segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Estereótipos

Nós, os Patrões, acordamos quando o sol vai alto, espreguiçamo-nos nos nossos lençóis rendados bem esticados nas nossas camas king size, deambulamos um pouco pelas nossas casas de luxo à Patrão, com os nosso lustres de cristal à Patrão e torneiras de oiro à Patrão, tocamos à campainha para a criada - que recebe o ordenado mínimo e a quem descontamos a alimentação e a dormida, claro está, era só o que faltava, encherem a barriga à borla; e a quem não fazemos descontos para a Segurança Social, que nós somos ricos mas não somos parvos- nos trazer o tabuleiro com o pequeno-almoço, deitamos as migalhas para o chão, para ela ter o que fazer, depois tomamos o nosso banho de espuma à Patrão, nas nossas banheiras de jacuzzi à Patrão, vestimos as nossas roupas de caxemira e calçamos os nossos sapatos à Patrão - de mil e quinhentos euros, os de quinhentos são para directores, cada macaco nos seus sapatos e respeitinho é bom e o Patrão gosta - vemo-nos ao espelho e fazemos a nossa Patrão-Face, aquela a três quartos, braços cruzados à frente do peito e o queixo levantado, sentimo-nos logo bem, poderosos, prontos para explorar funcionários, depois descemos à garagem onde temos estacionado o topo de gama à Patrão, comprado com o dinheiro da empresa, claro está, aceleramos pela cidade em excesso de velocidade, que as leis não foram feitas para nós, enquanto nos rimos daquelas criaturas paradas à chuva, nas paragens de autocarros. Quando chegamos às nossas empresas damos logo um grito à secretária, Oh Ermengarda, sua incompetente, traga-me já o meu café à patrão!, depois ligamos ao Alves da contabilidade para avisar que este ano não se paga subsídio de férias nem de Natal, que a festa lá na quinta vai ser de arromba, coisa para cima de seiscentos convidados, ligamos ao departamento de Recursos Humanos e mandamos o Mendes despedir uns sete ou oito, só por diversão, "oh homem, sei lá quais, acha que eu sei o nome dessa gente, olhe, escolha ao calhas!", e então pegamos no cartão de crédito da empresa e vamos para as nossas almoçaradas à Patrão onde trocamos técnicas de tortura de trabalhadores com Patrões amigos e mostramos uns aos outros os extractos das nossas contas bancárias ao mesmo tempo que nos rimos dos ordenados miseráveis que pagamos aos funcionários, enquanto os exploramos cada vez mais,

Então e não trabalham? Trabalhar? Oh menina, nós somos patrões!


45 comentários:

  1. Pipocante Irrelevante Delirante23 de janeiro de 2017 às 11:34

    O que me ri a ler este texto enquanto tomava o meu banho de espuma.
    Só porque a Palmier me fez ficar bem disposto, já nem vou mandar despedir alguém hoje.

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    1. PID, por favor! Que grande horror, um dia sem despedir é um dia totalmente perdido!

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  2. Infelizmente Palmier há muitos patrões que se enquadram nesse estereótipo. Não sei se serão muitos se poucos, mas já conheci alguns.

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    1. Claro que há, Ana. Da mesma forma que há muitos que não se enquadram...

      (também há muitos trabalhadores que se enquadram no estereótipo "vou só lá buscar o ordenado ao fim do mês, que não estou para me cansar" e não é por isso que se generalizam os trabalhadores...)

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  3. Pipocante Irrelevante Delirante23 de janeiro de 2017 às 11:57

    Eu faço questão de passar perto da plebe que espera pelos transportes populares. Porque aprecio o contacto humano, e porque é mais fácil acertar-lhes com a água das poças.

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    1. Claro, PID, toda a gente sabe que esse desporto é conhecido pelo golf citadino dos Patrões.

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  4. Se a sua vida não fosse tudo o que aqui descreveu, que é como deve ser, nunca mais cá voltava.

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    1. Acho muito bem! Nada de frequentar blogs do proletariado!

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  5. Desculpa lá, mas eu despedia já o empregado que te escreveu este texto. Está cheio de lacunas, há vários aspetos que importa esclarecer. O palacete à Patrão não paga IMI. As almoçaradas são pagas com o cartão da empresa para depois ir buscar o IVA e abater no IRC. Isto porque não são só os patrões que não pagam impostos, as empresas dos Patrões também não.

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    1. Então, Mirone, não podemos mostrar o jogo todo...

      (oh Mendes, está a ver isto? Despeça-me já esse desqualificado que nem um m##rd@ de texto à Patrão é capaz de escrever!)

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    2. Pipocante Irrelevante Delirante23 de janeiro de 2017 às 12:26

      Despedir?
      Não me diga que dá contratos a essa malta... isso só faz com que se acomodem. É fazerem o trabalhinho, e irem buscar o deles ao fim do mês. Mantém a rapaziada motivada.

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    3. :DDDDDD
      "Dar contratos" é maravilhoso, PID.

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    4. Oh PID despedimento é forma de dizer, é coisa sem processo disciplinar nem justa causa, é só mesmo um "ala daqui para fora!". para dar aquela adrenalina!

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    5. Agora diz-se procedimento disciplinar, não é?

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    1. (isto é num dia bom, como é óbvio...)

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    2. Nem uma baforada de Cohiba naqueles rostos tementes, enquanto reflectimos se despedimos o casal ou se os colocamos a fazer três turnos nas férias?...

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    3. Pipoco, então, não vamos mostrar o jogo todo! Toda a gente sabe que os blogs só mostram o lado cor-de-rosa da vida e nós temos de mostrar o lado cor-de-rosa do patronato, para as pessoas compreenderem as nossas dificuldades e agruras!

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    4. Sim, concedo, sou uma patroa com coração...

      (mas estou a fazer um coaching de autoritarismo para melhorar esta minha faceta mais bondosa)

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  7. "... almoçaradas à Patrão onde trocamos técnicas de tortura de trabalhadores com Patrões amigos..."
    :DDDDDDDDDDDDDDDD

    Infelizmente, ou felizmente não conheço Patrões Patrões. :D

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  8. Eu, que sou patrão de mim mesmo, às vezes queixo-me da estupidez do meu patrão, outras vezes penso que podia estar desempregado se ele (o meu patrão) fosse um nadinha mais esperto.

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    1. Cuidado não vá o patrão ler isto e depois é que são elas! :D

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  9. Tão bem escrito que até imaginem a fuça do patrão!

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  10. Mais do mesmo. Belíssimo texto e ainda melhores respostas a comentários. Vir a este blogue começa a ser demasiado previsível, tal é a qualidade que sabemos que aqui vamos encontrar. :) :) :)
    (sou funcionária e dou-lhe total razão. Farta de ver diabolizar o patrão, mesmo se sei que ele, nesse papel, não é perfeito, longe disso)

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  11. Existe uma rábula que, para mim, resume de uma forma genial a questão dos estereótipos patrão/trabalhador, com uma atriz que também acho que foi genial, Ivone Silva, chama-se Olívia patroa e Olívia costureira (se procurarem no google aparece logo) uma coisa feita há uma data de tempo e está lá tudo, acho que nunca mais conseguiram fazer um resumo tão bom.

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    1. :DDDDDDDDDDDDDDD
      Já vai para que séculos que não ouvia isto. Fica aqui o link, para quem quiser rever:

      https://www.youtube.com/watch?v=ydnBAcdGoQw

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  12. Estou a ver que o proletariado à patrão a aborreceu hoje... Felizmente conheço muito menos patrões à patrão do que proletariado à patrão, esses são imensos e dão trabalho ao/à patrão, coisa para a tensão arterial de uma idosa como eu ir aos 18, é por isso que trago sempre alprazolam na minha carteira (de idosa) não me vá passar uma coisa pela vista e acertar-lhes com a própria da carteira (de idosa) enquanto realizo o trabalho para que os contratei e pelo o qual pago mais que o salário mínimo, felizmente não me acontece muito (mas acontece).

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    1. Nada disso, só acho divertida a cegueira ideológica :)

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  13. Depois desse estágio como patroa estás hiper qualificada para comandar um navio pirata!

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    1. E chicote, posso usar?

      (é o meu sonho... :DDDDDDDDDDDDDDDDD)

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    2. Não! Há aquilo do TEDH. Nós, os Piratas, morremos de medo dessa gente!

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  14. patrão que é Patrão não chega ao escritório sem ter atropelado pelo menos três sindicalistas em passadeiras (tal e qual a Filipa com os ciclistas).

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  15. Eu no avião para a minha Lua-de-mel ouvi um patrão Patrão a dizer que tinham aquela viagem e que teriam de marcar outra para apresentarem despesas na empresa... fiquei um pouco chocada. Até porque eles estavam no mesmo resort que nós, portanto de alguma forma apresentavam as viagens pessoais como despesas da empresa (posso estar a ser injusta e o negócio deles ser férias e estarem só a testar um novo local).
    Para infelicidade minha, durante a minha adolescência, também tive um patrão Patrão, daqueles que nem sequer me fez um contrato, que me pagou 1,5€/hora e que todos os dias berrava connosco de manhã à noite e humilhava todos os empregados de uma forma vil. Foi uma das piores pessoas com as quais já me cruzei na vida e eu só trabalhei para ele numas férias de verão.

    Não são todos, claro que não. Ainda bem que não!! Mas infelizmente também existem (como existem empregados que nunca aparecem a horas, não dão rendimento, não se esforçam e outros que até roubam os próprios patrões).

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    1. Yap... más pessoas (ou pessoas sem noção de moral ou responsabilidade) existem e existirão sempre...

      (nesses casos deveria valer a fiscalização)

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