quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um mix de Kafka com as intermitências da morte

Era uma história de uma carta remetida a uma entidade patronal (doravante designada como a entidade), aprisionando para sempre um pobre cidadão no obscuro mundo das penhoras de vencimentos, um mundo lúgubre e sombrio, sem lei nem regras e gerido por folhas de excel e programas informáticos  que agrilhoam os cidadãos ad eternum. Ora a entidade, ao receber a carta do Solicitador de Execução, pegou na sua faquinha de papel em prata, cravejada de diamantes e pedras preciosas e, enquanto tamborilava os dedos sobre o envelope e esboçava o seu sorriso mais peçonhento, pensou: quem será o feliz contemplado desta vez? Rasgou então o sobrescrito com um nervosismo perverso, na ânsia de verificar o nome, o valor da penhora e os juros com que um dos seus trabalhadores se veria a braços e verificou que a situação era melhor ainda do que supunha, era um jackpot!: uma dívida de quarenta e quatro mil euros e juros moratórios no valor de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros, a entidade vai repetir: cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros (e correndo o risco de se enganar, que as entidades patronais, já se sabe, não são muito boas em números, vai digitar aqui os algarismos: 153895,00€). 
Ora a entidade, ruim e impiedosa, pegou no telefone e ligou para o Solicitador de Execução e, fingindo-se apoquentada com tal situação, perguntou como era aquilo possível. Lá do outro lado, do inacessível e sombrio mundo das penhoras, disseram-lhe que a entidade não tinha de fazer perguntas, que só tinha de debitar no vencimento, mas a entidade tinha de representar o seu papel de entidade preocupada até ao fim e disse: mas como é que eu vou dar isto a um funcionário? Como é que lhe explico uma coisa destas? Desculpe mas tem de me esclarecer, tem de me dizer como é que uma dívida de quarenta e quatro mil euros dá origem a juros de cento e cinquenta e três mil, oitocentos e noventa e cinco euros. E foi então que lá do outro lado, das trevas do submundo das penhoras, me responderam: Isso é porque a senhora não leu bem o papel! Não li bem o papel? Mas está aqui, os valores são estes! Preto no branco! Sim, disse com maus modos, mas não leu a data prevista para o fim do pagamento da penhora! E então a entidade foi ler, e lá estava, bem claro e sem margem para dúvidas: o trabalhador saldará a sua dívida exactamente no dia trinta de Abril do ano da graça de dois mil trezentos e vinte e três.. 30-04-2323.





30 comentários:

  1. Tendo em conta que nessa altura já não devem existir humanos, o funcionário está safo!!!

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    1. A não ser, está claro, que se dê o fenómeno d'As Intermitências da Morte e deixemos todos de morrer... é sempre uma possibilidade!

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  2. Caramba, até o empréstimo que Portugal contraiu em 1902 após a bancarrota (já nesse tempo...) só levou 99 anos a ser saldado.
    Se"Cem anos de solidão" foi a novela do século XX, "Trezentos anos de juros" será a do século XXI: haja tinta suficiente para a escrever.

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    1. Isso são histórias de meninos! Trezentos anos de juros é o novo paradigma! :D

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  3. Deparo-me quase todos os dias com o valor absurdo dos juros cobrados em processos executivos. Uma dívida de um valor pequeno, por exemplo, 1500€ ao fim de 1 ano tem outro tanto em juros e despesas do agente de execução.

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    1. É uma loucura... execuções das operadoras de televisão por cabo, porque as pessoas desistem durante os primeiros dois anos de contrato e eles cobram esse período na totalidade, são aos montes. É uma vergonha. Depois há os Cofidis, telefones, as pessoas que foram fiadores... enfim.

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    2. Por essas e por outras é que Bordallo Pinheiro é um dos meus gurus financeiros. A do "queres fiado? Toma!" nunca nos deixa mal.

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    3. Só se fia a maiores de 90 quando acompanhados pelos avós :)

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  4. O agente de execução/credor acreditará na reencarnação? Na vida para além da morte?

    Por outro lado, se os senhores estão dispostos a esperar esse tempo todo, sempre se evita a apresentação à insolvência do devedor.

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    1. Seguramente! Deve ser budista, ou assim. :DDDDDDDDD

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  5. 300 anos de juros...Isto é o que eu chamo wishful thinking.

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    1. O funcionário acaba de pagar a dívida quando tiver para aí 356 anos de idade :D

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    2. Matusalém viveu bem mais que isso (por isso não lhe são conhecidas dívidas à data da morte, não quis partir antes e ter tudo pago.)

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    1. Não sei, Nê, é todo um enigma. Os solicitadores fizeram a média dos últimos descontos e dava-lhes uma prestação mensal de cinquenta e tal euros por mês (não sei como fizeram esta média porque a pessoa estava a pagar entre 150 e 300 € mensais para abater a dívida - outro enigma), daí que, para a pagar (a cinquenta e tal euros mês), demoraria 300 anos. Claro que 300 anos de juros são muitos juros, daí os cento e cinquenta e três mil euros em cima da dívida inicial! E pronto, foi essa a notificação que nos fizeram! :D

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    2. (porque este processo começou com uma dívida de 1500€, que depois passou para 15000€ e agora para 200000€, portanto a pessoa há mais de dois anos que anda a fazer descontos para abater o valor em dívida, mas parece que a dívida é uma espécie de mooving target, quando estás prestes a pagá-la, pumba, ela sobe).

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    3. (eu não tenho acesso aos elementos do processo, só recebo as notificações para penhora, não sei explicar mais que isto :)

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    4. Surreal!!!

      (Depois do mega sucesso do comentário do tipo :DDDDDDDDDDDDDDDDDDD, chega o comentário ??????????????????, colmatando uma evidente lacuna no blogo-mercado...)

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  7. Isso fez-me lembrar da dívida que o descendentes directo de Fernão de Magalhães tiveram que pagar há uns anos em Espanha. O arquivo precisava da presença dele para abrir o testamento mas tinha uma dívida acumulada que na altura rondava as 1000 pesetas (seriam uns 6 euros - que em Espanha há 35 anos não era bem o que são hoje, ainda que não sejam 150.000). A paciência claramente compensou!

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  8. ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
    ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
    ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
    ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah
    ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah

    Raios, o Sorriso causou dor no maxilar...

    É assim mesmo!
    Para evitar o risco de O ferino Empregador viajar ao futuro (por criogenia) para evitar saldar a dívida!

    Felizmente, em 2323 ou já somos uma sociedade utópica tecnológica pós escassez anarco-socialista apascentada por taumatúrgicas IAs (sim, plagio o saudoso Banks), ou um mundo de super baratas radioactivas, ou de gente das fogueiras e cavernas se os vermelhos do bloco-PC-sindicatos alcançarem a "vitória final".

    A bem da nação, Cara Palmier, o contacto d' O Solicitador. Quero gente assim a olhar pelos meus interesses de patrão opressor.

    A Palmier já considerou propor o pagamento em obras de arte?
    Quem sabe, dentro de três centos de anos...

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    1. Qual quê, em 2323 vamos estar todos a trabalhar nos mesmos sítios, a pagar as nossas penhoras! :DDDDDDDDDDDDDDDD

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  9. Deve-se viver um horror no meio do mecanismo estatal, devido ao pulsar de sentimentos tão fortes e contraditórios: é que as Finanças devem adorar pessoas tipo Matusalém, já na Segurança Social deve rezar-se à Sta Bárbara dos trovões, na esperança das pessoas serem mortalmente fulminadas no instante em que se cruzam as portas da empresa em direcção à reforma.

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    1. Ahahhahahahhahahhahahahhahahhahahahhahahahhahahhahahhahahhahhahhahahaaha
      Seguramente!

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  10. Não perca esse funcionário!!! Isso é que é um colaborador para a vida! Vai trabalhar as próximas gerações, que maravilha. Reforma aos 65 puff

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    1. Claro que não, tenho aqui trezentos anos de trabalho garantido! :DDDDDDDDDDDD

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