sexta-feira, 14 de novembro de 2014

“Estás com mau parecer”

Rezam as lendas que a tia Lili era uma das mulheres mais bonitas de Lisboa, vistosa, pele muito branca, loira, olhos azuis e rechonchuda como se usava à época. Enquanto a sua irmã mais nova, a minha avó, era morena, franzina e, dizia-se, desinteressante, a tia Lili era uma beldade. 
A tia Violeta, que, devido à morte prematura da minha bisavó, fazia as vezes de mãe, era uma criatura absolutamente anacrónica e com a mania das grandezas que, por entre as perseguições e tiros entre as várias facções que protagonizaram a Primeira República, vivia intensamente a gloriosa época dos reis e das rainhas, completamente alheada da realidade A sua vida passava por comparecer aos chás das condessas e aos serões decrépitos das viscondessas das suas relações, acontecimentos para os quais escolhia invariavelmente como acompanhante a tia Lili, a única das duas irmãs que conseguia embasbacar e arrancar deleitados “ahs e ohs” da assistência. A tia Lili era então ataviada com bonitos vestidos fora de moda, o seu cabelo de longos cachos doirados era ornamentado de grandes laçarotes e os seus pezinhos cobertos por delicadas botinhas de atilhos e, uma vez prontas e perante os acenos de despedida da irmã desengraçada, saíam de casa, tia Lili e tia Violeta, no seu coche de abóbora. 
A tia Lili cresceu caprichosa e manienta, sonhando com uma glória que tardou em chegar e que, quando chegou, não veio embrulhada no papel de fantasia que ela tinha imaginado. E este conjunto de circunstâncias levou a que a tia Lili, despreparada que estava para lidar com as adversidades e indignada com a vida por esta não ter cumprido as promessas que lhe tinham feito em criança, se tornasse numa pessoa manipuladora e venenosa, uma pessoa que parecia ter sido esvaziada de sentimentos tão banais como o amor ao próximo, uma pessoa que conseguia dizer as coisas mais terríveis com um sorriso de águia e com um à vontade incrivelmente surpreendente, uma pessoa absolutamente convencida da sua superioridade, um saco vazio incapaz de gostar realmente de alguém para além de si própria, tudo isto muito bem disfarçado com uma aura de divertida estrela de cinema. A tia Lili não era muito inteligente, mas era extremamente astuta, era uma pessoa que sabia encontrar os pontos fracos de quem a rodeava, estudava a sua presa e, quando tinha a estratégia montada, atacava sem dó nem piedade. Amarfanhar as pessoas à sua volta era uma espécie de hobby. Escolhia para o efeito os jantares de família, aqueles em que sabia que teria assistência -porque massacrar sem assistência não tinha metade da graça-, começando por elogiar alguns de nós para, então, poder isolar e destruir um outro. À medida que alguns de nós subiam no ranking, outro havia que descia vertiginosamente, e nunca sabíamos a quem havia de calhar a fava, era uma espécie de surpresa da noite! Lembro-me de nos sentarmos à mesa, as velas dos candelabros a bruxulear de permeio, enquanto a tia Lili, com o seu sorriso seráfico e enigmático, o sorriso que mais se aproximava da sua própria visão da Mona Lisa, escolhia a sua vítima. E uma vez escolhida, era como um Rottweiler. Não largava a sua presa. A conversa começava sempre da mesma forma: "estás com mau parecer", e a partir daí sabíamos que o eleito não teria descanso. A verdade é que, com receio de passar para a berlinda, ninguém ripostava, para além de que, nesta altura, a tia Lili era já uma pessoa de idade que, como tal, devia ser respeitada. E assim assistíamos, impávidos e serenos, a um verdadeiro bullying familiar do qual a tia Lili sabia que sairia invariavelmente impune. Tirando aquele dia em que depois de um qualquer brinde a tia Lili falhou a cadeira e caiu de rabo no chão - levantando-se de imediato como uma bola saltitona e apregoando ao mundo que nunca se magoava porque era de borracha-, levando a que todos nós tivéssemos debandado da mesa para ir rir sem som e quase sem ar, barricados na casa-de-banho, distraindo assim a tia Lili dos seus afazeres, os ataques foram em crescendo, chegando mesmo a tomar dimensões épicas, dimensões que levaram a que o meu pai, aproveitando um qualquer achaque de outra natureza, lhe receitasse uns comprimidinhos que a iriam fazer sentir-se melhor. E assim foi, passado uma semana de tomas ininterruptas, a tia Lili dirigiu-se ao meu pai e, olhando em volta para se certificar que ninguém a ouvia, disse-lhe lá do cimo da sua altivez:

- Olha lá Zé, estes comprimidos não devem estar capazes, e depois de uma pausa prolongada para pôr as ideias em ordem, acrescentou, é que agora até parece que gosto das pessoas. 



E eu, de vez em quando, fico a pensar que há muito boa gente que havia de fazer bom uso dos comprimidos da tia Lili.



(devo ressalvar que sempre achei a minha avó - na fotografia - muito bonita :)


34 comentários:

  1. É bonita , sim senhora. E eu imagino a Palmier parecida com ela.

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    1. Curioso. Quando vi a foto senti-me parva por ter pensado que imagino a Palmier parecida com a (bonita) senhora da fotografia, uma vez que ela nunca mostrou o rosto. E, afinal, não sou a única :)

      A senhora é bonita e tem também uma postura muito elegante (pelo que se pode perceber da fotografia, claro está!)

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  2. Escreves que dá inveja.

    (Muito bonita e elegante. Confere)

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  3. E que "porte" que a sra. sua avó tem! Quanta elegância :)

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  4. Palmier, não faz ideia de como estas suas histórias de família me encantam. E sim, a sua avó parece-me na fotografia uma senhora muito bonita. Agora,... tenho que chamar a atenção para o menino patusco de camisa branca,... hahaha, tem ar de quem estava a aprontar alguma.

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  5. Ai nao!! Agora quero ver fotos das 3. Mostra-nos a Lili e a Violeta ue eu preciso de caras para pôr nas eprsonagens que imagino enquanto te leio :) Tenta uma vez por semana postar uma historia familiar destas. E sim, a tua avó era bonita. Provavelmente as outras produziam-se mais. Atualmente também acontece imenso, mulheres que não são propriamente bonitas mas se produzem, são as que no conjunto saltam mais à vista.

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  6. Eu também gostava de oferecer esses comprimidos a uma pessoa ou outra.

    Sem dúvida que a avó é mesmo bonita! E também imagino a Palmier parecida.

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  7. Palmier Agustina my darling, o texto está maravilhoso como sempre e lamento que tia Lili seja assim recordado neste registo azedo e mesquinho mas tinha tia Lili "desculpa" para assim ter ficado…tinha-lhe parecido o futuro risonho e brilhante por conta da sua beleza e conhecimentos (acquaintances) sem que alguém a tivesse preparado para o mundo real, mas o que dizer, como justificar as "tia Lili" dos nossos dias, maioritariamente saídas directamente da Merdaleja e acabadas de chegar à parte alta da cidade, ainda com as marcas do acne juvenil que lhes deixou para sempre uma má pele, com olhos pequeninos de tanto os semicerrarem ofuscadas pelos brilhos de outras, e com as boquinhas encarquilhadas numa perfeita imitação de um cúzinho de galinha, de tanto apertarem os lábios fininhos para não lhes saír boca fora as palavrinhas de despeito que trazem no coração? Que desculpa dar destas a quem a vida mais que preparou e lhes disse "Get over it! Get a life!"?

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  8. Comprimidos ou, de tempos a tempos, um mini-AVC. Cai que nem ginjas! Mudam do dia para a noite, para melhor.

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    1. Balha-me Nossa Sinhora, carago! :P

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  9. Adorei Palmy, e também acho a tua avó linda e também te iamgino parecida com ela.

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  10. Assim de repente lembro-me de algumas compinchas suas.

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  11. Não é apenas aos olhos da Palmier. Confirma-se, a Senhora sua Avó é realmente muito bonita! :)

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  12. Gosto tanto, mas tanto, quando relatas estas petit histoires familiares! Esta, em particular, faz-me lembrar uma outra muito semelhante, contada pelo meu padrinho, não de um corpo de borracha, mas de um rabo de porcelana. Infelizmente, era muito pequeno quando a ouvi contar e não me recordo dos pormenores.
    Não há dúvida que a Avó é muito bonita, com um sorriso encantador, já para não falar do porte elegante (e distinto, acrescentaria a minha).

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  13. :)))))

    Tenho tantas histórias assim, que só sei umas partes, mas que me falha o contexto geral... infelizmente já não tenho quem mas possa reconstituir... :(

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  14. E com um cabelo irrepreensível! (vê-se claramente onde a P foi buscar os genes)
    Algum dos meninos é o Zé?

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    1. Ahahahahahhahahhahhahahahhahhahahhahahhahahahhahahahhahahhahahhahahahahahahahha
      É um cabelo de família! :DDDDDDDDDDDD

      (o da direita :)))

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  15. Se a sua avó era a mais feia.... quem me dera ser assim "feia". Para a época (e agora também) a sua avó era de uma elegência fenomenal. Vê-se que herdou os genes da sua avó ( olhaaaaaaaa a magra).

    ABRAÇOS

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  16. Fantástico pedaço de memória ! Deixa-nos a pensar que por detrás de todo o brilho, está o lado negro, esse desconhecido que a todos afecta. Adorei ler. :) :)

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  17. Que história fantástica, e sim a sua avó era linda. Também tive uma tia "Lili", mas felizmente a minha maçava-nos com doenças, todos os dias tinha uma diferente. Mas era uma querida quando queria.

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  18. Hum não será a palmier na foto só que envelheceu a :D .....gosto tanto, mas tanto de aqui vir.

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  19. Também voto na foto da tia Lili, gostava de associar uma cara à personagem. ;)

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  20. Palmier escreve muito bem. Adoro as suas crónicas (e também o seu sentido de humor). A sua avó era linda. Ah, e os comprimidos faziam -me jeito para dar a algumas pessoas.
    Bom fim-de-semana.
    Beijinho.

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  21. A Tia Lily não tem filhas? Condiz a descrição perfeita daquela que tem nome de um animal que vive no mundo mais a norte...credo

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  22. O apontamento da história da sua família está muito bem escrito e com uma elegante ironia. A sua avó tem classe que é um atributo com que se nasce.

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  23. Na minha familia existe uma situação que se assemelha à parte inicial da sua história. A minha mãe tem muitos irmãos, mas devido às idades, ela saía mais e era mais comparada com uma dessas irmãs. Bom, tal como a sua avó, ela - morena de sobrancelhas grossas, de jeans, t-shirts e all star - era sempre a preterida. A irmã - loira e de olhos azuis, de vestinhos de renda, cabelo muito bem aprumado, muito maquilhada - era quem o pai levava consigo a passear ou "exibia" em eventos.

    Mesmo uma outra irmã chegou a dizer que um dos namorados da minha mãe (um rapaz muito bonito aos olhos da maioria), "estava melhor para a x" (esta história foi-me contantada, também, por esta irmã). E essa irmã (a "loira" :P) sempre achou que a minha mãe tinha inveja dela e da sua profunda beleza, algo que a acompanha até aos dias de hoje. Pois que sei ser imparcial (embora guarde as minhas opiniões para mim, porque não adianta de nada), e na minha opinião a génese desta "tensão" era, por um lado, o tratamento desigual por parte do meu avô, mas por outro (e principalmente) a vaidade desmedida da minha tia (um amor de pessoa, nada como a Lili, mas que liga demasido à imagem e acha que uma mulher loira e de olhos azuis é sempre e necessariamente linda e maravilhosa). A vaidade da minha tia fazia dela uma pessoa um pouco presunçosa. Mas, como referi, é uma pessoa muito boa, muito meiga, partilha tudo o que tem (bastante), mas profundamente vaidosa, o que chega a cansar a alma ;)

    Ah! E a minha mãe era bem bonita! Tinha uma beleza exótica, uma presença nada banal (como eu, verdade seja dita!), mesmo de jeans e ténis!

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