terça-feira, 23 de maio de 2017

E então, no seguimento do comentário da Sara ao post de ontem, em que falava nos passes de mágica que aplicava às galinhas da avó, paralisando-as

Lembrei-me de uma história daquelas de casa da minha avó, aquela casa que funcionava como um relógio, tudo nos carris, que ali não se admitiam falhas, era uma questão de orgulho, que a minha avó, menina da capital desterrada numa pequena cidade de província, tinha uma reputação a manter: ah, a casa da família Encoberto, aquilo sim, funciona que é uma maravilha!


Foi então que o meu pai, fazendo uso das inúmeras galinhas que ofereciam ao meu avô como agradecimento pelas curas praticamente milagrosas da medicina dos anos cinquenta, iniciou um curso intensivo de hipnotismo. Quando os adultos estavam distraídos, escapulia-se para o canto mais remoto do jardim, onde havia um galinheiro, e aí foi apurando uma técnica milenar que consistia em traçar um risco no chão com um pau de giz, depois chegava o bico da galinha ao risco e, como que por artes mágicas, as galinhas ficavam ali, paralisadas, inertes, concentradas naquele traço branco durante tempos infindos. Todo um galinheiro imóvel, mesmerizado como numa pintura campestre e bucólica. Acontece que paralisar um galinheiro já não era suficiente, o meu pai queria mais, queria público, aplausos e louvores pela sua proeza nunca vista, e então engendrou um intrincado esquema que o levaria à glória. Depois de muito pensar, resolveu escolher como pano de fundo do seu espectáculo o lanche das senhoras do Patronato - uma instituição de solidariedade social em que as senhoras discutiam a melhor forma de ajudar os seus próprios pobrezinhos - que iria ser servido lá em casa, um lanche em bandeja de prata e xícaras de Limoges, que isto de ajudar os pobrezinhos, como bem sabemos, só pode ser feito no meio do fausto. Estava então tudo pronto, as grandes senhoras solidárias foram chegando com os seus recatados tailleurs, os seus colares de pérolas e carteirinhas de mão, ocupando os seus lugares, todas muito direitas e convictas do seu estatuto, sugerindo as mais diversas actividades para as pobres crianças, coitadinhas, ensiná-las a bordar, ministrar-lhes a primeira comunhão, organizá-las num rancho folclórico, enfim, essas coisas que os pobrezinhos tanto precisam, quando, por detrás dos sofás, as galinhas estrategicamente colocadas pelo meu pai, de bico no giz, começam a acordar do seu transe, primeiro ouviu-se um leve cacarejar ali, um brando cacarejar acolá, os olhos experientes da minha avó a perscrutar a sala, a sentir que algo estava prestes a correr muito mal, quando de repente começaram a surgir galinhas de todos os cantos, a saltar de todos os lados, a debicar as finger sandwiches feitas com todo o esmero para a ocasião, galinhas em cima dos sofás, ao colo das grandes senhoras. Enfim, o lanche que ficou eternamente conhecido como “la grand débâcle”.

(percebo agora que a pintura de ontem é bem capaz de ser uma reminiscência desta históra :D)

15 comentários:

  1. AHAHAHAHAHAHAHAHAHA ;)Que maximo!!! Nao posso ahahahah.

    Essa do giz e do bico nao conheco!!! Mequie? Mas a empurrar a cabeca? Mas para elas acordarem da transe essa tecnica e nitidamente inferior a minha, de barriginha para cima. E que so mexiam quando eu mandava!!!

    Sinto-me uma VIP neste blogue por ter um post com o meu nome, oh meu deus, e agora o que e que eu visto??? Ah, ok, nao interessa. Ufff
    Beijinhos ;) ;)
    (este meu teclado aqui nao tem acentos, o parvo).

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    1. Sim, pegava-lhes na cabeça e encostava o bico ao risco de giz. Não sei bem a técnica que nunca consegui realizar tal proeza! :DDDDDDDDDDDD

      (espero que estejas de vestido comprido! É o mínimo! :DDDDDDDDDDDDDDDDD)

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    2. com cauda e tudo, pois claro!!! :) (o vestido, eu nao) ;) ;) Beijinho ;)

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  2. O truque do giz já conhecia embora nunca o tenha conseguido realizar. Mas o da Sara nunca tinha ouvido. Se calhar tento que investir numa capoeira para experimentar todos estes truques.

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    1. Pois, eu também não! Mas o meu pai era pró! :DDDDDDDDD

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  3. Que classe! E o fausto foi sacudido pela revolta das galinhas saídas do transe hipnótico. Tínhamos «O Triunfo dos Porcos» e agora isto. Revira-te na tumba, Orwell! =P

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  4. Portanto, pode dizer-se que o interesse pela psiquiatria por parte de Papá Encoberto é coisa que lhe vem de berço, quando tentava "controlar" a mente das galinhas.

    Essa outra técnica de hipnotizar galinhas que foi referida recorda-me um falhanço épico do professor Herrero (ou seria o professor Karma?) num programa de televisão, penso que do Herman José, em que levou a valente bicada de uma galinha (que afinal não tinha ficado hipnotizada).

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    1. Foi o início de uma fulgurante carreira! Tudo começou com o domínio dos galináceos! :DDDDDDDDDDDD

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  5. Eu, agora nos meus 40 aninhos e menina da cidade, quando miúda, na casa dos meus pais na aldeia, metia a cabeça das galinhas debaixo da asa, dava-lhes umas voltas e elas adormeciam. Fazia isto ao capoeiro todo, depois chamava a minha mãe, e ela assustada a pensar que eu lhe tinha assassinado as galinhas todas, que saudades desses tempos.
    Obrigada por me voltar a ter estas lembranças, que estavam adormecidas e que com estas histórias foram novamente lembradas.
    Parabéns pelo talento para pintar, pelo talento para contar histórias, e para mim pelo melhor blog.

    Rosamar

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  6. ahahahahahahahahahahahahahahaha

    ainda só conhecia a técnica do calceteiro, "pica-pica-pica":

    https://www.youtube.com/watch?v=uewmq0il1Vc


    mas essa do giz, pelos vistos no Youtube, também é muito eficaz!

    ahahahahahahahahahahah

    (então o outro não matava cabras só com o olhar!?)

    :DDDDDDDDDDDDDDDDDDDD

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    1. Aahhahahaahhahahahhahahhahahahahahahahahahahahahaha
      Aí está a confirmação de que as galinhas são as criaturas mais obtusas à face do planeta! São hipnotizadas de todas as formas e feitios!!! :DDDDDDDDDDDDDDDDDDD

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  7. Há pouco mais de 30 anos atrás, eu teria sido a assistente ideal do grande número do Pai Encoberto, qual assistente de ilusionista!
    A minha ama, Gertrudes, sabia que não estando eu ao alcance da vista, haveria de me encontrar à frente da capoeira, a fazer espectáculos de variedades para as galinhas. Anos mais tarde, após ler a obra de Dale Canergie, não perdia a oportunidade de treinar os tais truques de hipnotismo aviário com os passarinhos engaiolados dos pais de uns amigos.

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    1. Ahahahahhahahhahhahahahhahahahahahahaahahhahahahaha
      Afinal toda a gente tem histórias com galinhas! E eu a achar que as galinhas já só existiam nos aviários! :DDDDDDDDDD

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