quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O mais inteligente dos menos inteligentes

O Ricardinho nasceu no decorrer da Segunda Guerra, era um bebé loiro, olhos azuis, lindo, praticamente um príncipe. Dizia-se que tinha um olhar único, um olhar que, no berço, aconchegado nos lençóis de cambraia, já inspirava confiança. Os primos, menos abençoados pela beleza e tristemente esquecidos pela inteligência, olhavam para o Ricardinho e viam nos gestos suaves das suas pequenas mãos, mãos que agarravam na roca de prata determinadas, a força de um líder. E assim cresceu Ricardinho, que aos seis ou sete anos já se destacava na família com a sua aptidão para a aritmética. Enquanto os primos, coitadinhos, se debatiam, nervosos, com as contas de somar e subtrair, Ricardinho dava cartas; enquanto aqueles roíam o lápis e mordiam a linguinha a tentar somar dois mais dois, Ricardinho olhava para os dedinhos das suas mãos determinadas e contava "um, dois, três, quatro". "Quatro" respondia. E a família ouvia aquelas respostas com estupefacção. Que maravilha, diziam uns, que prodígio, diziam outros, que assombro, repetiam todos em uníssono. Apesar de, na escola e mais tarde na faculadade, ser um aluno não mais que mediano, Ricardinho cresceu por entre as tias que lhe passavam a pontinha dos dedos pelo cabelo, ajeitando-lhe as madeixas loiras num penteado irrepreensível, enquanto, sentadas muito direitas nas suas cadeiras, bebericavam o chá das suas xícaras e acenavam afirmativamente umas para as outras, confirmando que sim, que tinham ali, diante dos seus olhos, o futuro, aquele que levaria mais longe o nome da família, um Einstein da alta finança. Era, sem sombra de dúvida, o mais inteligente dos piquenos! É que, comparando com os primos, essa era, de facto, uma verdade insofismável. Entre os primos Ricardinho brilhava. E assim se deu início à lenda que havia de perdurar no tempo: em caso de dúvida, e como em muitas outras terceiras gerações de muitas famílias, nada de cansar as fracas cabeças, em caso de dúvida pergunte-se ao Ricardinho, o Ricardinho é que sabe, o Ricardinho trata, o Ricardinho decide, delegue-se tudo no Ricardinho, que tem uma cabecinha d'oiro, benz'ó Deus. Afinal, com tantas provas dadas e tantas vezes repetidas, quem é que havia de duvidar da palavra do Ricardinho?


E a família acreditou tanto que o Ricardinho era o mais inteligente - e não apenas o mais inteligente dos primos - que o Ricardo cresceu e começou a representar esse papel, adoptou uma conveniente postura distante para não ser apanhado a contar pelos dedos das suas mãos determinadase e, paulatinamente, começou a assumir que sim senhor, que era não só o mais inteligente, como o mais capaz, o mais hábil e o melhor preparado, sendo que, a páginas tantas, acreditou mesmo nisso. Depois? Bem, depois aconteceu o que aconteceu. O que, bem vistas as coisas, foi mais que o destino, foi uma fatalidade.


(Esta comissão parlamentar tem-me ajudado muito a perceber o que raio aconteceu ao BES/GES. É que, o que me está aqui a parecer, é que esta gigantesca fraude foi cometida para tentar tapar a génese do problema. Ou seja, para esconder a incompetência total e absoluta que grassava naquele grupo. Olhem... foi uma tristeza o que aconteceu ao GES...)



16 comentários:

  1. Tenho pensado no mesmo. Alguns nem falar sabem...

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    1. É constrangedor...

      (bem sei que lhes convém fazer esse papel, mas acho mesmo que aquilo não é só representação...)

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  2. Vou ler esta história às crianças na noite de Natal
    (e, sim, o que aconteceu ao GES foi mesmo uma tristeza)

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    1. :DDDDDDDD
      São capazes de ficar algo nostálgicos na noite de Natal... :DDDDDDDDD

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    1. Foi uma tristeza o que aconteceu ao Ricardinho... :/

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  4. Um dia, um dia Plamier, hei-de falar sobre os primos.... no geral.

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  5. Enquanto isso as irmãs de Ricardinho frequentavam aulas de economia doméstica... (já nessa altura se pensava que nunca se sabe se não é preciso fazer bolos à noite para os restaurantes!!)

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    1. Acho que essa é a grande revelação da Comissão de Inquérito! :DDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDD

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  6. Infelizmente, o mundo está cheio de Ricardinhos. Cada vez mais me convenço que há ditados que foram criados por algum egrégio visionário, pois assentam que nem uma luva em certas pessoas " Em terra de cegOs, quem tem olho é rei"... e quem não tem , mas acredita que vê mais longe, precisaria provavelmente de dois ou três pares de mãozinhas sapudas e determinadas, para saber contar a sério.

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  7. por isso é que nas monarquias modernas os reis e delfins são colocados em lugares onde não podem fazer estrago de monta: vide o brilhante principe Carlos ou a fascinante monarquia espanhola.
    todos sabem que o final das dinastias é sempre cinzento, medíocre, inglório. todos, menos aqueles a quem os rios de ouro que dali jorravam deram muito jeito, para eleições e férias. e muitos foram, infelizmente para todos nós.

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    1. Sim, de facto teria sido muito melhor se se tivessem limitado a desfilar vestidos e fatos de bom corte...

      (deve ter "desaparecido" tanto dinheiro daquelas empresas, nas barbas daqueles "gestores"...)

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