quarta-feira, 24 de abril de 2013

Caro Nuno Crato,

Venho aqui dizer-te que o meu filho tem nove anos, está no quarto ano e é um bom aluno. É um menino muito inteligente, apesar de trapalhão, com uma memória prodigiosa, que consegue apanhar tudo à primeira, não obstante estar sempre muito ocupado a proceder ao salvamento dos lápis, canetas, e borrachas que teimam em cair-lhe ao chão. Este meu filho, Nuno Crato, sempre gostou muito de saber. Quer saber tudo. Mesmo o que não lhe diz respeito. Está sempre com a orelhinha arrebitada a ouvir tudo o que se diz à sua volta para perguntar o como e o porquê da praxe. Sabes, Nuno Crato, às vezes é extremamente cansativo responder às toneladas de perguntas com que me bombardeia todos os dias, mas, apesar de por vezes faltar a paciência, lá vamos fazendo um esforço para lhe satisfazer a curiosidade. O pior, Nuno Crato, é quando não temos resposta para lhe dar. É que não lhe consigo explicar por que razão não pode ele fazer o exame do quarto ano na única escola que toda a vida conheceu. E este preâmbulo, Nuno Crato, serve para te dizer que, tal como o meu filho, há muitos meninos de nove anos que, estando a frequentar o quarto ano, se apercebem da aflição das escolas e professores face à desorganização total com que está a ser tratado o assunto dos exames da quarta classe. Sabes, Nuno Crato, eu não sou contra os exames, mas fico absolutamente perplexa por perceber que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer. Não seria mais fácil, Nuno Crato, uma vez que desconfias que os professores do ensino primário possam fazer batota com os seus alunos, trocar os professores de escola, em vez da escola aos alunos?
É que o meu filho que, tal como te disse, está perfeitamente preparado para o exame, há quatro dias que, com a preocupação, só adormece depois da meia-noite.
Sabes Nuno Crato se, neste momento, eu fizesse um exame ao Ministro da Educação, estava bem capaz de o chumbar…    

21 comentários:

  1. Não sei o que é que eles resolveram inventar desta vez, porque há uns anos eram efectivamente os professores quem trocava de escola...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois... mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

      Eliminar
  2. Tem única e exclusivamente a ver com custos. Juntando as crianças são preciso menos vigilantes. No meio disto, a pressão extra infligida a miúdos de 9 anos é perfeitamente secundaria, afinal a educação nem é desenhada a pensar nas crianças, ou não mudariam o programa de matemática pela 3ª vez em 4 ou 5 anos. Cambada de imbecis.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hummm... não sei bem se é isso... cá para mim, tem mais a ver com fundamentalismo... é que, nas cidades, as pessoas conseguem fazer chegar as crianças às escolas do agrupamento, ou lá o que é... mas, no interior, a conversa não é a mesma. As escolas são muitas vezes a 30 ou 40 km de distância e os pais não têm forma de fazer lá chegar as crianças. Alguém terá de as levar...

      Eliminar
    2. Não terá que ver com os custos, já que os professores vigilantes não recebem mais por isso.

      Eliminar
  3. Chumbado. Já dei comigo a interrogar-me onde meteu ele a inteligência quando foi para o governo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois... dizem que a tinha... eu cá, fico na dúvida...

      Eliminar
  4. Ah, bom!
    Então isto está generalizado?? Fico mais descansada...pensava que era só na escola da minha filha (9 anos, 4º ano)...que estava o caos instalado...fico muuuuuuiiiiito mais descansada (not)!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Yap! Está tudo de cabelos em pé... atenção ao cabeçalho que eles vão ter de preencher na prova. Onde diz escola, têm de escrever, não o nome da escola onde andam, mas o do agrupamento onde vão fazer o exame. Para além disso, têm de saber qual é o número de identificação civil - no B.I ou cartão de cidadão, para preencher devidamente o cabeçalho... tudo coisas que os meninos de nove anos fazem no seu dia-a-dia escolar...

      Eliminar
    2. Ah...e agora ainda fiquei maiiiisss descansada! Essa ainda não sabia...Obrigada pela dica! ;)

      Eliminar
  5. Estão a afundar o estado social e a educação. O que me preocupa muito é não imaginar uma recuperação nos próximos tempos... e eu sou contra exames ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desde que sejam bem feitos e bem organizados, não me choca. Pena é que não se tirem as devidas ilações. Se uma turma inteira de meninos do quarto ano não sabe nada, a culpa não é, seguramente, dos meninos... e, se assim é, há que tomar medidas...

      Eliminar
    2. eu sonho com uma escola onde seja valorizada a individualidade de cada criança. Onde exista carinho, compreensão e entreajuda. Em que as notas que têm nos exames não ditem o futuro deles. A escola que não é justa nem oferece igualdade de oportunidades. E as nossas crianças não são números.
      Lamento imenso que o teu menino esteja preocupado com esta questão do exame... é realmente um exemplo fantástico de pedagogia ter a escola (por ordens do ministério) a stressar crianças de 9 anos!

      Eliminar
  6. Total acordo...a minha filha tem 9 anos e está no 4º ano... a passar exatamente por tudo o que referiste embora seja uma excelente aluna...no colégio dela organizaram uma visita à escola onde vai fazer as provas para minorar o impacto...mas era tão escusado tudo isto!!!
    Bjs
    Maria

    ResponderEliminar
  7. E todos os dias as informações mudam!!! Os miúdos estão um poço de nervos!!!

    ResponderEliminar
  8. Bem-vindos/as ao maravilhoso mundo do Ministério da Educação. A incompetência já é um clássico no que aos exames diz respeito; e o caos não é de agora, nem se resume ao exame de 4.º ano. Lembro-me de há uns anos atrás um exame elaborado em função de um programa que já não vigorava ou um teste intermédio anunciado em Novembro do ano em que aconteceria, ou critérios de um exame que surgiram apenas no 11.º ano (e contemplava também conteúdos de 10.º). E isto só nas disciplinas lecionei/leciono.

    ResponderEliminar
  9. A mais nova tb anda preocupada mas estou confiante na sua professora que é 5*, já foram visitar a escola dos "crescidos" a onde vão fazer os exames, escola mal afamada a nível da parte humana :( , tb a confusão é bastante. Daquilo que disseram na ultima reunião diz que os exames vão ser supervisionados e corrigidos por professores que não são daquela escola ( a professora da P tb vai estar noutra escola).

    Estou confiante na minha piquena, ela que dito pela professora " não é que ela seja extremamente inteligente mas usa a sua paciência e concentração para o seu sucesso, é a única que consegue resolver problemas com rasteiras" no entanto é insegura, uiii o que tenho que trabalhar essa parte que está no bom caminho pq todos os colegas a idolatraram, disse a professora que a palavra dela é a lei :D

    Vai correr tudo bem e os miúdos conseguem superar tudo, já no tempo ( outros tempos é certo) da minha mais velha correu :o ( estou com mais receio para o ano qd a mais velha estiver no 9ºano, é que a escola á sério começa no 5º ano é o salve-se quem puder :(

    ResponderEliminar
  10. É tudo uma parvoíce pegada: desde o facto de sujeitarem as crianças e os pais a esta movimentação de escola para escola, aos próprios professores! Sim, porque os professores não se inibem absolutamente nada de deixar transparecer o seu descontentamento aos miúdos e, irritados com tudo isto, acabam por stressar as crianças com os pormenores da treta! O sistema é todo uma grande porcaria.

    ResponderEliminar