quinta-feira, 16 de abril de 2015

Agora percebo bem por que razão os americanos vão invadir países e assim

O que é que uma pessoa faz depois da guerra? É que a pessoa fez um grande investimento! Estou para aqui rodeada de obuses, mísseis balísticos, granadas, pistolas e metralhadoras que comprei no mercado negro, tudo espalhado no chão da sala, tenho um tanque ali estacionado na rua (por falar nisso, não me posso esquecer de ir pôr moedas no parquímetro, caso contrário ainda mo bloqueiam), um hospital de campanha, que encomendei na net, para poder evacuar os feridos dos posts mais explosivos e depois, olho em volta, e não tenho nada para fazer... e agora estou para aqui a andar de um lado para o outro, com o meu jumpsuit de camuflado e o meu capote de folhas fictícias, o que me permitia andar na floresta sem ser vista, mãos atrás das costas, a encolher os ombros e a suspirar, sem nada para fazer... olha, talvez vá invadir algum blog para passar o tempo!


Oh pah.... embora? embora invadir um blog qualquer? escolhíamos um blog ao calhas e íamos lá todos deixar imensos comentários!? Assim uma espécie de Moche ao blog?



quarta-feira, 15 de abril de 2015

E então, Palmier, o que estás a fazer?

Estou no cabeleireiro, obviamente.


É que a pessoa recusa terminantemente ficar registada na complexa história da blogoguerra como "Palmier, a desgrenhada"!



terça-feira, 14 de abril de 2015

Alegoria do temível príncipe da floresta de Balata-Tufari e o seu manto de penas de flamingo

Todas as manhãs o príncipe de Balata-Tufari acordava com o cacarejar do galo que tinha preso com uma pequena corrente de de oiro à perna da mesa de cabeceira, o galo que figurava, em destaque, no seu brasão de armas. O príncipe abria um olho, depois outro, espreguiçava-se lentamente e, sem perder mais tempo, pegava no seu espelho mágico e perguntava:

- Espelho de perlimpimpim, espelho de perlimpimpim, há alguém que não suspire por mim?

E o espelho respondia invariavelmente "todas suspiram por ti, oh meu príncipe!", e o temível príncipe, enquanto ouvia aquelas palavras reconfortantes, recostava-se no seu leito de talha dourada, enrolava as pontas do seu bigode aristocrático e pensava de si para si, "pobres mulherzinhas, hão-de aborrecer-se lá fora, na clareira, por força desejam vir viver para o palácio, dançar a polca todas as noites, no fundo suspiram pelo amor como uma carpa pela água na mesa da cozinha. Deixa-me ir lá vê-las... com três palavras de galanteio ficam a adorar-me" e, de seguida, levantava-se confiante, punha sobre os ombros o seu manto cor-de-rosa de longas penas de flamingo, abeirava-se da sua famosa janela gótica, debruçava-se, cabelos ao vento, e recitava lá para baixo, para as donzelas na clareira, belas palavras que elas bebiam deleitadas. O temível príncipe da Floresta de Balata-Tufari habituara-se, havia muito, a despedaçar corações e as donzelas, enfeitiçadas pelo seu principesco discurso, não arredavam pé e continuavam, estoicamente, a suspirar ante a possibilidade de serem as escolhidas para com ele partilhar um futuro fulgurante cheio de garrafas de vinho desrolhadas e portas automáticas que se abririam à sua passagem. E tudo ia bem no reino da floresta de Balata-Tufari.

Acontece que, certa manhã, e perante a pergunta da praxe, o espelho, gaguejou e acompanhado de uma música de fundo tétrica e assustadora, respondeu: "Nem todas suspiram, oh meu príncipe... aquela que vive lá em baixo nas masmorras, a responsável pelos resíduos orgânicos do castelo, não suspira!" e então, perante aquelas terríveis e hediondas palavras, o príncipe, fora de si, receando que aquele mal alastrasse como um rastilho de pólvora na floresta, resolveu tomar medidas drásticas e atravessou o castelo com o seu manto de penas de flamingo a adejar em seu redor, abriu a porta das masmorras com estrondo e expulsou-a do palácio pela porta da traição, dando ordens aos seus escudeiros para, de imediato - e como forma de mostrar às outras a terrível maldição que sobre elas poderia recair caso se resolvessem a tomar o caminho do mal, um caminho sem retorno -, retirarem o seu nome dos éditos do lado direito de da porta principal do castelo. Mas, ainda não satisfeito com o castigo que lhe infligia, dirigiu-se à sua janela gótica e, enquanto ela se afastava assustada e confusa, gritou, rubicundo:

- Vai-te, vai-te, que eu hoje estou para desconversar!

Por fim, e para erradicar o problema em definitivo, convocou os seus generais e deu ordens que se reunissem todos os aviadores do reino para que pilotassem os seus aviões baixinho, sobre a floresta, para lhe bombardearem o caminho de fuga. Mas ela já ia longe, conseguiu escapar da fúria real escondida dentro de um carrinho do lixo. Dizem que está a organizar um exército de amazonas para libertar o reino do jugo do temível príncipe do manto de penas cor-de-rosa.



O leitor decide

Post com o título "Alegoria do temível príncipe da floresta de Balata-Tufari e o seu manto de penas de flamingo" ou post com o título "header - a história completa".



domingo, 12 de abril de 2015

A cervejaria

À minha frente, uma família chinesa com uma bebé minúscula que, durante o almoço e enquanto os pais descascavam camarões à velocidade da luz, devorou três bolachas daquelas redondas, de arroz apipocado, lá longe uma família de portugueses com dois filhos, não os conseguia ver bem porque estavam tapados por uma família indiana, com as mulheres vestidas a rigor, com os seus saris coloridos e carteiras LV, e os empregados a passar com imperiais e aqueles pratos de pão torrado cheio de manteiga, uma loucura de manteiga, tau, tau, tau, um barulho infernal, os martelos a bater e projéteis a voar por todo o lado, e na mesa seguinte dois casais de velhotes, eles de suspensórios, elas muito arranjadas, uma de flor encarnada ao peito, uma flor com plumas, que mal viu a sapateira esqueceu tudo o resto e agarrou-se às patas a roê-las como se fossem uma costeleta, tau, tau, tau com os martelos, e bocados de sapateira a saltarem-me contra o vidro dos óculos, a aterrarem-me no cabelo, e o velhote pegava na sua pata como se fosse uma sandwich e esticava a boquinha como um pássaro e davas bicadinhas, a outra senhora, super cuidadosa, tirou os bocadinhos de sapateira de todas as pernas que lhe calharam em sorte, tau, tau, tau, com os martelos, e mais sapateira a voar, arranjou-as num montinho com uma paciência de chinês e só quando todos os outros já tinham terminado, é que saboreou a sua parte, um pouco mais atrás, uma família de brasileiros, chiquíssimos, armados de máquinas fotográficas e elas com uns outfits cheios de oiros, ali, na cervejaria da Almirante Reis, porque portugal é um país muito seguro e há que aproveitar para tirar as jóias do armário, tiravam fotografias de grupo com as amêijoas à bulhão pato e selfies com camarões gigantes. E no fim, quando fui lavar as mãos e os óculos, já quase a chorar, o empregado perguntou-me can I help you? e eu disse que sim, que havia de me dizer onde era a saída de emergência.

sábado, 11 de abril de 2015

Também fui à loja dos monogramas

E depois, enquanto esperava que uma amiga se decidisse com uma coisa lá dela, fiquei sentada muito quietinha naqueles banquinhos aveludados junto à caixa, os que estão rodeados por sapatos com berloques gigantes, berloques que pareciam ter sido aproveitados dos embrasses dos velhos cortinados de Verssailles, e pude ver o poder do monograma, as pessoas que entram e descem as escadas silenciosamente, quase como entrando num templo, falando baixinho para não incomodar as carteiras monogramadas espalhadas em nichos um pouco por todo o lado, como os santos nas igrejas, e, reverentes, dão a volta à loja, no sentido contrário ao dos ponteiros dos relógios, tocando nas carteiras, primeiro a medo, com mesuras e veneração, depois com um pouco mais de confiança, escolhendo, sôfregas, apoderando-se delas, colocando-as ao ombro, e depois no bracinho, volteando para o espelho, os olhos a brilhar numa euforia contida, tornando-as a pouco e pouco suas, e, por fim, quando lhes era já impossível resistir-lhes por mais um segundo que fosse, traziam, orgulhosas, a sua própria relíquia para a caixa, para ser paga, a relíquia que lhes vai permitir, finalmente, fazer parte do culto.


E agora?

A pessoa, que raramente usa cores fortes, e raramente é uma forma de expressão, porque a pessoa é como os camaleões que, perante o encarnado, ficam a abrir e a fechar a boca e a recuar assustados, foi possuída por um espírito tropical e comprou uma carteira cor-de-rosa pastilha elástica. E agora a pessoa chegou a casa e sentou-se a olhar, a pensar se sim, se fica com a carteira cor-de-rosa pastilha elástica, ou se tem juízo e a vai trocar por uma camel com pespontos brancos, que também era deveras engraçada. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Na vida, como nos blogs

Aqui há dias tive uma reunião numa Câmara Municipal, fui recebida por um arquitecto que, julgo, é responsável pela aprovação de projectos e com quem já tive inúmeras reuniões anteriores, que sempre decorreram de forma pacífica e profícua. Desta vez foi diferente. Quando, contestando um dos pontos da notificação que recebi, tentei explicar o meu ponto de vista, o arquitecto, sem me deixar sequer terminar, arremessou-me a seguinte frase:

- Se não concorda, tem bom remédio, a porta é ali, vá queixar-se para a Assembleia da República. 

E pronto, foi assim com aquela espécie de "come e cala" que ficámos. E é isto. Fico sempre espantada com a agressividade gratuita.



E enquanto a minha equipa, que tem para cima de 26 professores de blogs, se afadiga, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, a tratar do novo header

Deixo-vos com o making-of:


quinta-feira, 9 de abril de 2015

E então, Palmier, não falas sobre a questão do galo?

Não. Sou demasiado snob-chicken para essas coisas.


Se calhar já nos víamos livres deste flamingo deprimente e arranjávamos para aqui uma coisa como deve ser, hum?

Que me dizem?


(e este é o momento em que vocês se levantam das cadeiras gritando sins de antecipação, dão as mãos nervosas aos vossos colegas de trabalho e com os olhos rasos de lágrimas, fixando-se uns aos outros sem se verem, gritam aos céus, em êxtase, "vem aí header!". Aguardo, portanto, uma verdadeira vaga de fundo, uma vaga de fundo suplicante, desesperada e insistente, uma turba de gente correndo pelas ruas em delírio e anunciando aos quatro ventos a boa nova. Uma coisa a nível mundial)



terça-feira, 7 de abril de 2015

Vocês são extremamente maus!

Vejam! Vejam bem o que me fizeram à criança!




Vocês só podem estar a gozar!

Um rato... pfffffff


Tarda nada estão a dizer que não sabem se o urso Kiko é azul às riscas pretas, se verde aos quadrados encarnados!

Chegou!

Completamente estafado, coitadinho! Que a minha Maman, um bocado insensível, convenhamos, afinal não lhe comprou bilhete de caixinha... mandou-mo mesmo assim, em económica...



O ursinho aventureiro

Só depois de sessenta quilómetros demos conta que o tínhamos deixado para trás, lágrimas grandes e grossas, lágrimas a correrem dos olhos da minha filha, lágrimas que lhe pingavam para o colo a uma velocidade estonteante, uma torrente de lágrimas de todas as cores e feitios, de tal forma que, por momentos, cheguei a ter receio que o carro se transformasse num aquário e que nos afogássemos todos ali dentro, um drama de faca e alguidar, mas sem o alguidar, que ao menos podia servir para amparar as lágrimas e as deitar pela janela fora, o ursinho, coitadinho, o ursinho que, nos últimos sete anos, quase oito, nunca passou uma noite sozinho, o ursinho que um dia já foi cor-de-rosa e que, ainda por cima, agora é cinzento, o ursinho esquecido, triste, só e abandonado. Parámos na bomba de gasolina para abrir as portas e deixar sair a onda de lágrimas coloridas e, de seguida, já a salvo daquele maremoto súbito, tomar decisões: andar sessenta quilómetros para trás e outros sessenta para a frente, acrescentar cento e vinte quilómetros à viagem, para o resgatar às garras da solidão, sim? não? ou telefonar à avó, para saber se estaria bem, se já tinha dado pela nossa falta, se estava choroso ou se, pelo contrário estava bem e aguentava mais um dia ou dois daquele tormento? Telefonámos e a minha mãe foi à procura do ursinho, estava no quarto dela, sentado de perna cruzada em cima da cómoda, aquela cómoda alta com tampo de pedra, a fumar cigarros e a beber Coca-Cola Zero, e a minha mãe olhou bem para ele, de todos os ângulos e, aparentemente, e tirando os soluços e a linha do bigode, que já está um bocadinho descosida, a linha que o distingue de todos os ursinhos iguais a ele mas que nunca o poderiam substituir, a linha que o transforma num ursinho sorridente, estava bem. Depois de duros minutos de indecisão, acabámos por acordar que a minha mãe dormiria com ele na primeira noite, para que não estranhasse tanto, e que, no dia seguinte, logo que acordasse, lhe lavaria os dentes, o pentearia e havia de lhe vestir a sua melhor roupa de passeio, levando-o de seguida aos correios, para vir embrulhado numa caixinha, registada, uma caixinha com um buraquinho por onde pudesse espreitar e apreciar a viagem, de volta à sua dona.  E assim se fez.

Agora estou aqui à espera do carteiro, ansiosa para saber os todos os detalhes da viagem do ursinho aventureiro.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

E então, Palmier, tudo bem?

Olhem... mais ou menos. Duas horas. Duas horas foi o tempo que duraram os berloques do meu sapato direito. Agora estou aqui no trabalho, a pé descalço. O sapato está na secção da manutenção.


domingo, 5 de abril de 2015

Não sei bem explicar

Odeio perfumes, cheiros intensos, é mesmo uma coisa física, deixam-me mal disposta, agoniada, mesmo os mais frescos, passado pouco tempo, enjoam-me, arrepiam-me, quero fugir deles e eles ali, impregnados, sem darem tréguas. No entanto, são os cheiros que conseguem despertar em mim memórias mais antigas, como este que acabei de sentir ali, na Avenida, um cheiro abafado a maresia, que, numa milésima de segundo, me levou de volta àquele dia em que saímos de de barco, e que era preciso levar bidões de gasóleo, para encher o depósito, e depois pedir aos pescadores para nos levarem nuns barquinhos a nós, aos bidões e ao farnel, até ao barco, que nessa altura não havia marina e o barco estava ancorado no porto, a meio da ribeira de Bensafrim e depois fomos por ali fora, até que, ao fim do dia, acabámos na Ria de Alvor, já com o farnel depenado e o sol a baixar no horizonte, e aquele veleiro enorme, que ali esteve encalhado durante anos e anos, o veleiro de um belga ou francês, não me lembro bem, um velhote ermita, com umas barbas enormes e brancas, umas barbas todas embaraçadas pela água do mar, que aproveitou aquela maré cheia em particular para voltar a navegar. E nesse dia, enquanto eu comia um ovo cozido com uma mão, e uma fatia de pão seco com a outra, embuchada até não poder mais, que já não havia água para beber, o velhote puxava os cabos numas roldanas com artroses, que guinchavam aflitas, e a madeira do barco desabituada do movimento, estalava por todos os lados, e nós fomos atrás dele, em procissão, enquanto o veleiro fantasma saía finalmente da ria, e, no momento em que ele içou a vela grande, e se fez ao mar a sério, nós ficámos parados a vê-lo ir e batemos palmas durante muito tempo, até desaparecer lá longe, no mar alto. E nesse dia, o cheiro era este, o da maresia abafada.