sexta-feira, 25 de julho de 2014

Basta parecer

Agora a sério... este caso do Ricardo Salgado tem tanto, mas tanto, do nosso país, que acho que é por isso que se torna tão fascinante. Os ingredientes estão todos lá: a incompetência, a impunidade, a fraude, o embuste, as aldrabices, a irresponsabilidade, os compadrios, e o chegar lá, não se sabe bem onde, mas sempre mais, mais, sempre mais acima... e, sobretudo  o deslumbramento dos que rodeiam o poder e que alimentam, com a sua presença, os poderosos.

E eu, que calhou ter tido oportunidade de ver a entrada do Ricardo Salgado em mais do que um sítio, caramba, posso dizer que aquelas entradas eram majestosas, começavam com um leve bichanar em surdina, "o Ricardo... vem aí o Ricardo... é o Ricardo..." e, a pouco e pouco, o silêncio instalava-se e o banqueiro passava, com o seu olhar de felino e um leve sorriso vitorioso no canto retorcido da boca, as pessoas curvavam-se em jeito de vénia ao mesmo tempo que, infringindo as regras que não permitem olhar o sol directamente, tentavam ver aquela lenda viva, o exemplo a seguir, o arquitecto da grande obra, o gestor designado por Deus, o homem que arrastava um império à sua passagem, o génio financeiro, ali, de carne e osso, à sua frente. Tenho a certeza que se, na altura, tivesse perguntado a quem assistia, me garantiriam que sim, que tinham visto pequenas borboletas feitas de notas de quinhentos euros a esvoaçar à volta de Ricardo Salgado, revelando ao mundo a sua aura de banqueiro. E assim foi, até há meia dúzia de dias.

A verdade é que esta pose, que se reforçou ao longo do tempo numa progressão geométrica, resultou de uma estratégia perfeita que só podia ter acontecido no tempo em que aconteceu, num caldeirão de dinheiro fácil e de corrida ao crédito. É que, ao apoiar as empresas através do BES, Ricardo Salgado, reforçava o poder do banqueiro e consequentemente o do homem. Todos lhe deviam, logo o seu poder crescia, numa espécie de pescadinha de rabo na boca entre credor e devedor. Ora, eu não percebo, aliás, nunca percebi, este caldeirão, a obrigatoriedade das empresas viverem penduradas nos bancos, de precisarem de crédito para tudo, de não se fazerem reservas e poupanças, esses anacronismos financeiros. Vi muitas empresas a investir o que não podiam, muitos gestores a gabar-se da engenharia financeira que permitia comprar tudo com capital zero, e eu, que não sou da gestão nem da economia, ficava perplexa, a sentir-me burra até, afinal era tão fácil dar passos maiores do que a perna que, seguramente, quem estava errada era eu; outros disseram-me que era uma estupidez fazer reservas, que não havia de tardar que o fisco inventasse forma de as taxar, que o melhor era distribuir tudo quanto fosse lucro, ou seja, descapitalizar. E eu, com a minha gestão de mercearia, achava aquilo tudo estranho... afinal, na minha óptica limitada, gerir uma empresa era mais ou menos a mesma coisa que gerir o nosso dinheiro: guardar uma parte, investir outra, distribuir o que restasse. Ser a formiga, não a cigarra. Mas as cigarras eram tantas, cantavam tão alto e tão bem, tinham uma atitude tão sabedora e uma postura tão segura que me lembro de me ter questionado muitas vezes. Mas a verdade é que, uns anos volvidos, os gestores das engenharias espectaculares estão falidos, as empresas fecharam e os funcionários foram para o desemprego. Mas lá está, a pessoa desculpa, eram pequenas empresas, pequenos grupos, não tinham gestores de topo e não estavam preparados como os grandes impérios que, bem geridos, resistem às tempestades... só que... afinal não!... afinal, a situação do Grupo Espírito Santo é muito pior (dívidas de 1,3 mil milhões de euros? Que número é este? É que nem consigo percebê-lo...) do que a dessas empresas, numa escala tão hercúlea que são capazes de arrastar o país atrás e com efeitos tão devastadores que ainda nem sequer os conseguimos vislumbrar. É que, vai-se a ver e não eram só os gestores de meio da tabela que eram cigarras, o próprio Ricardo Salgado, confirma-se agora, era, de facto, um ser mitológico, era, afinal, a maior de todas as cigarras, é um Cigarroutauro Rex e o seu grupo um Cigarroraptor, afinal o homem e o império não passavam de um balão que, assim que se lhe chegou um alfinete, desataram a dar reviravoltas pelo ar, até aterrarem num canto, exauridos, tal e qual os outros todos. Um embuste.

Mas a verdade é que, neste país, a imagem que construímos de nós e que projectamos aos outros é mais de meio caminho para chegar ao objectivo. Se a ensaiarmos bem ao espelho todas as manhãs, se acreditarmos muito naquilo que dizemos mesmo que não tenha um fundo de verdade, a mensagem cola onde quisermos, cola como aqueles autocolantes dos identificadores da Via Verde, se vestirmos o banqueiro e o representarmos como deve ser, os outros vêem em nós o banqueiro e compram, se formos convincentes, vende! Vende porque mais do que a substância a imagem é tudo. Ao contrário daquela frase que diz que podemos enganar uma pessoa muito tempo, mas não podemos enganar todos o tempo todo, em Portugal podemos enganar muita gente durante muito tempo, porque a verdade é que as pessoas estão tão atentas aos brilhos dos anéis que não conseguem ver em que bolsos entram as mãos. É que, lá está, este não passa de um país de deslumbrados.

Enfim, falta-nos o Eça, para passar isto à escrita...





(peço desculpa pela insistência. Estou quase a ir de férias, espero que, entretanto, isto me passe :)


59 comentários:

  1. Fabuloso! Esta foi a geração BES que destruiu o império. Acho difícil que se voltem a erguer face ao panorama económico mundial. Sim, somos um país de deslumbrados e pouco preocupados com a substância, também acho, e estamos a pagar bem caro essas vénias que prestámos e continuamos a prestar aos que julgamos donos do poder. Fabuloso o seu texto.

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    1. Nunca prestei vénia alguma. Jamais tive conta no BES. Quando fala em "Nós", fala nas tais empresas fascinadas e a trabalhar á base do crédito sem liquidez, não? ( expressão meia assim pró brutinho, mas eu sou ignorante em Economia ). É o inevitável em grande parte das economias: para haver emprego e dinheiro a circular, "arma-se" qualquer coisa. Agora fechou-se o ciclo, mas acho que o homem, a nível pessoal, não vai padecer.

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  2. Eu espero que tenhas boas férias mas que isto não te passe.

    conheço um senhor que foi chefe de uma agência do BES e (atenção que segundo ele, não há razão nenhuma para uma corrida aos depósitos, o banco estará sólido) há anos que o oiço contar as histórias de gente que ele conhecia desde anos noventa, esses passarões que iam para directores em angola, para dar um exemplo, e que prometiam mundos e fundos e que eram conhecidos na praça por esquemas e falcatruas várias e de como Salgado e companhia não só não se importavam, ahaha, que riso, gostavam muito, como diziam que quem denunciava certo tipo de situações estava a meter-se onde não era chamado. Mas de facto, até agora sempre o tinha ouvido dizer que o Salgado parecia, ele próprio, como pessoa e profissional, "limpo", muito embora haverá muito retirar de quem parece limpo mas não se importa e incentiva a sujidade praticada por outros da sua confiança.

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    1. Máfia... ao melhor estilo da Sicilia...

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    2. sim, e o pior é que eu ao mesmo tempo também consigo ver nascer já as teorias da conspiração: que o Salgado não teve outra escolha que não ser o mártir que se sacrifica em nome do alto valor da reforma do sistema bancário preconizada pela Troika, etc, etc.

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    3. Depois do rasto de falências que deixa atrás de si, parece-me difícil... mas, enfim... neste país, tudo é possível...

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    4. Neste e noutros, é evidente.
      Quando um dia se puder fazer arqueologia sub-urbana ( stricto sensu) sob Geneve, Zurique......

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  3. Palmier, excelente post. O segundo parágrafo é de antologia, até porque revi os demasiados Ricardos Salgados com quem me vou cruzando (e o próprio, quem sabe se já não estivemos nos mesmos eventos...), impantes, gerando uma reverência bacoca, aceites como infalíveis e como personagens a quem ninguém quer desagradar, tais são os supostos poderes e capacidades de influenciar destinos.

    E sim, o melhor método para gerir o que quer que seja é fazer de conta que o dinheiro é nosso.

    (embora não seja suficiente naif - e imagino que a Palmier também não o será - para não saber que a banca a alavancar projectos, a gestão financeira mais criativa e a capacidade de influenciar são instrumentos ao dispor e que, usados com parcimónia e responsabilidade, são a diferença entre criar valor e não criar coisa nenhuma)

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    1. Desde que usados com parcimónia e responsabilidade... :)

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    2. "Mas a verdade é que, neste país, a imagem que construímos de nós e que projectamos aos outros é mais de meio caminho para chegar ao objectivo. Se a ensaiarmos bem ao espelho todas as manhãs, se acreditarmos muito naquilo que dizemos mesmo que não tenha um fundo de verdade, a mensagem cola onde quisermos, cola como aqueles autocolantes dos identificadores da Via Verde, se vestirmos o banqueiro e o representarmos como deve ser, os outros vêem em nós o banqueiro e compram, se formos convincentes, vende! Vende porque mais do que a substância a imagem é tudo. Ao contrário daquela frase que diz que podemos enganar uma pessoa muito tempo, mas não podemos enganar todos o tempo todo, em Portugal podemos enganar muita gente durante muito tempo, porque a verdade é que as pessoas estão tão atentas aos brilhos dos anéis que não conseguem ver em que bolsos entram as mãos. É que, lá está, este não passa de um país de deslumbrados."
      Excelente este trecho, para mim. E na vida como nos blogs....o rei vai nu. Mas não se diz...até um dia.

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  4. Pela postura tão diferente, admiro bastante o Nabeiro!

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    1. Ui... pois...
      (o negócio do café tem muito que se lhe diga...)

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    2. até um dia, até um dia...

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  5. Nada a ver com o post, mas quando o Tio Pipoco se deixa de tretas e comenta como pessoa normal, deixa sempre um perfume de inteligência e boa formação.

    Fora isto, belíssimo post, Palmier.

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  6. Palmier…estou engasgada…(imagina-me a levantar-me de rompante, atirando com estrépito a cadeira ao chão e aplaudindo enquanto grito "bravô!"
    (sim eu também tive oportunidade de o ver bem de perto várias vezes, e atesto e certifico que esse era o bruá que antecedia a sua passagem e esse o comportamento das traças tontas com a luz - das notas de quinhentos é que não sei nada, mas já se sabe que eu ando sempre distraida…)

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    1. :))))))))))))

      (a visão das notas só estava ao alcance dos crentes :DDDDDD)

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    2. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
      Seria isso então…
      :DD

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  7. Palmier, post maravilhoso, amei. Essencialmente uma análise que pega em alguns pontos chave que acentuam a crise no nosso país, como a irresponsabilidade da gestão, os compadrios, cunhas, interesses, etc.
    Mais uma vez, excelente.

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  8. Excelente análise.Esta novela é matéria-prima bem ao gosto de Eça e não só...
    Também sou adepta da "gestão de mercearia" talvez por não ter formação em gestão. Sei bem que não é com este tipo de gestão que se enriquece, mas espero que sirva para evitar a falência, espero...
    Só não concordo com uma coisa, estas progressões meteóricas, a vassalagem, o culto da imagem e a promiscuidade entre poder económico, politico e os media, não é coisa nossa. Antes fosse, e talvez a quinta-feira negra de 1929 e todos os terramotos afins que se lhe seguiram não tivessem acontecido.O mundo seria um sitio bem mais aprazível.

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    1. Hum... e então e o Dâmaso? :DDDDDDD

      (talvez não seja só coisa nossa...)

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    2. Também dá ares de César Biroteaum de Balzac. Até tem o "contabilista" :DDD
      Há tantas estórias destas na vida real que complicam a nossa História. A literatura tem muito por onde se inspirar. A miséria humana, a ganancia e avidez sempre foram bons temas.
      O Madoff, longe deste "cantinho céu", parece "farinha do mesmo saco", não é coisa só nossa, não. Só me espanta é que depois de acontecer uma vez, se repita, e repita, repita

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  9. Fantasticamente bem escrito e excelente exposição dos factos.
    A bolha rebentou para ele também. Afinal os deuses da finança não são poderosos magos nem são assim tão inalcançáveis .
    Implodiu, ainda não projectou escombros, mas resta saber quem ou quantos foram arrastados consigo para o buraco.

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    1. Ui... estou em crer que quando se auditar aquele banco como deve ser, vamos ter muitaaaaaaaaaas surpresas...

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  10. A situação "angustia-me" de tal forma que pondero, num gesto extremo, fazer como os três macacos, não falo, não vejo, não oiço.

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    1. Mas depois... mesmo sem querer, a pessoa fica enfeitiçada... :DDDD

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    2. Eu pergunto-me vezes sem conta como é possível? mas a verdade é que é possível e acontece.

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  11. Excelente! Nada a apontar!
    Há mais para dizer, mas nem os Maias nem Roma se fizeram num dia.

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    1. :DDDDDDDDD
      Eu sei... ainda me fervilham os dedos... :DDDDDDDD

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    2. Desta imensa novela, já imagino as cenas dos próximos capítulos: um em cenário de sobreiros, outro passado no antigo reino do Ndongo, e tantos mais. ;)

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  12. Quem dera que os gestores de topo, meio da tabela ou os de baixo, fizessem uma análise económica como a da Palmier...

    (peço desculpa, vai de férias? E que leio eu enquanto isso?)

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    1. (eu vou de férias mas levo o meu blog comigo! :DDDDDDDD)

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  13. Lloyd Blankfein, CEO da Goldman Sachs, disse há um tempito que, como banqueiro, se limitava a fazer "God's work". Eu diria que a questão aqui é precisamente de que deuses se estão a falar. Por muito grande que o DDT fosse à escala nacional, era, no cômputo geral, um deus menor. Estas quedas estrondosas acontecem não por tropeção, mas por empurrão. O deus menor foi desviado do caminho por um deus maior. Claro que, tal como na prestidigitação, nem tudo que parece, é. À data de ontem, a Goldman Sachs (que contratou em Janeiro um famoso assessor português para o seu International Advisory Board) passou a deter 127.665.987 acções do BES (sim, um bocadinho mais que 127 milhões de acções).
    Alguém continua, paulatinamente, a fazer o trabalho de Deus.

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    1. São uma espécie de Deuses dentro de Deuses... como num desenho do Escher... :)

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    2. (não tem nada a ver mas amo Escher)

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  14. clap, clap, clap, clap, clap
    Bem escrito sim Senhora, é pena haver muitos mais como ele, a questão será saber quem são os lobos em pele de cordeiro (esses bem falantes)...
    Mexias e Bavas e outros que tais, sabe-se lá quem?

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  15. Palmier, disseste tudo o que eu penso! Que portugueses estes nós! :(

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  16. Palmier, sinceramente, quando li o título bocejei e pensei "Lá vem esta com mais um post sobre o Salgado" mas depois comecei a ler e só tenho de te parabernizar por mais um post tão bem escrito.
    Boas Férias :)

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  17. Mais do que excelente, este é um post de eleição!
    Particularmente não aceito a sua modéstia, Eça não o descreveria com tanta profundidade analítica.
    E gostei particularmente dos seus conceitos de gestão. É verdade e sem poupança não há investimento.
    A base de sustentação de mil, um milhão ou milhares de milhões, é um cêntimo.
    É sempre um prazer comentá-la
    Umas excelentes férias.

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    1. Obrigada :)

      (ainda assim, acho que o Eça nos faz muita falta .)

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  18. Em tempos disseram-me que o truque é dever-se milhões, quanto mais melhor. Ninguém quer ficar a arder e as coisas acabam por se resolver. O problema é quando devemos cem ou duzentos mil euros, que aí até as cuecas nos leiloam.
    Infelizmente o Salgado ficará bem. Até porque de certeza que tem algum nas ilhas Cayman, têm todos...
    Excelente post, Palmier

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    1. Terá seguramente muito, mas... e o podeeeeeeeeeer?

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    2. Hum... Neste caso, tenho muitas dúvidas... mas neste país, tudo é possível...

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  19. Até fiquei assustado cara Palmier!

    Deus me livre de lavar as minhas pobres notinhas, ocultar uns passivozitos, beneficiar de amnistias fiscais, traficar "influenza", receber prendas aqui do clube de futebol do beco, vender dívida da empresa no banco da empresa que empresta dinheiro à empresa (aproximadamente, porque não são bem empresas, se é que percebi bem)...

    Caraças, hoje em dia um banqueiro e os amigos já não se podem divertir à custa do contribuinte? Ainda há uns anitos se podia... Há tanta boca a alimentar...

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    1. Realmente é incrível! Se um pobre banqueiro não pode fazer nada disto, não lhe sobra nada para fazer! :DDDDDDD

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  20. Respostas
    1. Eh pah... qualquer dia fico vaidosa :)

      (obrigada :)

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