quarta-feira, 21 de junho de 2017

Está tudo bem

Só que, com a enormidade do que se passou no fim-de-semana, a vontade de escrever foi-se. Escrever sobre o quê afinal? Sobre o tom de cinzento da pintura da fachada, sobre pequena Cutxi, que nem com este calor dispensa um serão passado ao meu colo, sobre o quê? Tudo parece tão estúpido... É que nestas alturas uma pessoa fica de braços caídos, sem acreditar muito bem no que se esta a passar, a olhar para a televisão e a pensar como e que deixamos arder um pais tão pequeno, as suas gentes. As nossas gentes. Como é que os governantes vão para a televisão dizer que, por mais que tenham feito ou estejam a fazer, estão de consciência tranquila?! Eu, que não tomo decisões, que não percebo nada de botânica, nem de florestas, nem de fogos, não estou de consciência tranquila, ninguém de bem pode estar de consciência tranquila quando famílias inteiras foram esturricadas numa estrada.

E pronto, foi por isto que não escrevi, por pudor, porque sou sempre forte, porque não cedo aos sentimentos, porque em 2003, tinha o meu filho meia dúzia de meses, vi o fogo mesmo ali,  a subir o vale, e fui virar o carro para o portão, para estar pronta para fugir por uma qualquer estrada...

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Lapalissade

Apesar dos inúmeros sinais verticais, daqueles com o círculo encarnado, de perigo, apesar das lombas, das bandas sonoras, das luzes cor de laranja intermitentes,  apesar das barreiras a cortar o acesso, apesar dos painéis de sinalização darem indicação de piso molhado e zona de derrapagem, há quem teime em circular a alta velocidade pela auto-estrada da soberba, ignorando  aquilo que toda a gente sabe: que o caminho acaba numa parede cega. 


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Nunca me tinha acontecido

Então ela entrou na sala para a entrevista com um decote daqueles mesmo reveladores, bem bonito por sinal, olhou para mim decepcionada e perguntou ah, vai ser consigo? Sim, vai ser comigo. E então virou-se de costas, voltou ao corredor e reentrou com uma écharpe castamente enrolada à volta do pescoço...


sexta-feira, 9 de junho de 2017

E pronto!

Bem sei que o mal está lá atrás, nas primeiras vezes que lhe abri a porta e dei dois dedos de conversa, que enfim, achei que não podia privar a porteira do seu modo de vida, do leva e traz, de lhe acenar com a cabeça quando diz mal da senhora do segundo, da do terceiro e do quarto, sabendo de antemão que, quando fecho a porta, vai ao segundo andar dizer mal da senhora cá de baixo, ou seja, de mim, mas a porteira é uma pessoa solitária, precisa destes momentos de fel para se manter rija e saudável e a mim não me custava assim tanto, de modo que a deixava entrar quando ela se abeirava por trás do murinho do pátio, nunca imaginando que, um dia, o assunto do leva e traz se focasse apenas nas minhas pinturas, as que ela disse que até eram jeitosas e finas, mas que aparentemente a atormentam. Agora, para além das visitas do fim de tarde, ataca a minha auxiliar de roupa e lar durante o dia, para irem secretamente e em conjunto ver os quadros da doutora,  tu já viste isto? Olha este cão, que feiiiiiio! E a cara dela? Tu já vistes a cara dela? E põe-se a imitar a expressão da cara da boneca que está na pintura, E aqui, enfiada com o cão na banheira! Onde é que já se viu uma pessoa a tomar banho com um cão!? E o rato? Um rato em cima dela, olha bem práquilo, que nojo! e, danada, agarra no pescoço da minha auxiliar de roupa e lar dirigindo-lhe os olhos na direcção do rato, para ela não perder pitada: olha! Para que é que ela pinta estas porcarias?, pergunta indignada. Sim, podia pintar umas coisas bonitas, os filhos, que são tão jeitosos, o marido, um homem tão bem parecido, não desfazendo, uma paisagem, mas não,  põe-se a fazer isto! E agora, à tarde, sabes lá, chega a casa, põe-se a pintar e pronto! Como quem diz, uma pessoa dá-se ao trabalho de a vir visitar, coitada, que ela precisa tanto, e ela nada!


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Eu ía escrever uma história bastante dramática sobre uma pessoa que se tinha tornado invisível e não sabia

Mas enquanto estava nisto a minha atenção foi desviada para uma daquelas janelinhas da net que estão sempre a piscar do lado direito do ecrã,  uma daquelas janelinhas Alice no País das Maravilhas "buy me, buy me", uma janelinha de um site de roupas daqueles com coisinhas bastante simples, todas elas assim na casa dos quatro dígitos... e depois... ó páaaaaaaaaaaaaaa!... dei com isto:



A sério, pessoas, alguém chame a Pipoca Mais Doce para nos esclarecer! Isto usa-se?! 

É que já estou a antecipar um Outono-Inverno absolutamente épico!




terça-feira, 6 de junho de 2017

Moche à Susana

Porque eu também quero mostrar o antes e o depois da minha Natureza, a minha linda Ficus Lyrata, a que estava com as folhas esquisitas, de tal forma que lhe cortei duas, só que a decisão de proceder à excisão das folhas foi muito repentina, se é para cortar é para cortar, e é já!, mas como não encontrei a tesoura, a do peixe, que é mesmo boa, peguei numa faca e vá de proceder à poda, uma folha, zuca, já está, outra folha, zássss, claro que no zássss dei uma facada a uma terceira folha que não tinha nada a ver com o assunto e depois fiquei com aquela cara de olhos muito abertos e cantos da boca para baixo, a olhar em volta da sala, não fosse alguém ter visto o meu acto de hostil contra a planta, enquanto tentava disfarçadamente colar essa terceira folha de volta ao caule, como a minha filha, uma vez, quando era muito pequenina e viu um fio de cabelo meu a cair, pegou nele com todo o jeitinho, com as mãos minúsculas com covinhas de bebé e, muito aflita, disse-me "olha, mãe, é teu", enquanto tentava voltar a pôr-mo de de volta na cabeça, mas dizia eu que a minha Ficus Lyrata sobreviveu aos meus maus tratos e depois de meses de habituação ao seu novo lar, brindou-nos finalmente com uma nova folha. Verde, tenrinha e linda.

 

Da minha famosa orquídea não posso dizer a mesma coisa, já que, depois de nos ter brindado com um braço de flores, as primeiríssimas da Blogosfera 2017, foi confrontada com uma nova habitante, uma enérgica orquídea gémea, exuberante e de duplos cachos luxuriantes, toda armada em boa, e a minha pobre orquídea de cacho simples com raízes na cabeça não resistiu a tamanho ultraje e acabou por sucumbir à humilhação. E agora está ali, toda enxovalhada e despida de graça, a ganhar forças para provar o que vale.


Depois ainda há aquela questão que me anda a afligir vai para cima de muito tempo: como é que se dá água à nossa jungle caseira durante as férias? Há alguma técnica daquelas muito à frente?! Um Personal Irrigator? Um hotel para flores? Sei lá, qualquer coisa! É que a pessoa toma a responsabilidade de prover aos seus vegetais de estimação, até àqueles a que não tem muita estima, como aquela planta gigante e horrorosa que a minha porteira me ofereceu no aniversário, com umas folhas desgrenhadas e pontiagudas mais umas  flores sinistras, encarnadas, que parecem de cera, e está aqui num desassossego, a pensar se vai ter de alugar uma carrinha de caixa aberta para levar as malas, os filhos e a floresta, tudo para a época estival.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Quem inventou este conceito de arraial de fim do ano da escola, com o objectivo de proporcionar momentos de alegre convívio entre pais, filhos e professores

Devia ser punido com pena de prisão até quinze anos.

(estou fechada no carro a recuperar forças)

(Agora que já fiz o meu momento oooooooom, vou voltar a entrar para mais meia hora de martírio)

(mas já volto. Parece que dura até às dez da noite...)

E, como boa blogger, Palmier aproveita este momento alto para vender o Merchandising Blog em Bom

Tatuagens definitivas Blog em Bom, para poder levar o seu selinho para todo o lado


Canecas Blog em Bom para beber o smoothie matinal em grande estilo


Aniquile as suas inimigas exibindo o escapulário Blog em Bom em oiro e pedras preciosas


Ainda hoje teremos almofadas, mochilas, bonés, chapéus de chuva e capas de telemóvel. Não perca tempo, faça já a sua pré-reserva!



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Valha-me Deus que ninguém me explicou as regras!

(era suposto renomear sempre Pipoco Mais Salgado?!)

(Eu só não o fiz porque julgava que a corrente não podia andar para trás, ok?!)

(Já percebi... devia ter deduzido, não é? Era um teste, é isso!)

(E agora, vão-me castigar? Retirar o selo? Banir da Blogosfera?! O que vai ser da minha vida, Deus meu?!)

Selinho Blog em Bom (e o tempo que eu demorei para perceber que para pôr a imagem ali ao lado tinha de lhe dar um título...)



E agora, antes que me gastem os blogs todos, informo desde já que estão convocados para este maravilhoso momento de convívio:

https://ladykina.wordpress.com/

Eu não sou de intrigas, mas enquanto vocês andam lá todos entretidos com o selinho, eu cá já recebi o meu convite!



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Porque sei que estavam extremamente ansiosos pelo post semanal da Grande Obra, ei-lo aqui, para vosso deleite!






E agora voltemos ao grande Cisma da Decoração 

Opção A


Opção B


Recapitulemos!

Opção A


Opção B


Julgo que não restam grandes dúvidas sobre com que cônjuge está a razão...


segunda-feira, 29 de maio de 2017

A discórdia abateu-se sobre o meu lar e eu preciso da vossa ajuda!

O tema, bastante profundo, é a disposição dos móveis na futura sala. Ou seja, cônjuge 1 considera que a sala deve estar virada para a vista, que o sofá onde nos sentaremos todos os dias deve estar de frente para o rio, porque o rio é belo e quando nos sentamos devemos vê-lo. Isso implica ter a televisão num móvel baixinho junto à janela que dá acesso à varanda. Claro que a luz que vem de fora, impede que, durante o dia se consiga efectivamente ver televisão. No entanto, durante o dia, é raríssimo vermos televisão e se quisermos mesmo, mesmo ver, para além de haver mais do que uma televisão em casa, estão planeados blinds  e umas cortinas que podem ser puxadas para o centro, para minimizar o efeito contra-luz. Assim:





Já o cônjuge 2 entende que a televisão não pode estar à frente do vidro porque bloqueia a contemplação da vista quando um qualquer habitante deste lar está de pé no meio da sala -aparentemente é uma coisa bastante comum, isto de estarmos de pé no meio da sala a ver a vista- e deve ser colocada na parede da direita, para que se possa ver em qualquer altura do dia -apesar de nunca vermos televisão durante o dia, e até à noite, enfim, é cada vez mais raro -. Cônjuge 2 acha que a sala deve estar dividida em dois espaços, o espaço da televisão e um outro espaço que o cônjuge 1 não sabe para que serve. Talvez um espaço de contemplação de rio em modo sentado. Assim:




Cônjuge 1 está muito zangado com esta situação porque acha ridículo dividir a sala em dois espaços. Cônjuge 1 sabe muito bem que as pessoas ocupam um determinado espaço nas casas, normalmente em frente à televisão, e nunca usam outro, ficam fixas, pelo que não entende por que raio em vez de ter uma sala grande, vai ter duas pequenas e em vez de estar de frente para o rio vai estar a contemplar uma parede. 

E vocês, de que lado do Grande Cisma da Decoração se encontram, do lado do cônjuge 1 ou do lado do cônjuge 2? Contem-me tudo!


sábado, 27 de maio de 2017

Então a pessoa acaba de tomar banho

Ouve uma grande algazarra, vai, vai, põe as pernas para baixo que eu te apanho, não!, não!, vá lá, não tenhas medo, eu apanho-te! já disse que não, não quero! Então vais ficar aí para sempre?... a pessoa vai a correr, ver o que se passa e...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

E então, no seguimento do comentário da Sara ao post de ontem, em que falava nos passes de mágica que aplicava às galinhas da avó, paralisando-as

Lembrei-me de uma história daquelas de casa da minha avó, aquela casa que funcionava como um relógio, tudo nos carris, que ali não se admitiam falhas, era uma questão de orgulho, que a minha avó, menina da capital desterrada numa pequena cidade de província, tinha uma reputação a manter: ah, a casa da família Encoberto, aquilo sim, funciona que é uma maravilha!


Foi então que o meu pai, fazendo uso das inúmeras galinhas que ofereciam ao meu avô como agradecimento pelas curas praticamente milagrosas da medicina dos anos cinquenta, iniciou um curso intensivo de hipnotismo. Quando os adultos estavam distraídos, escapulia-se para o canto mais remoto do jardim, onde havia um galinheiro, e aí foi apurando uma técnica milenar que consistia em traçar um risco no chão com um pau de giz, depois chegava o bico da galinha ao risco e, como que por artes mágicas, as galinhas ficavam ali, paralisadas, inertes, concentradas naquele traço branco durante tempos infindos. Todo um galinheiro imóvel, mesmerizado como numa pintura campestre e bucólica. Acontece que paralisar um galinheiro já não era suficiente, o meu pai queria mais, queria público, aplausos e louvores pela sua proeza nunca vista, e então engendrou um intrincado esquema que o levaria à glória. Depois de muito pensar, resolveu escolher como pano de fundo do seu espectáculo o lanche das senhoras do Patronato - uma instituição de solidariedade social em que as senhoras discutiam a melhor forma de ajudar os seus próprios pobrezinhos - que iria ser servido lá em casa, um lanche em bandeja de prata e xícaras de Limoges, que isto de ajudar os pobrezinhos, como bem sabemos, só pode ser feito no meio do fausto. Estava então tudo pronto, as grandes senhoras solidárias foram chegando com os seus recatados tailleurs, os seus colares de pérolas e carteirinhas de mão, ocupando os seus lugares, todas muito direitas e convictas do seu estatuto, sugerindo as mais diversas actividades para as pobres crianças, coitadinhas, ensiná-las a bordar, ministrar-lhes a primeira comunhão, organizá-las num rancho folclórico, enfim, essas coisas que os pobrezinhos tanto precisam, quando, por detrás dos sofás, as galinhas estrategicamente colocadas pelo meu pai, de bico no giz, começam a acordar do seu transe, primeiro ouviu-se um leve cacarejar ali, um brando cacarejar acolá, os olhos experientes da minha avó a perscrutar a sala, a sentir que algo estava prestes a correr muito mal, quando de repente começaram a surgir galinhas de todos os cantos, a saltar de todos os lados, a debicar as finger sandwiches feitas com todo o esmero para a ocasião, galinhas em cima dos sofás, ao colo das grandes senhoras. Enfim, o lanche que ficou eternamente conhecido como “la grand débâcle”.

(percebo agora que a pintura de ontem é bem capaz de ser uma reminiscência desta históra :D)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Barbearia

A barbearia que começou os seus dias destinada a ser uma barbearia chique, uma coisa com bar ao fundo e manicure, foi, durante décadas, testemunha de um ódio visceral entre os seus dois sócios, o Senhor Basílio e o Senhor Manuel, um ódio que se prolongou por mais de quarenta anos, uma malquerença mútua que era palpável e que adensava o ar, deixando todos os seus clientes em alerta, tendo em conta a quantidade de objectos cortantes que por ali havia. O dito ódio, que se reflectiu na total ausência de limpeza e manutenção, deixou a barbearia parada no dia da grande zanga, os cortinados encardidos, as cadeiras desconjuntadas e os vários centímetros de pó que cobriam as capas das revista dos anos setenta eram prova mais do que evidente do tempo que aquela luta surda já levava. A postura dos dois barbeiros fazia o resto. 
O Senhor Basílio, o barbeiro dos elementos masculinos da minha família - não por escolha mas porque calhou ser ele a atendê-los da primeira vez que lá foram e a partir daí o lado da barricada estava automaticamente escolhido -, é um homem franzino, na casa dos setenta, cinzento de raiva, corpo hirto e ressequido, bata bege a abotoar no ombro, cabelo pintado de preto, bigode grisalho inteiriço e farfalhudo - um bigode que lhe ocupa metade da cara magra e afilada - vivia em tensão, movimentos bruscos e semblante colérico, a vida dele não era cortar cabelos, a vida dele era, isso sim, estar ali, a travar a sua guerra com o Senhor Manuel.
Acontece que, quando as facções beligerantes já pareciam ter desistido e o empate estava prestes a ser declarado, chegou o dia em que o Senhor Basílio acabou por ganhar a batalha final, já que o Senhor Manuel, apesar de ter dado luta, não sobreviveu às más energias que ali circulavam, libertando finalmente o Senhor Basílio para a vida. E o Senhor Basílio, num gesto de rebeldia, não perdeu tempo e ligou de imediato o seu destino a um novo barbeiro, um jovem de óculos de massa, braços tatuados e cabelo em poupa alta e lateral, que remodelou a barbearia por forma a retomar o brilho de outrora, lustres de vidrinhos, revistas de design sobre a mesa, decoração moderno-retro-industrial-vintage em preto, e o Senhor Basílio, cujo corpo já se habituou àquela postura rígida de autómato vai para anos, lá está, envergando, orgulhoso da vitória, a nova farda da barbearia: camisa aos quadradinhos, gravata de xadrez, colete de veludo e o seu bigode fora de moda agora elevado à categoria de moustache, num look totalmente hipster.

Quase consigo ouvir o risinho de escárnio do senhor Manuel, lá no além…



quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Grande Obra

Habemus janelas!


E testes de colocação de soalho!



e base de duche!



que vai ser encaixada ali, naquele cantinho!


E caixilhos da fachada tardoz!


e, caramba, está a ficar mesmo bonito!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O problema?

O problema é que não consigo reduzir a realidade. E já tentei. Mas desisto. Ficam sempre umas miniaturas ridículas. Ora, como não consigo reduzir a realidade, para pintar uma pessoa em pé preciso de uma tela com pelo menos um metro e oitenta de altura, para lá encaixar uma criatura com um metro e sessenta, e mesmo assim fico sempre com a sensação que é uma criatura demasiado pequena, depois as telas não me cabem no carro e, as que lá consigo enfiar não têm destino, porque não as posso pendurar na parede - derivado daquela falta de gosto da minha família - por isso vão ficando encostadas pela casa e ocupam imenso espaço, para além do aspecto caótico da coisa, que me perturba a paz.

O pior...? O pior é que só tenho ideias megalómanas...  

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Outros Tempos - O penteado

Já a Tia Violante tinha um séquito de criadas, praticamente uma PME, tal era o afã que se vivia naquela casa. Acontece que a Tia Violante, uma adepta fervorosa do brio, do garbo e da altivez, andava desgostosa com as melenas das raparigas, aliás, desgostosa é dizer pouco, a Tia Violante andava em pol-vo-ro-sa com aquelas gaforinas. Logo de manhã as raparigas entravam-lhe pelo quarto com aqueles chignons horripilantes, farripas de cabelos a sair por todos os lados, as travessas a cair, enfim, para os elevados padrões estéticos da Tia Violante, aquilo era um espectáculo feérico, uma tortura, uma situação que a deixava com os nervos em franja e os nós dos dedos brancos de fúria debaixo dos lençóis rendados. 
A Tia Violante tentou de tudo, as toucas, as redes, as grinaldas, os ganchos e as travessas, as bandoletes e as fitinhas, mas nada funcionava, os cabelos estavam vivos, eléctricos, eram cabelos ladinos, determinados a atormentá-la. Para além disso, as raparigas não tinham qualquer espécie de pundonor, parece que faziam de propósito, não se esforçavam por melhorar os dias da tia Violante, nem as noites, ah, as noites, as noites eram o pior, a Tia Violante deitava-se no seu grande leito encimado por um grande crucifixo e nem se conseguia concentrar nas suas orações, o temor dos cabelos desgrenhados era mais forte, parecia que as raparigas estavam ali à sua frente, a mofar dela, pagodeando das suas fundadas inquietações, abanando as suas cabeleiras esgadelhadas, aquilo eram pesadelos que a assolavam pela madrugada fora, visões tenebrosas, um tormento como nunca ninguém deve ter vivido, nem antes, nem depois da Tia Violante. E então, um dia, depois de um longo calvário e muito sofrimento, a Tia Violante, cansada de tolerar aqueles penteados rústicos que se passeavam na sua mui nobre casa, os penteados que a faziam viver permanentemente no fio da navalha e com o coração em sobressalto, tomou uma grave decisão. Sentou-se graciosamente na pontinha da cadeira da  grande secretária junto à janela, os cortinados abertos de par em par para deixar entrar a luz e, munida de pincéis e crayons coloridos, e inspirada directamente pelo bom Deus, desenhou o penteado ideal para a criadagem. E  a obra de arte, que sobreviveu a várias gerações, para que nenhum descendente tivesse de passar pelo mesmo martírio que a Tia Violante passou, consistia numa grande franja que era penteada para o lado com três ondas bem marcadas a ferro quente, três ondas ritmadas, uma, duas, três, apanhada atrás da orelha com um grande gancho de mola. Na nuca, e para evitar aqueles chignon desastrosos, a tia Violante idealizou uma permanente bem apertadinha, na verdade, uma carapinha, que garantia que os cabelos, depois de amarrados, não saíssem do sítio. E assim foi, uma vez desenhado o penteado, a Tia Violante pegou no seu staff impecavelmente fardado e, pela manhã muito cedo, para evitar encontros com as senhoras das suas relações, subiu a Calçada para as depositar nas mãos do seu cabeleireiro onde, qual artista da renascença, ia dando as devidas instruções para a correcta execução da sua obra de arte. Foi assim que, em casa da Tia Violante, se institucionalizou o famosos penteado, usado pela fiel Augusta até ao seu último suspiro. 
A Tia Violante nunca chegou a compreender por que razão, a partir daquele glorioso dia, se tornou tão difícil encontrar raparigas dispostas a trabalhar numa casa tão boa...

terça-feira, 9 de maio de 2017

E se fossem vocês a decidir...?

Na semana passada estivemos a fazer entrevistas para o preenchimento de quatro postos de trabalho não qualificado. Trabalho manual, repetitivo, que não necessita de raciocínios particularmente elaborados mas sim de concentração, rapidez e jeito. Estas quatro pessoas novas vão juntar-se a um grupo de cerca de trinta e cinco outros funcionários, pelo que, a capacidade de integração também é um factor a ter em conta Das vinte pessoas chamadas apareceram treze (não foi nada mau) e, das treze, quatro pareceram-nos boas ( o que foi excelente). A última a ser entrevistada ficou ali no limiar. Uma rapariga com vinte e um anos, com um discurso pouco fluido, envergonhada, mas com um sorriso amoroso, que seguramente se integraria sem dificuldade, que talvez fosse "adoptada como mascote", uma vez que a média de idade do grupo é bastante superior. Por comparação com as outras quatro ficou um bom degrau abaixo. Acontece que, quando a acompanhei à saída, a mãe, que a esperava, ficou ali indecisa, sem saber bem o que fazer, mas acabou por pedir para falar connosco. Explicou então que a filha tem um atraso mental (não sei se é assim que se diz, se é politicamente correcto, mas foram estas as palavras utilizadas pela mãe), mas que, se devidamente orientada, se esforça até ao limite para cumprir as tarefas que lhe são propostas, que é voluntária no CAD (Centro de Apoio à Deficiência) que frequentou, só para não estar em casa sem fazer nada, e para, por favor, lhe darmos uma oportunidade - e depois emocionou-se, claro, e eu também, caramba, fiquei ali com um nó horroroso na garganta - que não há ninguém disposto a dar oportunidades aos menos dotados, que temia pelo futuro da filha, que não podíamos imaginar a felicidade que lhe demos só por termos ligado a marcar a entrevista, o entusiasmo em que ficou, que não falou de mais nada nos últimos dias, que se lhe dermos a oportunidade não nos vamos arrepender. 

Os postos de trabalho são quatro, para a escolher vamos ter de preterir uma das outras (que, se esta conversa não tivesse existido, seriam as escolhidas), mas depois de saber toda a envolvente...


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Não sei se é bom ou mau, mas pelo menos é tranquilo

A verdade é que, hoje em dia, quando alguma pessoa me desilude de verdade - daquelas desilusões que aqui há uns anos me consumiam semanas de angústia e inquietação, tempos infinitos a repisar palavras e acções -, limito-me a encolher os ombros e a pensar "olha, mais uma", enquanto pego na vassoura com uma naturalidade imperturbável, varro a poeira do desencanto lá para o quartinho das desilusões e fecho a porta atrás de mim com toda a suavidade. Acho que perdi a capacidade de me indignar.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Minina, quéqui ocê tá fazendo?

Olha a couve lá, se julgando poderosa, mangando da gentje fora da geladeira, sendo entediante intencionadamente, olha lá a turma das couve, tudo pirua pensando que é brocoli, ali em cima da mesa fazendo as coisas que elas faiz, em vez dje estar pagodeando pra mim rir. Vai, me agarra que ela tá pidjindo e eu vou gastar todas minhas energia ferrando nela.