sexta-feira, 30 de junho de 2017

Arma de destruição maciça

E então ela entrou, uma mulher à volta dos cinquenta, bonita, cabelo impecavelmente esticado pelo cabeleireiro, muitíssimo bem vestida, sapatos e carteira da Avenida da Liberdade, mas a cara fechada, um olhar de superioridade abrasivo, os lábios apertados num trejeito de desprezo, cumprimentou a outra que já lá estava sentada com um beijinho solitário, deixando-a pendurada e de faces ruborizadas, aquelas centésimas de segundos que se prolongam indefinidamente, aquela hesitação entre o disfarçar ou forçar o cumprimento, mas a mulher bonita lá fez um esforço lento para dar o segundo beijinho, um esforço demasiado lento, como que a marcar a hierarquia, depois sentou-se de lado na cadeira, numa pose estudadamente blasé, a mesma boca crispada, os olhos perscrutadores a avaliar o ambiente à sua volta em euros, como uma folha de Excel em soma automática, enquanto falava de generalidades com uma batata quente na boca, a competição entre as duas a tornar-se palpável a todos os que estavam à volta, a mulher bonita a tornar-se cada vez mais feia com a soberba a desprender-se-lhe de todos os poros, a  outra a apagar-se perante aquela manifestação de distinção, até que no fim, a outra, que estava a ficar para trás na corrida da supremacia do estilo, levantou-se, pegou na sua carteira também ela da Avenida da Liberdade mas uns bons furos acima, e a mulher bonita transfigurada em feia, chegou-se para trás na cadeira, como que atingida por uma bala certeira no coração, e perdeu ali, no instante em que pousou os olhos na marca da carteira da outra, a sua guerra surda.

65 comentários:

  1. Já assisti a uma mulher assim, e também completamente apanhada por carteiras da Av.da Liberdade (isto há uns anos soaria muito mal) a fixar o olhar numa outra, topando-lhe o estilo sofisticado, guerra declarada naquele olhar, e a desfazer-se segundos depois ao chegar com os olhos à carteira. Eu a ver, na fileira de trás, ligeiramente de lado. A mulher mudou de cor, mesmo, autêntico, ficou vermelha de raiva, capaz de matar a outra, uma perfeita desconhecida, pela carteira. E eu, envergonhada com comportamentos que não são meus mas deliciada a analisar o ser humano.

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    1. :DDDDDDDDDDDDDDDDD

      É mesmo isso! O despropósito da raiva, como se a pessoa valesse pela carteira que tem... :D

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    2. Mas olhe que não se diz lábios, Palmier. Beiços.

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    3. Entre lábios ou beiços venha o Diabo e escolha! São ambos péssimos! :DDDDDDDDDDD

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    1. Neste caso o Diabo vestia LV, mas a outra ainda vestia melhor :DDDDDDD

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    2. LV é tão jogador de futebol! 😂

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    3. Também não aguento as carteiras com o logotipo a cintilar por todo o lado! :D

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    4. Pobrezinha de mim que retiro a "griffe" da Lanidor das calças, das malas, ups carteiras, por achar que é ostentação :) :) :)

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  3. Mal vai o mundo no qual se ganham competições de personalidade com os euros que se investem numa mala

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    1. Mas que as há, há. E já não é a primeira vez que assisto a este tipo de combate :)

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  4. Essa mulher merecia que a outra tivesse uma carteira do Largo do Chiado daquela loja que faz esquina ;)

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    1. Lisboa já merecia uma Chanel a sério, em vez daquele "corner" manhoso da Stivali. A Hermès não tem equivalente Palmier!
      Já senti esses olhares mas pior. Já me disseram que uma das minhas carteiras não condizia com as calças de ganga brancas da Zara que tinha vestidas! A melhor resposta é um sorriso aberto com dentes brancos, não demasiado aberto, nem demasiado brancos.

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    2. Sim, em termos de preço a Hermès bate todas, mas eu, pessoalmente, nunca nutri um particular apreço pela marca... as gravatas são boas, mas o resto... os lenços, as carteiras, os acessórios... não me dizem nada. Seria incapaz, por exemplo, de comprar uma Birkin. Não é de todo o meu estilo... aliás, há anos que não entro na loja do Chiado. Só gosto de ver as montras, que são normalmente muito criativas :)

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    3. Também não tenho uma Birkin, nem tão pouco ambiciono uma :) adoro as sandálias rasas e os lenços.
      Em Lisboa é alvo de comentários e olhares esverdeados andar com uma boa carteira e um bom par de sapatos.

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    4. Sim. What are you talking about...

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  5. os homens, na natureza pragmática que os caracteriza, são mais afectados pelo seguinte:

    . o automóvel, preço e potência
    . o fato, preço e elegância
    . o relógio, preço e extravagância
    . o telemóvel, preço e aspecto
    . o computador, preço e tamanho
    . a mulher, boa e alta

    por esta ordem.

    (somos tão mais simples e previsíveis)

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    1. Ahahahhahahhahahahhahahahhahahhahahahahahahhahahahhahaahhahahahhahahahhahahahahahah
      São muito mais complicados! As mulheres, pelos vistos, contentam-se com uma guerra de carteiras! :DDDDDDDDDDDDDDDDD

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  6. esses sítios que frequenta... txi.

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  7. Retrato genial, não das mulheres, mas de um estilo de mulher para quem a mala ou os sapatos são indicativos da auto-estima. A distância a que me encontro é abissal mas sei reconhecê-las.
    ~CC~

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    1. A minha mãe que tem 85 anos, costuma dizer que o que faz uma mulher é um bom cabelo e um bom par de sapatos. Despreza malas, diz que tem ombros descaídos :)

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  8. Chato isto de em tendo uma boa carteira e um bom par de sapatos ser logo catalogada de "um estilo de mulher" :-(

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    1. Anónima... não me parece que a questão aqui seja a boa carteira ou os bons sapatos... diria que o que está em causa são as pessoas que acham que é a carteira ou os sapatos que as definem...

      (eu gosto bastante de boas carteiras e bons sapatos mas se estiver de Havaianas não me sinto menorizada...)

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    2. (está em causa "um estilo de mulher" que acha que uma boa carteira ou um bom par de sapatos a torna melhor que as outras)

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    3. E como é que se decide esse rótulo? Hum, está com um ar enjoado trau carimbo de "um estilo de mulher"?

      Acho elegante e simpático o seu hábito de responder a todas as pessoas. Obrigada.

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    4. Decide-se observando. Há casos - como este - bastante evidentes. Se é subjectivo? É. Mas há tantas coisas na vida que são subjectivas...

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  9. Às tantas era tudo da feira...

    Também não entendo mesmo essas guerra de egos. Como se ter uma carteira de 1000€ nos tornasse de repente muito melhores pessoas, uma dádiva para a sociedade. Eu até podia ter uma carteira desse valor, mas não quero. Será que isso faz de mim menos gente? Que manias tão parvas!

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    1. Yap... há quem ocupe os seus dias com estas coisas :)

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    2. E porque não quer, acha que quem quer é porque a faz melhor pessoa?
      ...
      Porque não aceitam cada um como é sem julgar? As pessoas que usam carteiras caras não são necessariamente más pessoas. Atentem no tio Pipoco que fala de coisas boas como canetas Montblanc e sapatos ingleses. Porque não vão lá dizer-lhe que é "aquele tipo de homem"?
      Nota: nas marcas de que a Palmier falava as carteiras não custam mil euros

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    3. Minha boa Anónima, vamos lá esclarecer isto que eu não a quero ver assim, enervada. Ninguém está a dizer que quem compra uma carteira cara é má pessoa, nem quem compra uma carteira barata é boa pessoa. A questão está nas pessoas - que as há - que se julgam melhores que os outros porque podem comprar uma coisa cara. Eu tenho carteiras caras, dessas da Avenida da Liberdade, e não me considero má pessoa. Agora, não me julgo melhor do que quem tem uma carteira da Parfois, nem uso a carteira como forma de me engrandecer perante ninguém. Aliás, muitas das vezes opto por virar a marca para o lado de dentro, exactamente para não melindrar ninguém.
      Mais, a Anónima é que está a julgar a Anónima das 16.29, que, podendo comprar a dita carteira, opta por não o fazer. É a opção dela, sugiro que a aceite sem julgar. Da mesma forma que eu nunca compraria uma Birkin. Se as outras já são caras, a Birkin tem um preço ofensivo, obsceno mesmo.
      Para concluir. Nem todas as pessoas que compram carteiras caras são "aquele tipo de mulher", mas há mulheres - e homens - que são efectivamente desse tipo.

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    4. Eu, como tenho cabeça de pobre, também não consigo dar tanto dinheiro por tarecos. Consigo apreciar, nalguns meios acho que até é fundamental, para não dar nas vistas com um carteira da zara, mas até já proibi o marido de oferecer tais coisas.

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    5. Eu não estava a julgar, perguntei simplesmente porque atacam logo quem tem uma carteira cara. Nem tão pouco estava ou estou enervada. Constato é que em Portugal é quase crime ter coisas caras e, infelizmente, também já dei por mim a tentar esconder a marca de coisas boas (ou a tirar o relógio do pulso e guardar!) para não melindrar ou provocar sentimentos de inferioridade noutras pessoas.
      Cada um tem o que tem e podemos (poderiamos?) viver todos pacificamente sem preconceitos de superioridade ou de inferioridade.
      Acho curioso não atacarem os homens que ostentam (e dei o exemplo do Pipoco) mas às mulheres não perdoam nada e catalogam-nas imediatamente.

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    6. Caramba, Anónima, não sei se não está mesmo a perceber a questão, se não está a querer compreender! A questão não está no facto de ter a carteira cara, está na atitude de algumas pessoas que as têm. E quanto a isso de vivermos todos muito felizes com o que temos, pois... os riquinhos muito contentes em ser riquinhos e os pobrezinhos muito contentes em ser pobrezinhos... enfim, parece-me evidente que as coisas não funcionam assim, e um pouco de sensibilidade social não faz mal a ninguém. Quanto à história dos homens e mulheres, nem vou entrar por aí. Já escrevi aqui uma série de histórias em que os homens são protagonistas neste tipo de situação. Neste caso calhou serem mulheres.

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    7. Embirrou comigo porque não concordo com tudo o que diz? Era suposto dizer só pois é, esse tipo de mulher, ah também já assisti, que horror tanto dinheiro por uma carteira, nunca vou compreender, é obsceno. E então responder-me-ia com os dois pontos e a letra d maiúscula. Bom fim-de-semana.

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    8. Caramba, Anónima, que isto está mesmo difícil. O que está em causa não é o dinheiro, nem a carteira, nem o relógio, nem o carro. É a atitude que algumas pessoas - mulheres e homens - têm por possuir qualquer um - ou todos - estes objectos. Que são apenas objectos e não passam disso mesmo. Não nos conferem qualquer aura especial. Não é uma embirração consigo, é fazer-me aflição que esteja a falhar o ponto. Fazemos a coisa ao contrário e eu coloco-lhe assim a questão: já se cruzou, na sua vida, com aquele tipo de pessoa - pode ser mulher ou homem - que julga que, pelo facto de possuir objectos caros, é melhor do que o vizinho do lado?

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    9. Bem sei que era isso que estava em causa no seu texto. Desculpe se quis alargar o assunto.
      Sim, já me cruzei com pessoas assim mas essas parecem-me tão ridículas como as que catalogam quem usa coisas boas.

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    10. Ah... ok... então a anónima, ao catalogar essas pessoas com que se cruzou como "pessoas do tal tipo", estava a ser ridícula?

      (é que uma coisa é alargar o âmbito de uma discussão, outra, bem diferente, é misturar assuntos...)

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    11. Eu estou-me nas tintas para as pessoas que se acham superiores aos outros por terem coisas boas, acho uma atitude ridícula. Tal como a sua em atacar-me desde o início porque não concordo cegamente consigo. Fique com a bicicleta e com os :DDD

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    12. Então estamos de acordo: as pessoas que se acham superiores aos outros por terem coisas boas, são efectivamente ridículas!

      (Minha boa Anónima, eu não a estou a atacar, estou apenas a discordar de si. Da mesma forma que a Anónima expressa aqui a sua opinião, eu também lhe poderei responder com a minha. Ou não? De qualquer forma agradeço a bicicleta!)

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    13. Amém Palmier! :DDDDDDDD
      (Coitadinho do cônjuge nr.2, tem que ter uma paciência...).

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  10. eu cá também podia ter uma carteira desse valor, mas não estou a fazer dieta.

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  11. Pois já eu , concordo com tudo o que a palmy foi dizendo mas se pudesse queria ter uma mala dessas da tal avenida :) porque mais do que "provocar guerras de egos " as malas , são peças de arte . E eu gostava de ter no closet um pequeno museu :)

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    1. Engraçado como somos todos diferentes. Eu não posso dizer que não tenha dinheiro para uma carteira dessas (não que seja rica) mas nunca comprei nenhuma. Tenho uma que me foi oferecida e até tenho receio de andar com ela porque acho que é um chamariz para sermos assaltadas. Além disso, ainda não vi malas que considerasse obras de arte - se retirássemos a marca a vários modelos provavelmente a maioria das pessoas não lhes dava valor nenhum (não estou a dizer que seja o caso da anónima).

      Eu trocava de bom grado essas quinquilharias todas por viagens à volta do mundo :) Infelizmente o meu orçamento não me permite fazer assim tantas viagens como aquelas que eu gostava de fazer.

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  12. palmier, comento pouco, mas venho sempre cá, pois adoro, e o bem que me faz, o que me rio. :D Agora sobe o texto de hoje, adorei este pequeno excerto " levantou-se, pegou na sua carteira também ela da Avenida da Liberdade mas uns bons furos acima, e a mulher bonita transfigurada em feia, chegou-se para trás na cadeira, como que atingida por uma bala certeira no coração, e perdeu ali, no instante em que pousou os olhos na marca da carteira da outra, a sua guerra surda." A isso chame-se um estalo de luva de pelica branca. :D Infelizmente não são os euritos que dão ou compram a educação ou gosto. Os euros de cada esses sim podem-se medir pelas marcas, mas valha-me Deus, vejo tantas pessoas carregadas de marcas (verdadeiras) que mal abrem a boca, só sai vómito, e as atitudes?Aí, essas até doem. A educação e maneira de estar na vida, vem de berço, e isso não se compra, está na essência assim como deve ser a Palmier, apesar de não a conhecer, era uma mulher que adorava conhecer, pois a sua educação é bonita, é genuína. Parabéns e um muito obrigada!

    Isabel

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    1. Isabel, obrigada, agradeço os mega-elogios, que até fico aqui meio envergonhada :D mas sim, é verdade, há pessoas que julgam que o dinheiro compra tudo. Mas não :)

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  13. Ainda esta semana, estive a ver a montra da LV em Paris - uma carteira (ou mala? é mais chique dizer carteira ou mala?)- com a cara da Mona Lisa custava 2500eur...
    E a fila de gente que estava a aguardar à porta?! Alguém que me possa explicar?

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    1. orientais, certo?

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    2. Uma vez, em Paris, uma chinesa veio ter comigo na rua - achou que eu era francesa -, a tentar dar-me dinheiro para eu ir à LV comprar-lhe uma carteira - não lhe vendiam - depois percebi que os chineses compravam imensos modelos para copiarem. Quando eu disse que não, um bocado assustada, tentou dar-me dinheiro para duas, uma para mim e outra para ela. Fugi a sete pés! :DDDDDDDDD

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    3. Hum...agora que penso nisso, sim. Pelo menos, a primeira pessoa que estava na fila era oriental ;)

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    4. Ou angolanas. As dos generais e afins.

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  14. Palmier, o que eu gosto de si.

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  15. Ah, os sítios que a Picante frequenta.

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  16. Sobranceria nunca fez bem a ninguém.

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  17. A curiosidade atormenta-me: então e a primeira, a dos furos acima, lutava com letrinhas, quadradinhos ou algo mais refinado, em pele e sem monogramas?

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