quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A Tolerância

O problema é que ser tolerante não é sinónimo de nos anularmos perante a intolerância dos outros. E nós (e aqui me incluo), os que fomos educados na tolerância, ensinados a respeitar a diferença e a diversidade cultural, quando nos confrontamos com situações de abuso de liberdades e direitos por parte de quem os despreza, de atropelos aos nossos valores e à base da nossa cultura, em vez de reagirmos antecipadamente, de colocarmos um limite, de dizer "alto lá", somos muitas vezes incapazes de, por vergonha, por medo de ferir susceptibilidades, de sermos julgados pelos nossos pares como politicamente incorrectos, somos, como ia dizendo, incapazes de delimitar os limites à tolerância. Porque a verdade é que nem tudo é tolerável.

E só acordamos para a realidade quando estas coisas acontecem. Estamos, portanto, em desvantagem.



24 comentários:

  1. Entendem agora porque é que a merda da extrema direita vai apanhar a França e tem cada vez mais apoiantes entre pessoas (ditas "normais")? Porque os políticos de merda do centro passam a vida a mamar à conta do politicamente correcto. Conheço Paris há muito tempo, tenho familiares próximos lá. Não sei se aguentaria viver lá por muito tempo. A "muçulmanização" é uma total falta de respeito aos valores laicos (e maioritariamente cristãos) da França. A pergunta pertinente e urgente, pois não podemos criticar e punir o todo pela parte, mas é necessário agir, é esta: Como se respeita quem, na nossa casa, não nos respeita?

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    1. A verdade é que acabo por perceber bem as dificuldades dos políticos... é que este é um terreno muito movediço e é muitíssimo difícil estabelecer estas fronteiras. Dizer que este ou aquele comportamento não são aceitáveis, perceber quando estamos a interferir na liberdade dos outros ou quando estamos a defender os nossos princípios... é o caldeirão perfeito para se tomarem decisões mais extremistas... de parte a parte...

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  2. Concordo Palmier. O estabelecimento de limites à tolerância pode ser confundido como censura e nenhum de nós quer ser acusado de tal.
    Mas, talvez aqui, o problema não seja a nossa tolerância mas mais a intolerância dos outros. Não sei se me expliquei bem...

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    1. Percebo-te e também tive dificuldade em explicar-me :)... o que quero dizer é que a nossa cultura tem como base o respeito pelo outro e, mesmo quando nos pisam o pé, temos dificuldade em dizer com veemência "Ei, está a entrar no meu espaço, está a magoar-me!", e acabamos por ser demasiado permissivos, mesmo em nosso detrimento. E é nessa permissividade que os mais extremistas apostam, para nos irem empurrando cada vez mais para o cantinho...

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  3. O melhor da democracia é a liberdade e tolerância. Sendo o melhor, são estes também o seu ponto fraco visto que, supostamente, a tolerância também se aplica aos intolerantes. Urge estabelecer limites, em querendo defender e preservar essa democracia.
    (a esquerda já veio dizer que a culpa é nossa, pelas políticas de austeridade e xenofobia, Ana Gomes, essa permanente iluminada)

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    1. O problema está na dificuldade em estabelecer esses limites de forma justa...

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    2. Começar por não deixar infringir (ou não fechar os olhos) a lei do pais "hospedeiro", talvez fosse boa ideia. Estou a falar de excisão feminina, por exemplo, ou de escolas públicas onde se ensina o Corão às crianças. Um nikab, por exemplo, impossibilita uma identificação. Porque é que eu, se for à Arábia Saudita tenho de usar nikab e eles, cá, o mantêm e não o trocam por um véu? Acho que tem de haver vontade de alguma aculturação, por parte deles. E, pelo contrário, sinto um enorme desprezo pela cultura ocidental, por parte de muitos muçulmanos europeus, muitos dos quais já têm a nacionalidade francesa ou inglesa (e acho que na Bélgica o problema é semelhante). Assim não dá. Isto a prazo vai ser um problema gravíssimo.

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  4. Percebo-te perfeitamente, Palmier. Em Portugal, talvez por não termos uma comunidade muçulmana muito grande talvez não notemos a "prisão" que a tolerância está a construir. Em Londres, por exemplo, onde estive três semanas no ano passado, uma no fim de Fevefeiro, outra em Julho e outra em Novembro, notei de viagem para viagem que era cada vez maior o número de mulheres de niqab na rua e homens com vestes tradicionais, e menos as que usavam simplesmente o véu. Em Julho, quando já se falava mais na "exportação" de combatentes para o Exército Islâmico era patente o desconforto de alguns ingleses perante a presença de alguns muçulmanos... Em Novembro, assisti a medidas de segurança no aeroporto eruas como nunca tinha visto antes. Se por um lado a razão nos diz que os extremistas são uma minoria, que não podemos tomar toda a comunidade islâmica como terroristas, os nossos olhos dizem-nos que eles estão a tomar terreno, e acabamos por viver com medo de marcar uma posição, o tal "ei, está a magoar-me", encolhemo-nos um pouco mais, eventualmente acabamos por nos levantar e permitimos que se sente no banco onde estavamos. Não porque a pessoa fosse uma ameaça real, mas porque ao cedermos o nosso lugar lhes demos um poder que nem sabiam que tinham, criámos neles a sensação de que tudo podem porque alguém lhes há-de ceder o lugar e, efectivamente, cedemos. É o nosso medo que alimenta o terrorismo e que faz de cidadãos pacatos potenciais terroristas.

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    1. Não acho que pacatos cidadãos se possam transformar em terroristas... acho é que os terroristas se aproveitam desta nossa brecha...

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    2. Eu acho. Vê o caso dos estudantes universitários que se tornaram jihadistas. Filhos de pais emigrantes, com vidas regradas, a estudarem, tudo parecia correr bem até ao momento em que percebem - influenciados por terroristas, é certo - que como extremistas terão o "poder" que um pacato cidadão não tem.

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    3. A brecha de que falas será, a meu ver, a excessiva tolerância e o medo que se instala em nós.

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    4. Bem, todos os terroristas foram, quanto mais não seja na infância, pacatos cidadãos. Acho é que, para alguém se juntar a estas cruzadas do Século XXI, que é do que se trata, tem de ter uma fragilidade qualquer na estrutura psicológica...

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    5. A brecha de que falas é aberta pela nossa tolerância (que, de alguma forma, também terá a ver com o medo, mais não seja o de ofender o outro com o nosso "ei, está a magooar-me").

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  5. Não podia estar mais de acordo consigo. Citando Umberto Eco, para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável.

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    1. Citação perfeita :)

      (e como se pode resumir tudo o que disse numa só frase :)

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    2. Mas levando a questão para sentidos mais filosóficos, será que aceitar a diferença é o mesmo que tolerância? Penso que são coisas diferentes.

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  6. Assino por baixo tudo o que disse!!

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