quinta-feira, 27 de abril de 2017

Sim, é só o pão e os bolos



Estive tão ocupada com a minha arte que até me esqueci de contar que naquele Sábado, antes do Domingo de Páscoa, fui comprar pão, que no Domingo nunca há – ou melhor, há, mas é daquele plástico, do supermercado – e então fui à padaria, e estavam duas pessoas à espera de ser atendidas e eu percebi que estavam à espera que o pão chegasse, e quando a menina me perguntou o que queria, eu disse-lhe que queria um pão médio, e ela, ah tem de esperar dois minutos que o meu colega está a descarregar, e eu, então está bem, e fiquei ali a olhar para os bolos, que eu gosto muito de bolos, talvez leve estas roscas, que parecem ser bem boas, e estes bolos que não sei o nome, mas que têm doce de ovos a cobrir e depois uma camada de coco ralado com uma risca de canela, e enquanto estava nisto o colega entrou com o carrinho cheio de cestos de pão empilhados uns em cima dos outros, passou o balcão e a menina que estava a atender atarefou-se logo muito com aquilo, pegou nos cestos e começou a despejar os pães para dentro das tulhas, os pequenos na tulha dos pequenos, os médios na dos médios e os grandes na dos grandes, enquanto o colega, lá fora, retirava mais um grande cesto para o carrinho, e então, enquanto a menina arrumava os pães, o colega entrou com o novo carregamento, e eu vi que eram folares, que cheirava mesmo bem a erva-doce, e então pensei cá para mim, olha que boa ideia, também vou levar um folar – já está visto que estava cheia de fome – mas no momento em que tive este pensamento, o colega bateu com o carrinho numa cadeira, o cesto virou-se e os folares rolaram pelo chão para todos os lados, era um mar de folares que se reflectiam por ali fora, nos ladrilhos, e eu a olhar para o cesto, a ver se se tinha salvado algum folar, e sim, ficaram dentro do cesto uns dois ou três, não dava para perceber bem, os outros estavam todos por ali espalhados, e então, naquela fracção de segundo, enquanto o colega, esbaforido, soltou um palavrão extremamente audível, daqueles mesmo, mesmo cabeludos eu fiz as contas aos folares ilesos e às pessoas que estavam à minha frente, se cada uma levasse um folar ainda havia de chegar para mim, e enquanto estava nestas matemáticas, a menina dentro do balcão pergunta “quem está a seguir” e eu olho em volta, à procura das duas pessoas que estavam à minha frente, mas nisto vem uma chica-esperta lá de trás que, aproveitando a estupefacção geral com aquele jardim de folares, furou por ali fora, espetou o cotovelo no balcão e disse: sou eu!, ora eu, que estava à procura das duas pessoas que estavam à minha frente, percebi que estavam ambas lá fora, a falar ao telefone, consegui vê-las bem porque as outras pessoas, as que chegaram depois de mim, estavam todas acocoradas a apanhar os folares do chão, e então tive um repente, que havia de ter direito ao meu próprio folar incólume, e ao invés de ficar com cara de palerma, que é o que me acontece sempre com os chico-espertos, disse à menina que estava a atender, muito determinada, não, sou eu que estou à frente!, e a chica-esperta disse com cara enfadada de chica-esperta “já não percebo nada disto”, e a menina pergunta: então o que vai ser? Um pão médio, um saquinho de roscas, estes dois bolos aqui, e quando estava para acrescentar o folar, o meu folar, o folar sobrevivente que havia de ser meu,  vejo as pessoas agachadas a dar uns soprinhos aos folares derrubados que apanharam do chão e a dizer “schhhh, ninguém viu…” e a guardarem-nos novamente no cesto.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Há quatro ou cinco anos atrás tivemos esta linda conversa...

- Nem pensar.
- Então quando?
- Não sei, logo se vê...
- Mãe, tens de dizer quando.

(a tentar encerrar o assunto)

- Sei lá, quando fizeres dez anos...


(ontem fui relembrada pela minha filha que faltam quarenta e cinco dias para poder furar as orelhas)


Entretanto, em Tanganica...


assiste-se ao fulgurante e robusto despontar de uma nova espécie.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um mix de Kafka com as intermitências da morte

Era uma história de uma carta remetida a uma entidade patronal (doravante designada como a entidade), aprisionando para sempre um pobre cidadão no obscuro mundo das penhoras de vencimentos, um mundo lúgubre e sombrio, sem lei nem regras e gerido por folhas de excel e programas informáticos  que agrilhoam os cidadãos ad eternum. Ora a entidade, ao receber a carta do Solicitador de Execução, pegou na sua faquinha de papel em prata, cravejada de diamantes e pedras preciosas e, enquanto tamborilava os dedos sobre o envelope e esboçava o seu sorriso mais peçonhento, pensou: quem será o feliz contemplado desta vez? Rasgou então o sobrescrito com um nervosismo perverso, na ânsia de verificar o nome, o valor da penhora e os juros com que um dos seus trabalhadores se veria a braços e verificou que a situação era melhor ainda do que supunha, era um jackpot!: uma dívida de quarenta e quatro mil euros e juros moratórios no valor de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros, a entidade vai repetir: cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros (e correndo o risco de se enganar, que as entidades patronais, já se sabe, não são muito boas em números, vai digitar aqui os algarismos: 153895,00€). 
Ora a entidade, ruim e impiedosa, pegou no telefone e ligou para o Solicitador de Execução e, fingindo-se apoquentada com tal situação, perguntou como era aquilo possível. Lá do outro lado, do inacessível e sombrio mundo das penhoras, disseram-lhe que a entidade não tinha de fazer perguntas, que só tinha de debitar no vencimento, mas a entidade tinha de representar o seu papel de entidade preocupada até ao fim e disse: mas como é que eu vou dar isto a um funcionário? Como é que lhe explico uma coisa destas? Desculpe mas tem de me esclarecer, tem de me dizer como é que uma dívida de quarenta e quatro mil euros dá origem a juros de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros. E foi então que lá do outro lado, das trevas do submundo das penhoras, me responderam: Isso é porque a senhora não leu bem o papel! Não li bem o papel? Mas está aqui, os valores são estes! Preto no branco! Sim, disse com maus modos, mas não leu a data prevista para o fim do pagamento da penhora! E então a entidade foi ler, e lá estava, bem claro e sem margem para dúvidas: o trabalhador saldará a sua dívida exactamente no dia trinta de Abril do ano da graça de dois mil trezentos e vinte e três.. 30-04-2323.





quarta-feira, 19 de abril de 2017

E então fui a correr à obra - que já passaram quinze dias desde a última vez que lá fui - à espera de major changes

e...  nada. 


Então resolvi ter uma conversa com o Senhor Pedro, o encarregado - que o Senhor José Carlos há muito que foi substituído (por decisão do empreiteiro) -, para lhe dizer que eles tinham de ter mais frentes activas, que se uma equipa estava a fechar tectos, outra devia estar na fachada, e outra nas casas de banho, que assim nunca mais víamos o fim à obra, e então o Senhor Pedro, uma simpatia de pessoa, sempre com um sorriso, levou-me a fazer um tour explicativo, para eu perceber as dificuldades, que aquilo não era desculpa, evidentemente, mas, por exemplo, quando punham uma parede, (apontando para a parede) está a ver, depois tinham de esperar que viesse o electricista passar os fios (pegando no molho de fios), e depois o homem das calhas, está a perceber?, estou Senhor Pedro, mas... e para fazer a casa de banho, primeiro tem de vir a base do duche (já a qui está, está a ver?), para tirar as medidas certinhas para fazer a caleira e só depois é que podiam mandar vir o resto das pedras... mas, Senhor Pedro, mandem vir as bases de duche todas de uma vez, para porem as casas de banho todas a andar, ah (rindo e levando as mãos à cabeça), isso é que era bom, que a pedra para cada uma das casas de banho tem de vir toda do mesmo bloco, que se eles se põem a tirar tudo ao mesmo tempo depois era um Deus me acuda, mas, Senhor Pedro, e a fachada? Ah, isso vamos começar a projectar (o estuque) esta semana, mas depois temos de parar para virem fazer o soco (é assim que se escreve?) de pedra... mas, Senhor Pedro, e as janelas? Ah, isso já estamos a pôr o aros, mas e as janelas, Senhor Pedro, quando é que estão cá?, ah, primeiro temos de estucar aquela parede ali, está a ver (diz-me enquanto se debruça sobre o abismo, oh Senhor Pedro, tenha cuidado, chegue-se para trás que isso faz-me muita impressão! deixe estar, não faz mal, estou habituado, e então a pessoa mantém o seu ar sério e entendido apesar de estar praticamente agoniada, tal é a altura), só depois é que podemos pôr este aro, está a ver?, para depois estucar este bocado de parede aqui, está a perceber? Sim Senhor Pedro, já percebi que as coisas estão todas encadeadas, mas então devia ter mais cadeias a funcionar ao mesmo tempo! E então o Senhor Pedro olha para mim com olhos tristes de quem desiste de explicar o óbvio e remata a nossa conversa dizendo: eu não quero que fique a pensar que isto são desculpas, que eu percebo muito bem a sua imaginação.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Lua cor de laranja


São quatro e vinte e dois e ainda aqui estou às voltas

Não percebo porquê, mas há noites em que as almofadas se amotinam contra mim, devem combinar lá entre elas umas acções revoltosas com o objetivo de serem absolutamente desconfortáveis e manterem-me assim, acordada. Nestas noites não há nada a fazer, é esperar que se cansem desta parvoíce. 

sábado, 8 de abril de 2017

São as famosas caixas de comentários Pshico!

Aquelas caixas de comentários que começam por parecer um duche inofensivo, uma coisa mesmo tranquila, só para descontrair, e depois a pessoa adormece, que tem muito soninho, e quando acorda, abre os olhos  estremunhada e repara, atónita, que aquela caixa de comentários romântica - em verde pistachio e cor de rosa velho - se transformou num verdadeiro thriller!


quinta-feira, 6 de abril de 2017

terça-feira, 4 de abril de 2017

Opáaaaaa, agora a sério, que até estou nervosa...

Alguém me explica aquele conceito dos grupos de pessoas desconhecidas que se juntam numa casa secreta para experiênciarem a situação de comerem brunches clandestinos em conjunto?

(uns brunches aos quais é extremamente difícil aceder, que só se consegue reserva via redes sociais e só se estivermos com muita atenção e formos muito rápidos no uso das tecnologias e depois, se tivermos sorte, enviam a morada sigilosa por sms mas apenas e só na véspera do misterioso acontecimento, que o protocolo, rigorosíssimo, está ao nível de uma CIA, assim uma situação de tal forma profunda e obscura, que transforma os ovos mexidos numa coisa verdadeiramente enigmática e brrrrr.... intrigante!)


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vocês, que sabem de coisas, digam-me o que se passa com a minhaFigueira Lira!

Porque tem ela estas duas manchas alastradoras, que começaram num ponto minúsculo e não param de crescer, são só estas duas, as outras folhas estão impecáveis, e a irmã gémea, que está do outro lado da sala, com a mesma luz, frequência e quantidade de rega, está impávida e serena, toda contente e verdejante. Por isso, vocês, magos das plantas de interiores, curandeiros das estufas, encantadores de pequenos arbustos, digam-me por favor, porque razão está ela com toda esta má onda para mim?! Ajudem a Palmier a salvar o seu vegetal!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ontem vi o amor na mesa ao lado da minha

Estava lá, na cara daquele senhor de barbas brancas e rabo-de-cavalo, um senhor já muito, muito crescido, que trazia nos olhos o amor, um amor tão grande que tinha à mulher que estava sentada à sua frente que os envolvia transbordava por ali fora, como uma manta quentinha num dia de Inverno, e depois ele estendeu os braços por cima do tampo que os separava e, com as duas mãos, uma de cada lado da cara, fez-lhe a festa mais terna e comovente que já vi, e eu estive o almoço todo a tentar ouvir o que eles se diziam mas a pessoa que estava comigo encontrava-se de tal forma embrenhada em assuntos que nem sequer reparou na magnitude do que se passava mesmo ali, ao nosso lado.


quinta-feira, 30 de março de 2017

E então essa obra?

Lá vai, devagarinho, de acordo com as previsões do arquitecto temos coisa para mais quatro meses, já eu, criatura bastante mais realista, aponto para seis. O prazo da empreitada, já com mais quatro meses de prorrogação graciosa, acaba no final de Abril...


(este é o meu escritório, o tal cujas paredes terão de albergar toda a minha arte)


quarta-feira, 29 de março de 2017

Eu juro que um dia destes páro com isto!

É verdade que ainda tenho que corrigir, que a minha Maman, numa tentativa desesperada de controlar o meu ego Leonardo da Vinci, pôs-se-me a dizer que eu tinha escurecido demais o topo do polegar, que parecia enxertado, que o ângulo do pulso até ao osso do polegar é menos acentuado e que as falanginhas estavam demasiado compridas, mas eu, de tão deslumbrada que estou com a minha própria pintura, não fiquei lá muito crente, que isto podia perfeitamente tratar-se de uma pessoa dotada de enormes falanginhas, que isto hoje em dia, sabe-se lá, mas, dizia eu, que estou de tal forma espantada com com o meu feito, que queria que alguém me explicasse, como... COMO É QUE EU CONSEGUI FAZER ISTO?!


A sério, estou em estado de choque e maravilhada comigo própria!

E para este post não se limitar a este estupendo auto-elogio, venho aqui agradecer ao Pipoco. É verdade. É que o Pipoco, com aquelas provocações irritantes, às vezes - só às vezes, ok!, não é sempre!- consegue ter um efeito inesperado. Tudo começou quando publiquei uma pintura semi-geométrica em verde e preto, e o Pipoco veio aqui escarnecer da situação e perguntar-me se eu tinha mesmo passado uma tarde a fazer "aquilo", "aquilo" foi o que ele baptizou de quadro-ETAR, uma coisa aparentemente tão básica que não podia tomar mais de dez minutos a uma qualquer alma e, raios, eu até achava que o meu quadro ETAR não estava mau, mas pronto, é verdade que eram só umas manchas de cor e então para demonstrar ao mundo que era uma boa artista, uma excelente artista, e que não me limitava a fazer só "aquilo", pus-me a pensar que havia de de fazer bonecos, porque fiquei cá com a ideia que, nestas coisas da arte, o Pipoco só valorizava bonecos, até pensei, com uma elevada dose de sobranceria, diga-se de passagem, que, se ele se cruzasse com uma daquelas pinturas azuis monocromáticas do Klein, havia de proferir a mítica frase proibida: "oh, isto também eu fazia". Mas o problema é que eu não sabia fazer bonecos, nunca tinha feito bonecos, parecia-me mesmo que bonecos estavam fora do meu alcance, que o desenho, enfim, não é o meu forte, e para além disso eu era uma artista moderno-contemporânea-praticamente-conceptual, uma pessoa do abstracto - até desdenhei um grande bocadinho daquela opinião, cheguei mesmo a pensar, do alto do meu pedestal "oh, ele claramente não percebe nada de arte contemporânea"-, mas aquilo ficou cá dentro a corroer-me o espírito, numa espécie de "espera lá que eu já te mostro", e então vá de me dedicar aos bonecos, e de repente os bonecos começaram a aparecer, e cada vez fico mais espantada e entusiasmada com os meus próprios bonecos e pronto, adoro fazer bonecos e a culpa de eu já não ser uma artista-moderno-contemporânea-praticamente-conceptual e de me ter transformado nesta simples-artista-bonequeira é unicamente do Pipoco. E pronto, agora, se já estiverem completamente fartos dos meus posts de pinturas, têm bom remédio: vão lá para o blog dele apresentar as vossas queixas.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Na verdade agora só me interessa pintar

Mas tenho de esperar pelo próximo fim-de-semana, que para me pôr a pintar é preciso ir buscar a parafernália toda, dispor as tintas, fazer as cores, e não faz sentido ter este trabalho todo para depois pintar um hora em contra-relógio, mas estou mesmo ansiosa por lhe pôr aquele braço esquerdo (dela) - que está curtinho, coitadinho - cá para baixo, com uma mão crispada em forma de aranha sobre o tampo de uma mesa que ainda há-de aparecer ali no canto inferior direito, a malinha ainda ainda está em branco porque não sei se fica ou sai, mas estava eu a dizer que só me interessa pintar porque fico mesmo espantada com a forma com que as coisas aparecem na tela, parece mesmo magia, esta boneca louquíssima, por exemplo, de onde é que ela apareceu, Deus do céu, ela e os seus papagaios coloridos?! Se eu fosse uma crítica de arte de renome diria que esta pintura se enquadra na série "acabou-se-ma o corrector" e o tema da criação, de grande intensidade emotiva e abundante cromatismo, versa sobre uma tentativa frustrada de transposição camuflada da fronteira que dá acesso ao Graal simbólico dos blogs, ou seja, ao Lago Tanganica.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Agora a sério, preciso mesmo de vos perguntar isto

Vocês gostam mesmo daqueles menus degustação/surpresa dos restaurantes das estrelas, aquelas viagens gastronómicas com tremoços explosivos que não são tremoços, ou azeitonas que não são azeitonas, que são apenas esferas de consistência estranha com uma água lá dentro, ou de um cubo branco que nós, lançados na onda do parece que é mas não é, levamos sem medo à boca para descobrir que afinal aquele cubo a fingir que é fat de oinc é mesmo fat de oinc, ou de reduções de todas as carnes e enchidos a um caldinho, ou de procurar os cones de sushi dentro de vasos de flores, ou de espuma de tangerina fumada nas cinzas da última erupção do do vulcão Etna, ou, o que eu realmente suspeito: têm vergonha de dizer que não gostam?


terça-feira, 21 de março de 2017

Para que não digam que nunca vos dei uma receita...


Se precisarem de preparar um reboco ou uma batonilha, já sabem.

Palmier dá início à aguardada - e científica - rubrica "O que diz o teu fémur?"



Esqueçamos a Calacatta ou... vai dar (quase) ao mesmo #versãoconstruçãocivil

Não só o preço é proibitivo, como demora um mês a chegar (com sorte, claro), como teríamos de pagar os desperdícios, que já que, como é uma pedra pouco utilizada, o excedente fica inutilizado. Posto isto, parece que não terei outro remédio que não o de adorar loucamente este Carrara, que até é riscadinho e tudo, assim vagamente a fugir para a Calacatta.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Atentemos, então, no meu problema

É este o exacto momento em que a cara não está acabada mas, se lhe toco, a transformo num desenho animado. Quid iuris?


(a minha adorável família continua a perguntar-me se este também é para pendurar no meu escritório e eu acho que eles são um bocadinho maus e não têm qualquer consideração pela artista) 

(o próximo já hei-de fazer sem ter como base outra pintura)

(alguém também havia de me dizer como é que se tiram fotografias às telas sem que a imagem fique a reflectir por todo o lado..)


sexta-feira, 17 de março de 2017

Fim da tarde

À sexta-feira costumo sair um bocadinho mais cedo para, antes de apanhar os miúdos, ir ao supermercado comprar coisas boas, waffers de baunilha e assim, e apesar de, desde a fatídica sexta-feira do acidente, esta ideia de sair mais cedo, de parar no mesmo cruzamento e de ir ao supermercado comprar coisas boas, não me proporcionar a mesma alegria que proporcionava, tenho insistido, se bem que, quando vêm carros atrás, não consigo parar ali para virar e vou dar uma volta gigantesca, mas, dizia eu, hoje consegui virar, que não vinha lá ninguém, virei muito depressa e com o coração a bater com muita força naquela reentrância entre as clavículas, e lá fui ao supermercado fazer as minhas compras, mas depois distraí-me logo na garagem com aquele casal que saiu com alguma dificuldade dum Ferrari cinzento todo racing, ela nos quarenta e muitos, loira, alta, magríssima, batom encarnado, saltos altíssimos, calças justíssimas, praticamente a cortar a circulação, camisa branca aberta até ao quarto botão com o sutiã todo maroto a dizer olá ao mundo, ele bem entrado nos setenta, as costas curvadas, a empurrar o carrinho das compras atrás dela, naquele passo parecido com o das crianças atrás das mães, que vai variando entre uma corridinha e uns passos rápidos, a dar o tudo por tudo para a conseguir acompanhar, ela desembaraçadíssima, a escolher os alimentos mais fit e saudáveis, a pô-los no carrinho, ele a tentar tirar um pacote de bolachas de chocolate à socapa, com os olhinhos a brilhar, ela a arrancar-lhe o pacote de bolachas das mãos com ferocidade e a voltar a pô-lo na prateleira, a dizer-lhe altíssimo enquanto revirava os olhos "Oh Manel, vá ver-se ao espelho, não vê que está gordíssimo", ela a ir por ali fora com a sua carteira caríssima a tiracolo, sem vacilar em cima daqueles saltos, a dar-lhe um grito irado lá do fundo do corredor, apontando para o carrinho "Oh Manel, empurre!,  mexa-se!, está aí a criar raízes, é?", ele a dizer que podiam levar um peixinho para o jantar e ela a dizer-lhe que levasse, que ela de qualquer forma ia jantar fora, e depois tive de me ir embora, que já parecia mal estar ali especada, não sem antes pensar que isto de ser casado com uma mulher-troféu, a partir de determinada altura, pode ser mesmo uma profissão de alto risco.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Graças a Deus - literalmente - pelo empreendedorismo!

Que aquilo dos santinhos para despachar ou também conhecidos como santinhos ready-to-go é uma excelente ideia, uma ideia que veio preencher uma enorme lacuna no mercado, uma ideia com um potencial de tal forma grandioso que eu até propunha que se fosse um pouco mais longe, que se criasse uma espécie de drive-in de santos para que uma pessoa não se visse obrigada a perder um único minuto do seu precioso tempo, em que não fosse preciso estacionar, bastava abrir  a janela, fazer o pedido e seguir em frente já na posse de um queridíssimo Menu McSaint (São José - pacote c/ 100 santinhos de papel + vela perfumada com oração), ou de um amoroso Happy-Prayer (50 mini-terços para lembrança em azul ou rosa + oferta de 1 miniatura da Basílica de São Pedro para brincar) ou até de um sublime AllSaints-Deluxe (Rosário Electrónico Divino Pai Eterno SS17 - importado directamente de Itália), kits pensados para facilitar a nossa vida religiosa e melhorar a protecção divina. Caramba, isto sim, isto era serviço público! 


quarta-feira, 8 de março de 2017

A minha vida é um enorme problema! E a culpa é vossa!

Instigada que fui pela vossa resposta positiva aos meus anseios, numa opinião quase unânime, mandei uma mensagem ao arquitecto a dizer que prefiro o Carrara. E mandei uma fotografia para exemplificar, dizendo que gosto mesmo é deste Carrara, o que tem os veios muito definidos, que parecem partidos/rachados, por oposição ao outro Carrara que tem o aspecto de teia de aranha. Que é mesmo este que quero, mande-se vir as amostras que a escolha está feita, que já não consigo visualizar qualquer outra opção.


Ele acabou de me responder a dizer que esta pedra não é Carrara, que é Calacatta e que é mais cara. Agora estou aqui desesperada, sem conseguir imaginar outra hipótese que não a Calacatta e à espera de saber o que é que isso do "mais cara" significa em euros.

A questão é a seguinte:

Havia dúvidas na escolha da pedra. Então resolvemos fazer as casas de banho de um dos apartamentos de baixo nesta pedra pele de tigre para, depois de as vermos montadas, decidirmos se, no nosso apartamento, também usávamos esta ou se optávamos pelo carrara (que era a pedra inicialmente orçamentada). Acontece que agora toda a gente adora esta pele de tigre, os arquitectos, o meu consorte, o fiscal da obra, os visitantes, sei lá eu, foi uma coisa que se lhes deu com esta pedra, uma grande estima, um avultado amor, uma benquerença ilimitada, uma paixão incontrolável.

E depois, do outro lado, estou eu sozinha: a única que prefere o carrara.






terça-feira, 7 de março de 2017

Percebi agora mesmo que isto é uma coisa de família!

Reparem como ela subrepticiamente irrompe pelas nossas criações artísticas, como pulula os nossos sonhos e, sem darmos conta, nos aparece aos dois, a mim, no quadro de ontem e ao meu pai: AQUI.

A Manuela Ferreira Leite é, sem qualquer espécie de dúvida, uma musa inspiradora de família!


segunda-feira, 6 de março de 2017

Alguém pode vir aqui num instante dar-me um incentivo, antes que o Pipoco se apresente para arrasar definitivamente a minha autoestima artística?

Depois de quatro fins-de-semana a pintar este quadro. Quatro. A minha adorada família apresenta-se junto a mim, à vez e cada um por si, e perguntam: onde é que vais pendurar isso. Sim, a minha adorada família refere-se à minha arte como "isso". E depois concluem: No teu escritório, não? O que se pode traduzir por: tira-nos isso da frente. O pior é que, tendo em conta as minhas dificuldades com o figurativo, eu achava que até que nem estava nada mau -foi pintado com base noutras pinturas, mas, ainda assim, achei que nunca iria conseguir - e agora preciso que alguém me diga isso mesmo, que não está nada mau. Pessoas? Alguém? Mãe? Tu que gostas de tudo o que eu faço, importas-te de vir aqui dizer bem? Por favor! És a minha última esperança!



quarta-feira, 1 de março de 2017

E então a pessoa pergunta à sua Maman:

Já viste a minha planta nova, não é maravilhosa?


E a minha Maman responde muito convicta: 
- Oh, vê-se logo que é falsa!


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Frustração

O meu grande problema com o figurativo é o de transformar as figuras todas em desenhos animados.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Tanganica -The Return

Depois de termos sido abandonadas pelo nosso Grande Líder, deambulámos por muito tempo pelas terras devastadas de Tanganica, carregando no regaço o ícone dourado de São Sansão, o único objecto sagrado resgatado do Templo do Grande Pássaro, consumido por enormes labaredas sulfurosas no próprio dia em que fomos por Ele enjeitadas, foi esse o tempo em que densas nuvens plúmbeas cobriram o sol e que a nós, as outrora graciosas flamingas de plumagem colorida e sedosa, nos pareceu infinito, tempos de trevas tenebrosas em que a desolação se instalou e a alegria se esvaiu juntamente com as enxurradas de lama vulcânica, tempos em que a fome grassou, obrigando-nos a lutar arduamente pela sobrevivência, num claro downgrade ao lifestyle a que fôramos habituadas, tempos em que aquele que era conhecido como o lago mais blogosférico da Blogosfera deixou de servir pequenos almoços com panquecas e papas de aveia, em que deixámos de saber novidades sobre os must-have mais recentes e em que os brunches foram definitivamente suprimidos, impossibilitando-nos de alimentar os nossos blogs e instagrams, tempos sem lei nem ordem e em que ventos gelados sopraram das estepes polares, obrigando-nos a cobrir a nossa plumagem desbotada com velhos sobretudos de colecções passadas, lutando contra ciclones, ajoujadas pela força das cinzas suspensas no ar e pelo peso dos nossos parcos haveres - os poucos que resistiram ao saque generalizado da nossas fronteiras desprotegidas - tempos em que, gemendo, rastejámos pelos pântanos de enxofre por onde vimos partir as nossas conterrâneas com o farnel dependurado num velho cabo de vassoura, numa onda de emigração em massa de Tanganiquienses em busca de segurança e melhores condições de vida, reduzindo a nossa população a níveis perto da extinção. Mas estamos crentes que ontem, quando, pela primeira vez em quinhentos e sessenta e sete dias, o primeiro raio de sol conseguiu finalmente irromper pela espessa camada de nuvens cinzentas, incidindo obliquamente sobre o ícone sagrado, vislumbrámos Sansão, lá no alto, planando sobre as águas do Lago, e foi então que nós, as valorosas flamingas, as pouquíssimas que resistiram à angústia da espera, as únicas que acreditaram verdadeiramente, abrimos as asas aos céus e, com os olhos marejados de lágrimas, gritámos em uníssono enquanto nos abraçávamos: afinal ainda há esperança, Ele regressou!


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eu cá, quando for ministra, já sei o que fazer!

Trato de todos os assuntos por sms.


Ah, o carro…

Era suposto estar pronto na sexta-feira, mas o senhor diz que se calhar não consegue tê-lo pronto até ao final do mês, que está complicado, ainda faltam umas peças, que foi uma grande pancada, aliás, sempre que lhe telefono o senhor diz-me que foi uma grande pancada, que por dentro está bastante danificado, que carro é que lhe bateu?, pergunta, incitando a uma resposta  apoteótica, qualquer coisa como: foi um camião tir, e então eu lá digo baixinho, quase envergonhada, que não, que foi um Peugeot, e ele então faz um som espantado e depois volta a insistir: sabe, foi uma grande pancada. E eu pergunto-me se eles estão treinados para dizerem estas coisas para as pessoas ficarem inseguras e irem a correr comprar um carro novo ou se o carro estará efectivamente condenado…


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Infelizmente isto hoje em dia já não se pode ter certezas de nada!

Digam-me que sou eu que estou a ver coisas!

E então a pessoa dedica-se a ver a série Versailles, e depois do choque inicial, que é ver um rei francês a falar inglês, nem sequer um sotaquezinho alô-alô para disfarçar, a verdade é que a pessoa não se consegue concentrar, passa o tempo todo de sobrancelhas franzidas a olhar para o actor que faz de Duque de Orleães a achar que está a ver coisas, sim, é verdade, a pessoa passa o tempo todo a alucinar e a perguntar-se o que raio está a fazer uma determinada blogger na corte de Luís XIV...








sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Isto assim não dá, somos nós que temos de fazer o trabalho todo!

Post registado com aviso de recepção


Exmo. Senhor Engenheiro Pipoco Mais Salgado,

Serve o presente para comunicar que, de acordo com o artigo 403º do Código de Produção de Posts, V. Exa., se encontra em falta, sem que tenhamos sido devidamente informados do motivo de tal ausência, mais acrescentamos que a presente situação configura um caso grave de abandono ao trabalho. Sendo certo que não poderá alegar em sua defesa os aparecimentos fugazes ao fim-de-semana, situação que tinha como objectivo claro iludir os menos atentos, informamos que tendo em conta a pilha de posts inacabados que se acumulam neste momento em cima da secretária de V. Exa., seremos obrigados a abrir um casting para que os pretendentes ao lugar que V. Exa. ocupava, possam assim apresentar as suas candidaturas.

Com os melhores cumprimentos

Palmier Encoberto


Ainda a estante

O modelo vai ser este, amplamente testado e com excelentes resultados. As prateleiras podem ser retiradas ou encaixadas em qualquer das ranhuras, permitindo a arrumação de livros ou objectos com diferentes alturas,  Desta vez as ilhargas e prateleiras vão ser mais espessas porque os vãos vão ser mais largos mas... lá está... a madeira ainda em aberto... 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Palmier encontra-se num dilema

A situação é a seguinte: A estante da esquerda está incluída na empreitada. O desenho vai ser o que está em baixo, mas o material/madeira não está ainda definido. Acontece que essa estante não é suficiente para albergar os livros do casal, logo Palmier determinou que a estante tem de ser replicada na sala. Acontece porém que Palmier não faz a menor ideia de como quer a sala. No entanto, ao escolher a localização e o tipo de madeira para a estante, Palmier vai estar a condicionar todo o decor. O carpinteiro já entrou em cena e precisa de uma resposta. Palmier não sabe o que fazer da sua vida...



Estante do escritório

Ah pois é!

Julgam que somos só nós, mães, mulheres e donas de casa, a sofrer a pressão de arrasar nos baptizados, nos almoços de Páscoa e nas maternidades, as únicas martirizadas com o ideal de perfeição com que a internet nos bombardeia?


Expectativa


Realidade