quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Outros tempos - A tia Lili e as cabeleiras postiças

A tia Lili, outrora a mais bela, quando passou a meia-idade, viu-se a braços com uma terrível calamidade: o seu cabelo loiro e brilhante ficou de repente esparso e pouco denso, deixando assim ver o couro cabeludo. Foi então que a tia Lili se decidiu a fazer o investimento da sua vida. Da mesma forma que alguns investem em obras de arte ou na bolsa de valores, a tia Lili começou a investir em cabeleiras postiças. E o investimento em cabeleiras foi de tal magnitude que, dizia-se, teve de esvaziar uma das divisões da sua casa para as acomodar. Durante muito tempo a divisão das cabeleiras foi um mito, uma espécie de Atlântida, um assunto envolto em grande secretismo, dizia-se que existia mas nunca ninguém a tinha visto. Um dia, deparámo-nos com aquela janela depois da cozinha, aquela que dava para a varanda e que estava sempre fechada, aberta de par em par. E lá dentro, brilhando com a luz do sol, encontravam-se, resplandecentes, as cabeleiras da tia Lili. As cabeleiras, todas iguais mas com penteados diferentes, estavam acomodadas em bustos por forma a facilitar a escolha. Assim, sempre que saía para o seu almoço, que a tia Lili não se deixava manietar por convenções sociais e ia sempre almoçar ao restaurant, as cabeleiras estavam disponíveis para uma escolha ponderada. E quando o relógio batia as doze badaladas, a tia Lili, envergando o seu fato da Elvira, a modista que se aproveitou da entrada em circulação do euro para a aldrabar em tudo quanto era preços, levando-lhe por um conjunto amarelo com grandes papagaios coloridos, ou um outro de ganga, ao estilo moderno, o preço de um Yves Saint Laurent, entrava no quarto das cabeleiras para escolher peruca em forma de cogumelo doirado que mais se adequava ao visual. Era assim que a tia Lili, depois de aturada escolha, pegava na peruca e a enfiava na cabeça. Claro que a beleza da situação não estava na peruca em si, mas na forma como era usada. É que a tia Lili, apesar dos seus óculos potentíssimos, não via quase nada, pelo que, nuns dias enfiava a cabeleira até às sobrancelhas, ao passo que noutros, as usava de lado, tipo boina francesa, o que provocava inúmeros olhares dos transeuntes, olhares que a tia Lili, habituada que esteve toda a vida a ser admirada, tomava como um elogio à sua beleza.

Claro que a situação das perucas era um grande elefante, não na sala, mas à frente dos nossos olhos, ali mesmo na cabeça da tia Lili. Todos sabiam que lá estava, mas ninguém se lhes podia referir. O pior foi naquele dia em que fui buscar a tia Lili a casa, e ela, que já estava muito velhota e com grandes dificuldades de locomoção, para entrar para o carro, apontava o rabiosque ao assento e deixava-se cair com o peso do corpo. Pois que nesse dia, o impacto foi tal ordem que a peruca lhe saltou da cabeça e foi parar ao banco de trás. E eu, estiquei o braço, peguei na peruca e disse a medo "tia, deixou cair isto...". E a tia Lili olhou da peruca para mim e de mim para a peruca, virou-se para a frente e, com os olhos faiscantes de ira, disse:

- Isso não é meu! Deve ser teu!

E lá seguimos as duas, quais Thelma & Louise, de cabelo ao vento.



21 comentários:

  1. Diria que isto é uma história cabeluda!

    E mais, a tia Lili, se soubesse que contaste isto num blog, era bem capaz de se descabelar...

    :)

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  2. Adoro estes retratos. Reais ou fictícios?
    Jo

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  3. Pauvre Titi! Como sempre, uma história deliciosa. No final, não consegui deixar de imaginar algo à la Thelma e Louise. :D

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    1. Aahahahhahahahahahahhahhahahahahahahahahahgahahahaah
      Vou acrescentar! : DDDDDDDDDD

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  4. ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
    Agora já se sabe donde vem o mau cabelo! Confesse lá, é uma peruca, não é??!

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    1. São muitas! Herdei o espólio da tia Lili! : DDDDDDD

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  5. Tia Lili estava coberta de razão. Peruca em forma de cogumelo só há uma, a tua e mais nenhuma.

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    1. Eu, guardiã da peruca-cogumelo me confesso! : DDDDDDD

      Hoje à tarde estou bem capaz de ir fazer um penteado só para afastar essa malfadada calúnia da minha excelsa pessoa! : DDDDDDDDDDD

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  6. E depois, onde ficou a peruca? Com quem? A tia Lili preferiu andar sem peruca a dar parte de fraca?

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  7. A calvice é uma das mais ingratas formas de envelhecer. Que viessem as rugas, a seu tempo. As manchas na pele e os cabelos brancos. Mas não a falta deles para embraquecer.

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