terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A reunião

Éramos seis, estava um calor de morte, parece que o ar condicionado tinha um problema qualquer, caramba, parecia que estávamos numa fornalha, todos com umas rosáceas cor-de-rosa gigantescas na cara, sentados à volta de uma mesa; a advogada, gira, inteligente, super clara e eficientíssima, por ter a agenda cheia para o julgamento, estava a apresentar-nos e a passar o nosso processo a um novo advogado, recém entrado no escritório. E ele, gordinho e anafado, queria impressioná-la, a ela e a nós, mostrar-se sabedor de todas as minudências do articulado, mesmo, mesmo, dentro do assunto, a dominar os factos e a jurisprudência como ninguém, quando, de repente, a sua cadeira foi estranhamente projectada para trás e para baixo, e ele ficou com o queixo praticamente à altura da mesa, e nós olhámos para o lado, fingimos que não tínhamos reparado no estranho percalço, e ele atirou-se de imediato a um manípulo da cadeira a rodar e a puxar, a cadeira lá subiu e ele lá se recompôs, e continuámos. Passado um bocado, pumba, outra vez, cadeira para trás e para baixo, o senhor todo descomposto, ali atirado, e eu a morder as bochechas para não me rir e ele a mexer no manípulo, a pedir desculpa e a dizer que era novo na casa, que não se dava bem com aquelas cadeiras, e a cadeira a voltar a subir e a reunião a continuar. E passado um bocado, pumba! A cadeira maléfica a voltar a fazer das suas, e o senhor todo esparramado e eu a olhar para o tecto, impossível cruzar o olhar com alguém, acho que nunca mais parava de rir, a cadeira voltou a subir pela terceira vez e lá voltámos ao nosso assunto. Por esta altura, o senhor, sempre que mudava de posição fazia-o com muitas cautelas, olhando de relance para baixo, para a cadeira possuída pelo demo, a testa povoada gotículas de transpiração, pediu muitas desculpas, despiu o casaco, que estava realmente muito calor, que o melhor era abrir a janela, mas as janelas não se abriam, e ele a puxar à bruta, praticamente a arrancar o puxador, já totalmente descontrolado, e nós com medo que que a parede viesse atrás da janela tal era a violência dos abanões, a acalmar o senhor, que não fazia mal, que não era assim tão grave, bastava que, para a próxima, dissessem aos clientes para comparecerem às reuniões de fato-de-banho. E ele a voltar à cadeira, desconfiado, a sentar-se muito devagarinho, como que a querer enganar a cadeira, mas a cadeira a não perdoar e ele, pumba a voltar a ser atirado, e eu a sair para ir para a casa de banho rir e a cruzar-me à entrada da sala de reuniões com um colega, e os dois a rir de lágrimas silenciosas, e a voltarmos a entrar na sala com a cara mais séria que conseguimos, e a cadeira poltergeist que não parava! E à sexta ou sétima vez  vez, oh pah, já não aguentava mais, mas também já não podia fingir que aquilo não estava a acontecer, e lá lhe disse que, se calhar, era melhor trocar de cadeira, que, àquele ritmo, a coisa ainda ia acabar mal, ainda tínhamos de chamar uma ambulância... ou um padre, não sabíamos bem.

E agora estou aqui a pensar que o melhor é levar-lhe um banquinho no dia do julgamento, não vá o diabo tecê-las... 




20 comentários:

  1. Olha eu não me aguentava, tinha-me partido ali a rir.

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  2. Imagino a cena.:):):):):):):)
    Hoje nem dá para me rir muito que assanhei a sinusite num raio de um desembaciador de um táxi tal não foi a inalação de ar quente.
    Boa sorte com o Senhor Doutor. Acredito que ele já saiba onde fica o esternocleidomastoideo da cadeira por altura do julgamento. :):):)

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    1. Dá para imaginar, não dá? :DDDDDDDDDDDDDDDDDDDD

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  3. ahahahahahaha.....ahahaha...ahahaha....ahahah...caem lágrimas, senhores, caem lágrimas....AHAHAHAHAHA....AHAHAHAHA
    Sílvia V.

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  4. Eu também tive de morder as bochechas para não dar uma gargalhada . Muito bom! Lá impressionar, impressionou e não foi só a advogada gira.

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    1. :DDDDDDD
      Nunca mais me hei-de esquecer do senhor da cadeira! Não me lembro do nome, mas lá que tem problemas com as cadeiras, isso ficará para sempre na minha memória! :DDDDDDDDDD

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  5. Isto é alguma parábola? É que se for, não acho nada bem que o senhor, além da pouca sorte com a cadeira, nem sequer fosse elegante. Mas a Palmira, claro, com esse corpinho e cinturinha de vespa, toca de gozar cu gordo!

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    1. :DDDDDDDDDDDDDDDD
      Então... se fosse mais levezinho talvez a cadeira não fosse tão violenta!

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  6. Muito, muito bom!
    O que já me ri!
    Obrigada! Mesmo!

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  7. A melhor gargalhada do meu dia de hoje foi para esta história hilariante! Uma reunião inesquecível e tudo por causa de uma cadeira e um senhor anafadinho (que não deve ter nenhum sentido de humor). Eu tinha me desfeito em vergonha na primeira queda, arranjava uma desculpa esfarrapada do género: fui contratado para testar este material mas como podem ver não vou dar nota positiva no controlo da qualidade... Vamos lá tentar outra vez...apenas para ter certeza...com esta última queda, chumbou sem dúvida nenhuma. Algum dos presentes deseja declarar oficialmente algo sobre este material?

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    1. Ahahhahahaahhahahhahahhahahahahahhahahahhahahhahahahhahahaha
      Teria sido perfeito! :DDDDDDDDDDDDDD

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  8. Palmy, aquilo foi praxe dos colegas mais velhos ao advogado recém chegado, não foi? Mas "esqueceram-se" de avisar os clientes do que ia acontecer, para não transmitir a ideia de ser um escritório pouco profissional e muito dado à galhofa,certo?

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  9. D. Palmier, tiro-lhe o chapéu: pela descrição que me levou às lágrimas e por manter a compostura durante a cena. Eu não tinha aguentado. Talvez na primeira ou segunda queda, mas certamente que a partir daí já não ia conseguir manter-me serena. Muito bom!!

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  10. Sim. Isso é que é cá um advogado cheio de expediente.
    Comigo à primeira vez já não havia segunda. Procurava outra cadeira e se não houvesse pedia uma.
    E sou pedreiro.
    Julião.

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