sábado, 9 de maio de 2015

A casa amarela

A casa amarela, ficava no prédio amarelo e era a minha casa antes desta, onde moro. Era bonita a casa amarela. Tão bonita que a comprámos sem cuidar de saber se, para além de bonita, seria confortável. E não era. A casa amarela tinha as paredes todas amarelas, a sala numa ponta, uma sala grande e amarela, com as mais belas janelas de madeira, tão belas que seria um crime substituí-las por janelas de PVC, um longo corredor amarelo com quartos e casas-de-banho dos dois lados, mais casas de banho que quartos, que a casa amarela tinha imensas casas-de-banho, uma loucura de casas-de-banho, casas-de-banho de todas as cores e feitios, sendo que uma delas era, obviamente, amarela, e a sala de jantar e a cozinha, também elas amarelas, na ponta oposta. A casa amarela era muito bonita, mas não tinha qualquer nexo. Aliás, no dia em que nos mudámos, fiquei com a torneira de segurança da casa-de-banho cor-de-rosa na mão. Propus-me a estancar os litros e litros de água que saíam da parede tentando freneticamente voltar a encaixar a torneira no sítio de onde tinha saído. Não consegui. Só quando o belíssimo soalho de madeira antigo estava todo alagado e a água fazia ondinhas quando nos deslocávamos pelas várias divisões, é que me lembrei de ir fechar a água no contador. Foi o primeiro aviso. Depois veio o Inverno e a casa amarela revelou-se gelada, tão gelada que, por mais que ligássemos aquecedores atrás de aquecedores, tinha de andar permanentemente de cachecol. Foi numa dessas noites em que tinha o cachecol enrolado ao pescoço que, ouvindo a chuva, me cheguei a uma das belíssimas janelas de madeira e fiquei a ver os pingos grossos a cair lá fora. Lembro-me perfeitamente de pensar de mim para mim enquanto via o meu reflexo no vidro da mais bela janela de Lisboa, que era bom estar em casa enquanto chovia lá fora, e que bem que se ouvia a chuva, tão bem que parecia que estava a correr dentro das paredes. E estava. Um segundo depois a água começou a jorrar através dos tectos trabalhados, água por todo o lado, baldes, esfregonas e cobertores, tudo pelo chão, e a água que não parava de cair por ali abaixo. Parece que foi um algeroz mal calculado. Mas era bonita, a casa amarela. Por fim e quando já estávamos ligeiramente desconfiados da casa amarela, lembro-me de uma noite em que uns potenciais clientes do meu consorte foram convidados para jantar, um jantar que correu bastante bem até ao momento em que, deixando a sala de jantar, aquela tal, resguardada lá ao fundo do corredor amarelo, avançámos para a sala. Uma noite em que o vento sudeste soprava louco, lá fora. Lá fora e lá dentro, que as belíssimas janelas de madeira uivavam de tal forma que não nos conseguíamos ouvir uns aos outros. No entanto agimos todos como se aquele tornado que nos entrava pela sala fosse a coisa mais natural deste mundo, um sistema de ventilação forçado do mais sofisticado que já se vira. Os clientes não ficaram. E nós também não. Mas era bonita, a casa amarela.



11 comentários:

  1. Em Barcelos a Casa Amarela é um lugar para pessoas com doenças mentais (várias patologias)...

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    1. não sabia. Esta era apenas uma casa amarela com patologias várias :)

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    2. :)
      https://www.youtube.com/watch?v=ZzqzQvheTW4

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  2. Em Soure também há uma casa amarela e não é um manicómio. Ou talvez seja, para alguns, a loucura! Foi a minha amiga de lá que me contou, nunca lá fui, talvez nem me deixassem entrar, na casa amarela.

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  3. Por várias vicissitudes da vida já vivi em várias casas. Já mudei de casa, de Bairro, de Cidade e de país.
    E houve um tempo em que "escolhia" as casas mediante o seu estilo, o seu "ar".. a sua beleza aos meus olhos. Apreciava o típico, o rústico, o antigo... e ósdepois fiquei cansado. Cansado do desconforto. Dei comigo a dormir de gorro enfiado.
    Não dá. É tudo muito giro mas nada como coisas que funcionem, práticas e confortaveis.

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    1. É isso mesmo. Até pode (e deve) ser giro, mas antes de tudo tem de ser confortável:)

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  4. Quedo-me a pensar que o João César Monteiro se calhar não se referia ao edifício na terra dos galos e ficou sim com algum grande galo de alguma janelada depois de visita à sua humilde casinha, pancada essa que se veio a confirmar em 2000.
    Posto isto, apreciei muito a sua excelente narrativa sobre o desastre natural que adquiriu, que como todos os desastres naturais era naturalmente bela.
    Pode plagiar à vontade o título "Recordações da Casa Amarela" , está no seu pleno direito e mais ainda :)

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