quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Outros tempos - A Senhora Dona Carlota e o Senhor General

Em 1969 o meu pai terminou o curso de medicina. Tinha ficado livre da tropa mas, mal fez o último exame, ele e todos os outros na mesma situação foram mandados apresentar-se em Mafra para iniciarem a recruta. A minha Maman, já casada, continuou o seu curso, que só viria a acabar em 1970. Este último ano de curso, conta a minha Maman, não poderia ter sido mais surrealista…
O meu pai, depois de um treino breve em Mafra foi então mandado para a guerra, e ficou combinado entre ambos que a minha Maman só se lhe juntaria quando terminasse o curso. A minha Maman só foi, portanto, para a guerra um ano depois, em 1970.



Nessa altura Maman estudava Fourrier e sonhava viver em falanstério.
Nessa altura usavam-se mini- saias e a minha Maman gostava delas bem mini.
Nessa altura Maman pintava sardas na cara para ficar um pouco mais sixtie.
Nessa altura, e para contrabalançar este ímpeto hippie, eram visita de casa da minha avó a Senhora Dona Carlota e o Senhor General.
O Senhor General, homem alto, calmo e ponderado, cansado de uma vida já vivida, dava a dianteira à Senhora Dona Carlota, que, não tendo nunca ido à guerra, estava ainda muito viva e pronta para ordenar tudo aquilo de que o Senhor General já havia desistido. Dir-se-ia que a Senhora Dona Carlota estava pronta para subir ao posto de General e a despromover o seu marido a ajudante de campo.



Ora, a Senhora Dona Carlota revia-se em Maman, encantava-se com as analogias que encontrava na história de vida de ambas, pensava mesmo ter sido como ela na sua juventude e, em tudo o que a Maman dizia respeito, encontrava semelhanças com aquilo que havia vivido.

Imagine-se, portanto, a exaltação provocada com a ida do meu pai para a guerra. No tempo em que George V era rei e imperador do Império Britânico, quando o seu primo Nicolau II era czar da Rússia, e  Guilherme  II Keiser na Alemanha, neste país acabado de sair da monarquia, temente pelas aparições de Fátima e presidido por Bernardino Machado foi a vez do Senhor, ainda não General, ser chamado a incorporar o Corpo Expedicionário Português para a guerra das trincheiras em França.
Ora, ninguém melhor do que a Senhora Dona Carlota poderia compreender o estado de alma de Maman, e, convencida do que afirmava, logo se propôs a envidar todos os esforços para minorar a angústia que sabia estar a afligi-la. E como se propunha a fazer tal coisa? Como é que a pobre Maman iria ser aliviada de tamanha angústia?
Pois bem, já que durante a semana sempre se ocupava com os estudos, o que seguramente a distraía, durante o fim-de-semana era preciso agir e não deixar que a desocupação permitisse que a tristeza se lhe infiltrasse na alma. Assim sendo, ficou determinado pela Senhora Dona Carlota que, no fim-de-semana, Maman iria almoçar a sua casa e, após o almoço, o casal a levaria para um passeio que a animasse.
Nesses fim-de-semana, sentindo-se como a velhinha que é ajudada por uma alma caridosa a atravessar a estrada que não quer atravessar, Maman abria um pouco o fecho da sua mini-saia para fazê-la descair e torná-la apenas saia, compunha-se, e lá ia para o almoço. Diz não se lembrar das conversas, mas lembra-se, sim, da angústia de não ter nada para dizer. O almoço era engolido como se de uma pílula se tratasse e a seguir vinha o passeio turístico aos museus e afins da capital. O que mais a impressionou, de tal maneira que já a ouvi contar várias vezes esta história, eram os momentos da saída para o passeio.
O Senhor General, morava numa avenida que desembocava numa praça, onde, nesse tempo, o trânsito era dirigido por polícias sinaleiros empoleirados em peanhas. Chegados ao fim da avenida, na esquina da rua, a Senhora Dona Carlota, numa voz tonitruante e com um braço no ar, gritava para o sinaleiro:

- O SENHOOOOOR GENERAAAAAL QUER ATRAVESSAAAAR!

E o polícia desdobrava-se imediatamente em mil gestos, mandava parar o trânsito vindo de todos os lados, e os três atravessavam, a Senhora Dona Carlota de cabeça levantada e queixo esticado, ciente da importância do seu posto, para, então, se dirigirem ir ao seu passeio.


33 comentários:

  1. As mulheres dos generais (ou até mesmo dos coronéis, vá), devem ser todas iguais, que esta história fez-me lembrar muito alguém. Certamente que há uma escola só para generalas, onde elas aprendem essas coisas... :)

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  2. Ou "Abram alas ao Noddy, no seu carro amarelo, abram alas ao Noddy, o dia vai ser tão belo!"


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    1. Ahahahhaahahahahahahhahahahhahahhahahahahhahahahhahah
      É mesmo isso!

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  3. Gosto tanto quando contas estas histórias!
    Luciana

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  4. Talvez não te tenhas nunca apercebido da importância dessa travessia.
    A praça era atravessada em diagonal, roçando a peanha do sinaleiro, de tal maneira que algumas vezes receei ver a autoridade rodoviária descer da peanha e de gatas empurra-la para que a Srª Generala pudesse pisar o centro geométrico do largo.

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  5. O que me ri com a Sra. Generala e a maravilha que é ler-te.

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  6. Há dias vi uma reportagem sobre os sinaleiros em Lisboa, parece que estão a voltar. Essa senhora "Generala" ainda anda por cá, que é como quem diz, ainda é viva? Seria o delírio...
    Adorei!

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    1. Já não :) mas aposto que o seu fantasminha vai andar de volta dos sinaleiros :)

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  7. Foi um prazer ler esta história. Escreve maravilhosamente!

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  8. O posto de Generala deve passar de geração em geração. Há sempre uma Generala desconhecida que espera por si :) :) :)
    Excelente história, principalmente por ser verdadeira e muito bem contada.
    Antigamente a miudagem chamava aos sinaleiros "cabeças de giz" :)

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  9. Adoro estas histórias antigas, menina Palmy. Uma delicia.

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  10. Estas narrativas são uma delícia! Consegui visualizar a cena!!!

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  11. De repente, veio-me à cabeça a Helga do Allô Allô, anunciando o Herr Flick!

    A Palmier deveria escrever um livro :).

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  12. Nunca desilude! É sempre um prazer vir aqui.

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  13. Palmier, adoro este teu registo (eu e toda a gente que comentou antes de mim, todos os que nao comentaram mas leram e todos os que vieram providos de cérebro). És sem dúvida uma mulher muito interessante e olha que eu nem sou lésbica mas ponderava deixar o meu marido ahahah (além de ti deixava pela Scarlet e pela Jolie). Também tenho dois filhos, ficávamos com a caixa cheia e como os meus são ainda bebés até podíamos ter um blog de lacinhos e golas ahahah :p

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    1. :DDDDDDDDDDDDDDDDDD

      Isso é que era! Que eu tenho andado aqui a ponderar alugar um bebé, para os posts dos laços, e assim ficava com o problema resolvido! :DDDDDDDDDDDDDDD

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  14. Adoro Palmy literária, adoro. Tão bem escrito, é um deleite de ler :)

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  15. Lembraste-te desta história porque estiveste a ver o National Geographic?
    ;)

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