a dizer que até se assustou, que chamou, chamou, assobiou, assobiou e de Canis nem sinal, e que só passado um bom bocado de andar ali às voltas é que viu abrir-se a porta de uma das outras casas e Canis a sair a correr lá de dentro, todo bem disposto, para a cumprimentar com os seus saltos costumeiros, seguido de um senhor que também se aproximou para dizer à minha Maman que o Canis tinha passado o fim-de-semana com eles, que até lá tinha dormido, que estava a viver lá em casa com tudo a que tinha direito, cama, comida e roupa lavada, e - muito importante - lançamento da bola, que ele não se importava nada, que gostava muito de cães, e então a minha Maman já com medo de ser desapossada do seu animal agarrou Canis pela coleira, agradeceu a hospitalidade e arrastou Canis até casa. Canis chegou a casa, fez uma festa ao meu pai, deu meia volta e saiu. Voltou para casa do dito senhor.

Agora estou a fazer tempo para ligar a saber se ainda temos cão ou se fomos definitivamente trocados...


domingo, 26 de junho de 2016

O que estás a ouvir neste momento, Palmier?

O vento a passar pelo choupo, as folhas sempre a tilintar, como um guizo de papel, uma ovelha a falr com um carneiro de voz grossa, assuntos lá deles, ela fala e ele responde, sempre a mesma resposta, lacónico, a desconversar, as moscas a zumbir, como num circuito de fórmula 1, mais perto, mais longe, mais perto, mais longe, mais perto, mais longe, passarinhos vários, cada um a produzir a sua música, às vezes as asas a bater quando passam por mim para vir pousar no beiral, um galo fora de horas, um sapo com aquele gorgolejar de garganta, estranhamente perto, um carro em esforço a subir o monte, a reduzir de quarta para terceira, depois para segunda, depois a desaparecer numa qualquer estrada, uma matilha de cães lá longe, os da caça, que provocam a resposta dos outros, que estão mais perto e que não passam de donos-de-casa, um avião muito alto, no céu, uma porta a bater que ecoa vale acima, o badalo de um sino e três foguetes desgarrados que só me chegaram porque estava com muita atenção. Agora chegaram os meus filhos, a falar muito alto, e já não oiço mais  nada.

sábado, 25 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo?

E enquanto nós almoçamos os turistas fazem fila para tirar fotografias com pequena Cutxi, esse ícone da blogosfera nacional.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Passou a noite empoleirada lá em cima

A deitar-me olhares de superioridade.

O que eu gosto de um bom micro-clima

Sobretudo quando só trouxemos roupa de Verão...

Nunca mais me esqueci disto

Uma vez, estava eu em Londres e houve um problema qualquer com as comunicações entre a Grã-Bretanha e o resto da Europa, os telefones estiveram em baixo durante uma data de tempo, e as letras gordas da capa do jornal no dia seguinte eram: "Europe isolated".

Acho que este título explica bem a cabeça dos ingleses em geral e o resultado deste referendo em particular.

Brexit

Hoje, quando o meu consorte me acordou com a frase "já se sabe o resultado do referendo...", tive a mesma sensação daquela noite em que ele chegou às duas da manhã, dormia eu a sono solto, e me disse baixinho "não te assustes mas o prédio do lado está a arder".

quinta-feira, 23 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Ainda a acta

A acta estava pronta, sem o meu louvor, é certo, mas ainda assim pronta e passada ao livro, faltando apenas que fosse assinada para o assunto ficar encerrado. Ora, eu assinei, contrariada e suspirando pelo meu louvor, mas ainda assim assinei, os outros assinaram e ficou a faltar a assinatura da Senhora Dona Teresina, a quem se telefonou para que viesse assinar o livro. Ora, acontece que a senhora Dona Teresina, com os seus muitos anos, já não está em plena forma e alguma coisa se passou, não sei o quê, mas a Senhora Dona Teresina nunca mais aparecia para a cerimónia de assinatura, até que se lhe ligou outra vez, não fosse dar-se o caso de ela se ter esquecido por causa lá daquilo dos seus muitos anos, mas ela atendeu muito nervosa, que ainda não tinha comparecido porque não tinha conseguido arranjar um advogado, que eu lhe tinha dito que ela tinha de arranjar um advogado e que aquilo era o cabo dos trabalhos porque ela não conhecia um único advogado e já não tinha pernas para andar por aí a bater às portas à procura de um, e então lá lhe disseram que aquilo devia ser confusão, que não era preciso advogado nenhum, que era só para a assinar a acta e ela ficou muito aliviada, levantou as mãos aos céus, foi o que disse ao telefone, que estava muito arreliada com aquele assunto e que assim ficava muito mais descansada. E no dia seguinte apareceu cá, muito arreliada mesma, porque não tinha conseguido arranjar um advogado, e nós lá lhe explicámos que não era preciso advogado nenhum, que era só para assinar, como de costume, e ela levantou as mãos aos céus, e desta vez eu vi-a mesmo a levantar as mãos aos céus, e disse que estava muito aliviada, que lhe tínhamos tirado um peso de cima, que ela não conhecia advogado nenhum e que andava consumidinha, consumidinha com aquela apoquentação. E o livro foi então trazido e a Senhora Dona Teresina leu, assinou e o assunto ficou definitivamente encerrado. Pensava eu. Anteontem a senhora do banco aqui da rua liga-me dizendo que tem lá uma Senhora Dona Teresina muito nervosa, a perguntar-lhe se conhece algum advogado, que eu a tinha mandado arranjar um advogado e que ela, como já sabemos, não conhece nenhum advogado, e eu a explicar que não, que não pedi advogado nenhum, e a senhora do banco repetia à Senhora Dona Teresina as minhas palavras e a senhora Dona Teresina, de acordo com o relato em simultâneo da senhora do banco, mostrava-se muito aliviada, até está a levantar os braços aos céus, dizia-me a senhora do banco, graças a Deus que não é preciso um advogado, que eu andava mesmo consumidinha com isto, e depois ontem fui almoçar e o Senhor Carlos puxa-me para um canto para me contar que a Senhora Dona Teresina tinha estado ali a perguntar-lhe se ele conhecia um advogado, que eu a tinha mandado arranjar um advogado, e eu que não, que nunca pedi tal coisa, e hoje fui à farmácia e a senhora da farmácia diz-me “ainda bem que aqui está, que a Senhora Dona Teresina esteve aqui há bocado e… “…

(Alguém conhece um advogado?)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

E depois a pessoa vai dar a sua volta pelos blogs

E depara-se com esta fotografia e a pessoa fica que tempos a olhar para o ecrã, a tentar perceber que raio de bicho é aquele, uma ave gigantesca e peluda, praticamente pré-histórica, com um bico enorme e assustador, depois de longos minutos nisto, longos minutos a passar revista a todos os pássaros que conhece, ao mesmo tempo que pensa que a Mirone está a ponderar abrir um parque Jurássico em sua casa, a pessoa percebe finalmente que afinal... bem... afinal não se trata propriamente de uma ave...

Caramba, agora é que estou mesmo curiosa para saber os segredos cabeludos que estão escondidos dentro da Caixa, que aquilo deve ser mais Caixa de Pandora que Geral dos Depósitos

Tendo em conta o grau de pânico com o raio da comissão de inquérito, a vitimização por antecipação e a campanha de intoxicação já montada e em curso, é bem capaz de haver lá qualquer coisinha. Coisa pouca, certamente...


domingo, 19 de junho de 2016

Pobre filho que ainda não sabe o que o espera

Estava mesmo a ver que isto ia acontecer, disseste-me que eu tinha de vir, que era um instante, só para me comprares uns ténis, e depois acabo sem ténis e sentado num sofá de uma loja de sabrinas, com vocês as duas a experimentarem a loja inteira.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Isto devia dar para fazer umas letrinhas pequeninas nos títulos, que eu até tenho receio de perguntar, mas sou só eu que acho que isto é afecto a mais?

É que este novo tempo é o tempo da euforia, é o Marcelo, o Costa, em todo o lado, são omnipresentes, sempre em festa, a selfizar, a beijar, a abraçar, a bailar, a emocionarem-se com as suas próprias palavras, roucos de ternura, é o tempo da política dos emojis, bué da loves, bué da smiles , uma política de rede social, uma coisa ao estilo adolescente, para ter bué da likes , é a política cor-de-rosa, da felicidade, e aí andam eles a lançar o optimismo, mas lançam-no de tal forma que uma pessoa até tem receio de ir a atravessar a rua distraída e levar com um optimismo descontrolado na tola, caramba, é que o perigo é muito real, a pessoa até já teme deslocar-se ao supermercado, é que enquanto está ali indecisa entre uma costeleta de borrego e um lombinho de porco para assar, as probabilidades de ser vítima de uma emboscada afectuosa e beijada à traição pelo Presidente são muitíssimo elevadas! Alguém havia de ver isto...