sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A empregada ciumenta

A Cilinha é nossa empregada vai para cima de vinte e cinco anos, uma mulher simples, do campo, bata aos quadradinhos, estatura baixa, gordinha, cara redonda e voz arrastada. De há uns anos para cá e porque não está a ir para nova, no Verão, como a casa está muito cheia, temos arranjado uma segunda pessoa para a ajudar. Acontece que as coisas nunca correram lá muito bem, a ajudante nunca fazia nada como deve ser, queixava-se Cilinha, era uma preguiçosa, não passava o chão a pano, era uma finória com a mania da esfregona, não se mexia e o trabalho ali, todo por fazer, ai xodotôrãaaaa, dizia ela à minha mãe, ném quêra sabér, aquile é um problémã que p'r'áli estaá! Anos houve em que deixámos por conta da Cilinha a contratação da ajudante, mas as coisas não correram melhor, lembro-me de uma vez em que, confrontados com uma grande gritaria, acorremos à cozinha, onde demos com a Cilinha, possuída pelo Demo, a pegar na ajudante pelos colarinhos e a lançá-la pelos ares, contra a máquina de lavar roupa. Ainda me lembro da cara de surpresa da ajudante, olhos esbugalhados, óculos caídos no chão e a camisa, encarnada, com dois ou três botões a menos. E os anos foram passando e as ajudantes também. Cada ano uma nova. Cada ano as coisas corriam pior que no anterior. Acontece que há um par de anos a Cilinha foi acometida por uma doença grave, esteve de baixa cerca de um ano, e foi nessa altura que perdeu as vergonhas, vinha cá para casa mas como não estava capaz para trabalhar, deitava-se à sombra, nas espreguiçadeiras da piscina, mudou de estilo, começou a vestir-se de forma ousada, grandes decotes, saias curtas, cores garridas e a altas horas da noite, despida de pudores, começou a mandar mensagens ao meu pai. Mensagens picantes. Gostava dele por amor! Nos primeiros tempos pensámos que era alguém que lhe surripiava o telefone e mandava aquelas mensagens, não queríamos crer que aquilo fosse obra da Cilinha, e só o confirmámos realmente naquele dia em que fez uma terrível cena de ciúmes à minha mãe, acusando-a, gritando-lhe descontroladamente, de lhe querer roubar o xodotôreee. Percebemos então que era uma verdadeira paixão aquela que Cilinha nutria pelo menino Zé, o meu pai. Claro que foi uma situação deveras difícil. Despede-se a Cilinha ou não se despede a Cilinha? A Cilinha, depois de confessar o seu amor aos sete ventos e não se ver correspondida, entrava muda e saía calada, lançando olhares ameaçadores à minha mãe e, de castigo, não lhe fazia a cama. No entanto foi ficando, o que havia de ser da Cilinha se a despedíssemos? E a verdade é que dois anos decorridos sobre a cena de ciúmes, a Cilinha habituou-se finalmente a viver esta relação platónica triangular e sentia-se feliz.

Acontece que este Verão, e com o acordo da Cilinha, a nova ajudante ficou incumbida da limpeza do quarto do menino Zé. E a Cilinha disse que sim, que a ajudante podia ficar com o quarto do Xodôtoreee, mas o que não mata mói, e cada vez que a ajudante subia as escadas para fazer a limpeza, aquilo eram facadas no coração da Cilinha, facadas que faziam o sangue jorrar, como um rio revolto, do seu peito. De tal forma que a Cilinha caiu de cama enferma. Destes sentimentos só soubemos uma semana mais tarde, quando a Cilinha, ainda combalida, se apresentou para trabalhar. Trabalhar é como quem diz, que a Cilinha comunicou que não podia fazer a limpeza, nem passar a ferro, nem fazer as camas, tudo isto derivado dos nérves. Ora, perante tal situação, a minha mãe disse-lhe que era melhor ela ir ao médico, meter baixa para se recuperar, e depois, quando se sentisse melhor, voltava. Mas a Cilinha, perdendo novamente o controlo sobre as suas palavras gritou-lhe que aquilo da ajudante ir limpar o quarto do Xodotôreeee era uma afronta. Que aquilo ela não perdoava. Umas mãos estranhas a limparem o quarto do seu menino é que não! A mudar-lhe os lençóis, a aspirar o chão, a limpar-lhe o pó dos livros?! Foi demais, uma desconsideração como nunca se havia visto. E foi isso mesmo a Cilinha nos comunicou: Que se era para isto, que se ia embora. E assim fez. Há uma semana que não sabemos nada dela.



22 comentários:

  1. Sinto uma certa pena da Cilinha, mas, sendo uma mulher pouco paciente, já a teria mandado embora há um tempinho.

    A Palmier deveria escrever um livro com estas histórias :).

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    1. Pois... mas o que raio ela vai fazer à sua vida...? É que, quando está "normal", não faz mal a uma mosca...

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    2. Também a teria mandado embora na primeira mensagem. e se gritasse com a minha mãe....ahhhhhh :)

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  2. A mãe da Palmier deve ter coração d'oiro para ter debaixo do tecto uma apaixonada por seu marido.
    Havia de ser eu: "ó sáxavor! Masoquéque vexa tem na cabeça?"
    E havia de ser lindo ver a gritaria e os puxões de cabelo...

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  3. E vocês à espera para ver se realmente ela se foi embora, ou se aparece um dia destes para trabalhar ou com um atestado médico. Porque a Cilinha faz parte da família.

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  4. Realmente isto da criadagem que não sabe o seu lugar...

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    1. Realmente isto dos anónimos que gostam de distorcer textos...

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    2. Em todos os trabalhos temos de saber estar no nosso sitio, até a senhora anónima lá no seu!

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  5. Tão bom esse texto! Adorei! Por favor nos informe dos desenvolvimemtos da história! Estou ansiosa por saber onde anda a Cilinha!

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  6. Acho que os nerves da Cilinha deram de si, Maman que tome atenção às costas :D

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    1. Achas que para além da Cilinha e da ajudante devíamos pensar num guarda-costas? :DDDDDDDDDDDDD

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  7. Ooooohhh, a Cilinha é uma alma pura. Gostar por amor é daquelas expressões que só um coração puro usa. Gosto da Cilinha e espero que esteja bem.
    E gosto muito das tuas histórias.

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  8. E D. Sebastião atura? (Eu devo ter mesmo muito mau-feitio.)

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  9. O amor é F*****! já dizia um afamado escritor da nossa praça.

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  10. Sois pessoas muito pacíficas, é o que concluo! :)

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  11. :O Isto é/foi a sério?! Então ela declara-se ao patrão, afronta a esposa dele e continua a trabalhar lá em casa?! Estou confusa!

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  12. A tua vida dava um blogue e olha, deu mesmo. E dos bons! :D

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