sexta-feira, 11 de março de 2016

Outros Tempos - A Jacinta Maria

O mistério teve início quando começaram a desaparecer as moedas que o meu avô, quando trocava de roupa, tirava do fundo dos bolsos e punha naquele pratinho dos anéis que estava em cima da cómoda do quarto, aquele pratinho vigiado pelos olhos atentos do menino Jesus de porcelana que estava resguardado dentro de uma redoma de vidro e ataviado com umas ricas vestes de renda cor de marfim, um colar de minúsculas pérolas ao pescoço, uma mãozinha levantada e uma perninha rechonchuda ligeiramente flectida, era um bom Menino Jesus, e eu sempre sonhei brincar com ele, vestir-lhe a roupa das minhas Barbies, dar-lhe banho, sentá-lo na casa de bonecas, mas, apesar dos meus inúmeros pedidos, oh avó vá lá, nunca me deixaram. Mas voltando à grave questão das moedas, depois de uma longa e profunda investigação levada a cabo pela minha avó, descobriu-se então que a Jacinta Maria, todos os dias, quando ia arrumar o quarto, tirava uma moeda do pratinho e, perante o olhar escandalizado do menino Jesus - quase o consigo imaginar com a boquinha muito cor-de-rosa, a fazer um “Ó” - deitava-a furtivamente para dentro do balde de água, plop, recuperando-a depois, quando o ia despejar. Claro que, descoberto o intrincado esquema, a minha avó teve uma conversa muito séria com a Jacinta Maria, dando-lhe a hipótese de se endireitar. Acontece que uns dias depois, numa manhã em que acordei muito cedo, deviam ser aí umas sete horas, mas como ainda não tinha relógio não posso ter a certeza, fui à cozinha e não estava lá ninguém para me dar o pequeno-almoço, a porta que dava para a varanda estava aberta, ainda com as portadas postas, aquelas portadas de madeira para proteger as vidraças, as que se guardavam durante o dia e se colocavam à noite apoiadas numa saliência da porta e que depois eram presas com uns parafusos enormes e polidos que atravessavam aquilo tudo de um lado ao outro e, por fim, eram presos por dentro, com uns outros ferros que se entrecruzavam na perpendicular, clac, clac, para a casa ficar bem fechada. Mas nessa manhã a Jacinta Maria não estava na cozinha. Nem em lado nenhum. Lembro-me de ir ao quarto da minha avó, ainda era cedo e estava escuro, tive de atravessar aquele corredor enorme cheio de sombras assustadoras e tive um bocadinho de medo, por isso fui a correr, para enganar os fantasmas madrugadores, e fui dizer-lhe, sob o olhar do Menino Jesus que tudo perscrutava ali na penumbra, que a Jacinta Maria não estava lá, mas a minha avó só se levantava às dez, nunca antes, e disse-me que ela havia de ter ido comprar pão, que devia estar a chegar, e eu então atravessei o corredor todo de volta, ainda com mais medo, e fui para a varanda sentar-me de joelhos naquele banco corrido de azulejos azuis e brancos, o que ficava por baixo da buganvília, espreitar a rua, a ver se via a Jacinta Maria a entrar lá ao fundo, pelo portão. Mas esperei muito tempo e a Jacinta Maria continuava sem aparecer, e então fui andando por ali, não tinha nada para fazer e tinha fome, era um bocado indecente aquilo da Jacinta Maria estar a demorar tanto tempo, pelo menos a mim, que não tinha relógio, parecia-me mesmo muito tempo, o tempo suficiente para a minha avó se levantar e arranjar, para aparecer lá fora à minha procura, e verificar por si mesma que a Jacinta Maria não tinha ido ao pão, tinha, isso sim, desaparecido durante a noite. Foi uma grande azáfama, um rebuliço, lembro-me de ver cá de baixo, da minha pouca altura, muitas pernas para trás e para a frente, conversas cruzadas, que as moedas, está-se mesmo a ver, eram para a fuga, que parecia impossível, que grande horror!, que aquela era uma casa séria, que todas as raparigas saíam dali casadas! Umas senhoras! Que não se admitia uma coisa daquelas, que não havia memória de coisa igual!, e só lá para a uma da tarde, quando se dissiparam quaisquer possibilidades da Jacinta Maria regressar, é que, perdidas as forças e a esperança, a gravidade da coisa se adensou, afinal era uma humilhação ver assim desaparecer uma criada, fugida como um bandido na calada da noite, e o resto já só percebi pelos murmúrios mortificados, era preciso mandar carta aos pais a dar conta do sucedido, pobres pais, que ficariam por certo para morrer, eternamente cobertos por um manto de vergonha...

Depois de muitos dias a Jacinta Maria deu finalmente notícias, enviou uma carta onde pedia muitas desculpas, mas tinha perdido a cabeça, tinha arranjado um namoro, uma paixão avassaladora, de fazer corar a minha avó à medida que avançava rápida e disfarçadamente sobre as linhas cheias de erros, e não tinha tido outra hipótese senão evadir-se, que não queria que aquela grande vergonha se abatesse sobre uma casa tão boa e honrada. Não faço ideia do que se passou com a paixão da Jacinta Maria, uma vez que nunca mais se falou dela em casa da minha avó e, mesmo hoje, só o faço a medo e apenas porque guardei na memória aquele dia terrível, afinal aquele foi o dia em que ninguém me deu o pequeno-almoço. E eu tinha muita fome.



26 comentários:

  1. ...e o pequeno almoço, como é sabido, é uma refeição importantíssima...

    :)

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  2. :)
    Gosto tanto da tua escrita.

    (Estive o tempo todo a torcer pela Maria Jacinta, para que tivesse sido tudo um mal-entendido, que tivesse devolvido as moedas - a que, apesar da forma ilícita como foram obtidas, tinha sido dado um destino honroso - mas, como diz o outro senhor, as coisas são como são).

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    1. Pois que não, foi antes ser feliz com a sua paixão :)

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  3. Chamasse-se ela Jacinta Marta ou Lúcia de Fátima (como umas pessoas que conheço ) e talvez o desfecho fosse outro...talvez tivesse só ido comprar o pão e continuasse a juntar moedas no fundo do balde!
    :-D

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  4. Também eu, quando troco de roupa, ponho as moedas que trago no bolso não ao pé do menino Jesus mas numa caixa de madeira. Ora alguém, para quem a minha Jacinta Maria também fazia umas horas, me alertou que talvez um dia ela tivesse uma paixão avassaladora e desaparecesse de repente. Contei as moedinhas na caixa de madeira e mandei-a ir apaixonar-se para outro lado porque na minha casa não queria poucas-vergonhas daquelas. Ficou desmistificado o mistério do desaparecimento de tupperwares, revistas de bebé, tintas de óleo, pensos diários e outras coisas de extremo valor. Espero que os 60 cêntimos que surrupiou da caixa lhe tenham dado para o bilhete de autocarro.
    Mas de uma coisa me congratulo, já sabia fazer o pequeno-almoço por isso fome nunca passei!

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    1. Tiveste muita sorte, foi o que foi. Já eu, ia ficando desnutrida! :D

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  5. E hoje? Também não te deram pequeno-almoço? Vê lá bem, não te fiques, que isso não são hábitos de gente de bem.

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    1. Olha... fui logo tratar de aprender a fazê-lo...! Agora deixarem a criança assim faminta... não se faz! :D

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  6. Mistério, intriga e traição!
    Delicioso

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  7. O mínimo que podia ter feito era deixar a mesa do pequeno-almoço preparada! Mas não, ia com a cabeça no ar...!

    Saudades destes textos! :)

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    1. Sim, onde é que isto já se viu! Fugir sem tratar primeiro das obrigações! :D

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  8. A Jacinta perdeu-se para a paixão. Love is evil! E aposto que ainda por cima ficaste sem pequeno almoço.

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  9. Com tanto desemprego (pelo menos é o que consta) tenho perguntado a mim própria porquê mas Porquê não se conseguem arranjar Jacintas? Enfim hoje já sabemos fazer pequeno almoço e já dei por mim em fúria com a minha Jacinta dia sim dia não, que não sabe tratar da roupa, a ensinar como se faz uma barrela para a roupa de casa à moda da Jacinta da minha avó, que olhava sempre com desconfiança para a maquina e para o Skip (ai que me vão processar) e não é que a Jacinta dia sim dia não, protestou disse que aquilo era um trabalhão e que era melhor comprar novo ou aprender a gostar de branco amarelado! (felizmente era uma criança observadora que adorava ver todo o processo ) Conclusão se quero a roupa branca tenho que a tratar eu (é muito difícil escolher o programa certo da maquina! tantas opções) e se quero barrelas eu que as faça!( Já fiz e não morri com o "trabalhão")

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    1. É preciso muitaaaaaaaa sorte para desencantar uma Jacinta buéeee fixe :D

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    2. Porque pagar salários sub-humanos já não é um direito de quem é "rico" como antigamente. Se quiser empregada a tempo inteiro, lhe der lugar onde dormir e um ordenado mínimo declarado fazendo os descontos e dando os dias de férias a que tem direito não duvido que encontre muitas pessoas dispostas a trabalhar. Agora se quiser uma pessoa quase escrava a viver quase sem salário e fazer o trabalho que a maria do rosário não quer fazer... pois provavelmente irá ter "pouca sorte" a arranjar pessoas para trabalhar. E ainda bem.

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    3. Por acaso a Maria do Rosário disse quanto é que pagava à empregada ou que lhe pagava... como é que é...? um salário sub-humano?
      Há más empregadas domésticas, da mesma forma que há mais advogados ou gestores. Independentemente daquilo que se lhes paga.

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    4. Palmier eu não sei quanto é que paga nem se tem ou deixa de ter empregada doméstica. Nem me interessa.
      Simplesmente sei quanto algumas pessoas foram exploradas por patrões antigamente. Nem sei se na sua familia era igual ou não, até porque não coloco todos no mesmo saco mas muitas eram e negar isso é tapar o sol com a peneira.

      Na minha terra, toda a gente sabia que uma menina que ia para casa de "ricos" (a.k.a. trabalhar para quem tinha casas grandes e comida na mesa mas muitas vezes não pagava sequer aos homens da "lavoura" portanto uma "rapariguinha" a trabalhar na casa do senhorio não valia 5 tostões furados), mas como dizia, toda a gente sabia que não tinha direito a ordenado, tinha direito a comer e a dormir (e a manter-se calada caso o "senhor" da casa tentasse entrar na cama dela durante a noite). Estamos a falar há uns 50 anos atrás. E já tinha muita sorte , segundo as outras pessoas, por ter acesso a tanto luxo.
      Eu não tenho nada contra o facto de as pessoas actualmente não se prestarem a isso, tenho até muito orgulho que as pessoas que prestam um bom serviço sejam reconhecidas e pagas pelo que fazem. Seja a limpar alguma coisa, seja como empresárias, seja no que for.

      Ps: Uma tia minha foi praticamente escrava duma familia assim. E foi vista de lado por toda a gente na noite em que fugiu da casa dos "senhores doutores"- o problema é que o senhor doutor tentou forçar uma rapariga de 16 anos a ter sexo não consentido com ele. Homem casado, senhor doutor, respeitado, com mulher e filhos... alguém ia acreditar na pobre criada e criada pobre de familias humildes? Ainda por cima antes do 25 de Abril? Menina ingrata foi o que lhe chamaram. Ingrata porque no final não aceitou ir além das bofetadas, dos maus-tratos, etc., ingrata porque não aceitou ser escrava sexual também.
      E quantos relatos assim eu ouvi ao longo da minha vida?!Tantos. Acho que dava um estudo sociológico interessante se desmistificássemos a cultura, ideologia e endeusamento dos "senhores importantes" do nosso passado. Provavelmente deixa deixaríamos de ter tantos com tanto saudosismo desse tempo...ou talvez não. Afina ainda há quem endeuse o Salazar e ache que antigamente é que era bom em que todos "sabiam o seu lugar" - tradução: quando se podia maltratar e espezinhar todos os pobres porque estes além de ignorantes e analfabetos não tinham direitos.

      Relatos como os da maria do rosario ouço de pessoas que acham que as pessoas ainda se deveriam sujeitar às condições antigas, chamam-lhes de tudo menos santas às raparigas que querem contratar mas que não se submetem a ordenados baixíssimos (e ilegais) e condições miseráveis. Sim, Palmier, em Portugal ainda há quem gostasse de ter escravos a trabalhar para si, ou quase-escravos, que é basicamente o mesmo. E para mim o discurso da maria do rosario é igual ao dessas pessoas.
      Posso estar a interpretar mal as palavras dela? posso mas é o que me transmite.

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    5. Anónima... o que é que essa história tem a ver com o comentário da Maria do Rosário...? É que o facto de ter acontecido com uma sua tia há cinquenta anos (coisa que lamento), não se encaixa lá muito bem nem a) na situação actual e b) no facto da empregada da Maria do Rosário não saber lavar roupa branca . A Maria do Rosário limitou-se a dizer que a empregada dela não era boa e que, aparentemente, não quer aprender a ser melhor. Disse que a empregada da avó era óptima e que ela, Maria do Rosário, aprendeu com ela. E isto, é a vida. Seja para as empregadas domésticas seja para outra profissão qualquer. Há pessoas que não têm brio no seu trabalho e outras que têm, independentemente daquilo que fazem. Ponto. Trazer para aqui o Salazar e histórias de violações... enfim... é um passo de gigante.

      (em casa da minha avó as empregadas eram e sempre foram pagas)

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    6. Para quem quiser saber mais... http://www.dn.pt/artes/livros/interior/investigadora-escreve-obra-sobre-o-tempo-das-criadas-2746946.html?id=2746946
      Outra anónima

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  10. Não quero ser má língua, mas desconfio que o "pãozinho", esse carregava a Jacinta no seu "forninho".

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